Da boca ao intestino: o que podem as bactérias revelar sobre a psicopatia humana?

Estudo sugere que algumas pistas sobre a personalidade podem estar para lá do cérebro. Investigadores do Porto procuraram-nas num território inesperado: as bactérias que vivem na boca e no intestino.

Milhares de microrganismos vivem na boca e no intestino humano, formando ecossistemas que a ciência começa agora a relacionar com o comportamento. Imagem gerada por IA: Adobe Stock
Milhares de microrganismos vivem na boca e no intestino humano, formando ecossistemas que a ciência começa agora a relacionar com o comportamento. Imagem gerada por IA: Adobe Stock

O cérebro será o lugar mais óbvio para procurar explicações para alguns dos traços mais obscuros da personalidade humana. Mas não foi por aí que seguiram os investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto. Foram procurar mais abaixo: primeiro na boca, depois no intestino.

O estudo, publicado na revista Translational Psychiatry, analisou a composição da microbiota oral e intestinal de 200 participantes e procurou perceber se existiam associações entre esses microrganismos, determinadas substâncias produzidas pelo organismo e traços associados à psicopatia.

A investigação parte de uma mudança que se tem vindo a afirmar na ciência: o reconhecimento de que o enorme ecossistema de microrganismos a viver no nosso corpo não é um mero passageiro.

A microbiota e o comportamento humano

A microbiota participa em processos metabólicos e mantém uma relação complexa com o organismo, incluindo através do chamado eixo microbiota-intestino-cérebro.

A possibilidade de esta relação estar ligada ao comportamento não é inteiramente nova. Estudos anteriores já encontraram associações entre a microbiota e transtornos como ansiedade e depressão.

O que esta equipa procurou de novo foi saber se existia também uma relação com traços de personalidade associados à psicopatia, como o distanciamento emocional, a impulsividade e tendências antissociais.

Os investigadores encontraram diferenças na composição de algumas comunidades bacterianas presentes no intestino e na cavidade oral dos participantes e identificaram relações entre determinadas bactérias e as pontuações obtidas numa escala de avaliação de traços psicopáticos.

O eixo intestino-cérebro permite a comunicação entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central, uma relação que está no centro de novas linhas de investigação. Imagem gerada por IA: Adobe Stock
O eixo intestino-cérebro permite a comunicação entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central, uma relação que está no centro de novas linhas de investigação. Imagem gerada por IA: Adobe Stock

Algumas bactérias intestinais, entre elas Allisonella, Prevotella, Ruminococcaceae DTU089 e Cloacibacillus evryensis, apresentaram diferenças de abundância entre grupos e algumas mostraram associações positivas com essas pontuações. Na boca, Treponema vincentii apresentou uma associação negativa. Nenhuma delas, porém, pode ser considerada “a bactéria da psicopatia”.

Depois das bactérias, vieram as moléculas

A viagem, contudo, está longe de terminar nos microrganismos. Ao analisar os metabolitos presentes nas amostras, os cientistas encontraram diferenças nos níveis de glicose e taurina nas fezes. Ambas as substâncias apresentaram associações positivas com as pontuações de traços psicopáticos.

É aqui que o estudo acrescenta uma segunda camada à história. Não estão apenas em causa as bactérias que vivem no organismo, mas também as moléculas que resultam da sua atividade ou que podem ser por ela modificadas.

E se parte dessa química, envolvida na comunicação entre o intestino e o cérebro, também participar nos processos que ajudam a explicar diferenças na forma como algumas pessoas sentem, pensam e se relacionam com os outros? A pergunta é nova. E, por enquanto, continua a ser uma pergunta.

A psicopatia não está no intestino

A descoberta é intrigante, mas exige cautela. Encontrar diferenças na microbiota ou nos metabolitos associados a pessoas com mais traços psicopáticos não significa que essas alterações provoquem esses comportamentos.

No estudo, os participantes foram avaliados num determinado momento, permitindo identificar padrões que aparecem em conjunto, mas sem especificar qual surgiu primeiro nem se um provoca o outro.

Pode ser que determinadas características biológicas contribuam para alterações na microbiota. Pode acontecer o contrário. Ou podem existir outros factores, como a alimentação, o estilo de vida ou o ambiente, que ajudem a explicar simultaneamente as duas coisas.

Há ainda outra distinção que importa deixar clara. Os investigadores não desenvolveram um teste capaz de identificar pessoas com psicopatia através de uma análise às fezes ou à saliva. Também não procuraram diagnosticar psicopatia.

O que fizeram foi avaliar traços psicopáticos, através de uma escala, e procurar padrões biológicos que pudessem acompanhar a intensidade desses traços. A importância da descoberta não está, por isso, em permitir identificar um “psicopata” através da microbiota. Está a sugerir que a biologia do comportamento pode ser ainda mais distribuída pelo organismo do que se pensava.

Do microbioma até ao cérebro

As bactérias do intestino não estão isoladas do resto do corpo. Através das moléculas que produzem ou transformam, podem participar numa rede de comunicação que liga o intestino ao cérebro. É esta relação, conhecida como eixo microbiota-intestino-cérebro, que tornou plausível procurar aqui pistas sobre comportamento e personalidade.

Compreender a relação entre microbiota, metabolismo e comportamento poderá abrir novas linhas de investigação, embora ainda não haja tratamentos baseados nesses resultados. Imagem gerada por IA: Adobe Stock
Compreender a relação entre microbiota, metabolismo e comportamento poderá abrir novas linhas de investigação, embora ainda não haja tratamentos baseados nesses resultados. Imagem gerada por IA: Adobe Stock

Neste estudo, as diferenças encontradas na glicose e na taurina acrescentam uma dimensão metabólica às associações observadas entre microbiota e traços psicopáticos. Mas ainda falta perceber como estas peças se encaixam.

Que bactérias estão envolvidas? Que substâncias produzem ou modificam? E essas alterações têm alguma influência sobre o cérebro ou são apenas uma consequência de outros fatores?

São perguntas para investigações futuras. Será necessário acompanhar pessoas ao longo do tempo e, sobretudo, realizar experiências capazes de testar mecanismos de causa e efeito. Só assim será possível perceber se estas assinaturas biológicas têm algum papel ativo nos traços estudados ou se são sobretudo consequência de outros processos.

A ligação entre intestino e cérebro tem vindo a ganhar importância na investigação biomédica. A microbiota intestinal participa em processos metabólicos e pode influenciar moléculas envolvidas na comunicação com o sistema nervoso. Alguns metabolitos derivados ou modulados pela atividade microbiana podem, por diferentes vias, participar em processos fisiológicos que afetam o cérebro.

O que comemos também faz parte da equação?

É aqui que surge uma das possibilidades mais intrigantes, mas também uma das mais especulativas. Se futuras investigações demonstrarem que determinados componentes da microbiota ou certos metabolitos participam efetivamente nas vias que influenciam o comportamento, a alimentação ou a modulação do microbioma poderão vir a ser estudados como componentes complementares de estratégias de intervenção.

Por agora, porém, essa possibilidade pertence ao futuro. O estudo não testou dietas, probióticos, transplantes de microbiota ou qualquer tratamento para a psicopatia. O que fez foi abrir uma porta.

Durante décadas, a investigação sobre a biologia da psicopatia concentrou-se sobretudo no cérebro, no ADN e na influência de fatores sociais e ambientais. Este estudo acrescenta outro território à procura: o ecossistema de microrganismos que vive no nosso corpo. Ainda não sabemos se essas bactérias e moléculas são meras testemunhas do processo ou se têm, de facto, algum papel nele. É essa a pergunta que fica à porta do próximo estudo.

Referência da notícia

Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), Universidade do Porto. i3S study suggests link between psychopathic traits and gut and oral bacteria.
Carolina F. F. A. Costa, Daniel Radford-Smith, Alexandre R. T. Figueiredo, Rita C. M. Ribeiro, Sofia Pinto, Fay Probert, Renata Barros, Paula Serrão, Luisa Barreiros, Marcela A. Segundo, Daniel C. Anthony, Fernando Barbosa, Philip W. J. Burnet & Benedita Sampaio-Maia. Gut and oral microbiota composition is associated with psychopathic personality: a cross-sectional study.