Corrida contra o tempo: a perda anual de 5.000 meteoritos devido à crise climática
Impacto climático na ciência: 24% dos meteoritos à superfície da Antártida serão perdidos até 2050. Saiba mais aqui!

Este estudo, publicado na Nature Climate Change, revela que o aquecimento global está a ameaçar a preservação de meteoritos na Antártida, um dos locais mais prolíficos para a recolha destas amostras extraterrestres. Atualmente, mais de 60% de todos os meteoritos encontrados na Terra são provenientes da superfície da camada de gelo antártica. Estas rochas são cruciais para a ciência, pois fornecem informações sobre a origem e evolução do Sistema Solar.
O mecanismo de desaparecimento
Ao contrário do que se possa pensar, os meteoritos não estão a desaparecer apenas devido ao degelo generalizado da camada de gelo.
Este calor é transferido para o gelo subjacente, criando uma pequena bolsa de água que faz com que o meteorito se afunde gradualmente na camada de gelo. Uma vez que o meteorito se afunda, ele torna-se visualmente indetetável e tecnicamente inacessível para os investigadores.
Quantificação da perda
Através de análises de dados e modelação climática, os investigadores estimam que:
- Cerca de 5.000 meteoritos tornam-se inacessíveis por ano nas condições atuais, um ritmo cinco vezes superior à taxa de recolha anual (aproximadamente 1.000 meteoritos/ano).

- Até 2050, independentemente do cenário de emissões de gases de efeito estufa, cerca de 24% dos meteoritos na superfície serão perdidos.
- Sob um cenário de altas emissões, este número pode subir para 76% até ao ano 2100.
- Estima-se que entre 5.100 a 12.200 meteoritos sejam perdidos por cada décimo de grau de aumento na temperatura global.
Áreas vulneráveis e impacto geográfico
As perdas não são uniformes em todo o continente. Zonas de recolha famosas e ricas, como as Montanhas Grove e a região de Enderby Land, podem perder até 50% dos seus meteoritos antes de 2050.
Em contrapartida, áreas em altitudes entre 1.800 e 2.000 metros, que atualmente detêm as maiores concentrações de amostras, enfrentam uma redução de 88% sob cenários de aquecimento elevado.
Apelo à ação
O artigo sublinha a urgência de uma coordenação internacional para acelerar a recolha destas amostras antes que se tornem irrecuperáveis. As recomendações incluem um esforço internacional intensivo nos próximos 10 a 15 anos para explorar locais conhecidos e áreas ainda não visitadas.
O uso de tecnologias avançadas, como robótica e observações por drones (UAVs), para aumentar a eficiência das buscas em ambientes extremos. A implementação de arquivos de longo prazo para meteoritos, semelhante ao que é feito com amostras de núcleos de gelo de glaciares em vias de desaparecimento.
Em última análise, os autores advertem que a única forma de preservar o património científico restante na Antártida a longo prazo é atrav��s da redução rápida das emissões de gases de efeito estufa.
Referência da notícia
Tollenaar, V., Zekollari, H., Kittel, C. et al. Antarctic meteorites threatened by climate warming. Nat. Clim. Chang. 14, 340–343 (2024). https://doi.org/10.1038/s41558-024-01954-y