Durante décadas ninguém percebeu que o coelho ibérico era uma espécie diferente e isso muda tudo
Investigação internacional revela que Portugal alberga uma espécie distinta, cuja proteção poderá ser decisiva para preservar o equilíbrio dos ecossistemas mediterrânicos.

O coelho ibérico sempre esteve à vista de todos, mas, durante décadas, foi tratado como uma variante do coelho europeu. O equívoco acabou por esconder o declínio de uma espécie única e atrasou uma resposta adaptada à realidade que, finalmente, a ciência acaba de revelar.
A investigação contou com a participação de cientistas da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO), que defendem o reconhecimento formal do coelho ibérico (Oryctolagus algirus) como uma espécie distinta do coelho europeu (Oryctolagus cuniculus).
A conclusão vai muito além de uma mera revisão taxonómica. Ao identificar duas espécies com histórias evolutivas e estados de conservação distintos, o trabalho abre caminho para estratégias de proteção de um animal essencial no equilíbrio dos ecossistemas mediterrânicos.
Um nome que escondia duas histórias
Durante muito tempo, a gestão das populações de coelhos na Península Ibérica partiu do pressuposto de que existia apenas uma espécie, distribuída por diferentes regiões.
No decurso desse processo de adaptação, acumularam diferenças genéticas, biológicas, ecológicas e reprodutivas suficientemente consistentes para justificar o reconhecimento de duas espécies distintas.
A equipa chegou a esta conclusão após reunir evidências recolhidas ao longo de várias décadas. A análise integrou informação detalhada proveniente de populações distribuídas por toda a Península Ibérica, permitindo construir um retrato mais completo da evolução destes animais.
Quando uma classificação influencia a conservação
As consequências desta descoberta são vastas e ultrapassam a esfera da taxonomia. Enquanto o coelho europeu ocupa sobretudo o norte e o leste da Península Ibérica e apresenta populações estáveis ou em expansão, o coelho ibérico encontra-se limitado a Portugal e ao sudoeste de Espanha, onde o número de indivíduos tem diminuído acentuadamente. Ao serem avaliadas como uma única espécie, estas diferenças ficaram diluídas numa visão global mais favorável.
Durante décadas, o coelho ibérico viveu, assim, com uma identidade emprestada. E essa designação comum ocultou a situação particularmente delicada de uma espécie cuja distribuição é muito mais limitada e vulnerável.

Os investigadores identificaram discrepâncias coerentes entre as duas espécies. O coelho ibérico é, em geral, mais pequeno e mais escuro, apresenta um comportamento menos social, vive em densidades populacionais inferiores, atinge mais cedo a maturidade sexual e produz ninhadas menos numerosas. Estas características refletem uma trajetória evolutiva própria e reforçam a necessidade de avaliá-la de forma independente.
Uma peça vital dos ecossistemas mediterrânicos
A revisão científica justifica-se, sobretudo, pela sua importância para a sustentabilidade dos habitats selvagens. O coelho ibérico ocupa uma posição central na cadeia alimentar dos ecossistemas mediterrânicos, constituindo uma das principais presas de espécies emblemáticas, como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica. O seu declínio pode, por isso, desencadear efeitos que se estendem a todo o equilíbrio ecológico da região.
Nuno Ferrand, professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e diretor do BIOPOLIS-CIBIO.
A equipa defende ainda uma reavaliação das políticas de gestão da fauna na Península Ibérica, incluindo o ajustamento dos períodos e das quotas de caça, a redefinição dos programas de translocação entre regiões e o desenvolvimento de métodos que permitam distinguir as duas espécies no terreno e delimitar com maior precisão a sua distribuição.
Quatro décadas para chegar a uma resposta
A conclusão agora publicada resulta de cerca de 40 anos de investigação. Ao longo desse período, sucessivas evidências revelaram que a diversidade do coelho selvagem na Península Ibérica era maior do que se imaginava.
Para Nuno Ferrand, ver este conhecimento traduzir-se em consequências concretas para a conservação representa um marco particularmente significativo. Além de acrescentar uma nova espécie à classificação científica, o estudo altera a forma como este animal passa a ser compreendido e protegido.
A ciência validou agora formalmente a identidade biológica do coelho ibérico. O novo enquadramento poderá ser o primeiro passo para assegurar o futuro de uma espécie que sempre fez parte da nossa paisagem, mas cuja singularidade só agora foi plenamente reconhecida.
Referência da notícia
Universidade do Porto. Docentes da FCUP publicam estudo que poderá ajudar a proteger o coelho ibérico.
Rafael Villafuerte, Paulo C. Alves, Miguel Carneiro, Francisca Castro, Pedro J. Esteves, Julia E. Fa, Nuno Ferrand, Vicente Piorno, João Queiros, Carlos Rouco, Patricia H. Vaquerizas, Miguel Delibes-Mateos. When taxonomy lags behind evolution: Conservation implications of cryptic diversity in the Iberian rabbit. Biological Conservation.