Como pode o calor tornar-se uma ameaça para a saúde materna

Um estudo revela que a combinação entre as temperaturas elevadas e a humidade pode afetar a fertilidade e aumentar os riscos de interrupção da gravidez, num cenário de alterações climáticas. Venha saber mais aqui!

A combinação entre as temperaturas elevadas e a humidade dificulta a regulação da temperatura corporal, aumentando o stress térmico durante a gravidez.
A combinação entre as temperaturas elevadas e a humidade dificulta a regulação da temperatura corporal, aumentando o stress térmico durante a gravidez.


As alterações climáticas estão a intensificar os episódios de calor húmido, uma combinação de condições meteorológicas que podem ter consequências importantes para a saúde das grávidas e o desenvolvimento dos bebés.

O aumento das temperaturas é frequentemente associado a riscos para a saúde humana, mas existe outro fator que merece cada vez mais atenção, a humidade.

Quando os dois fenómenos se conjugam, o organismo tem uma
maior dificuldade em libertar calor
, tornando a exposição a temperaturas elevadas particularmente exigente para o corpo humano. Durante a gravidez, esta situação pode assumir uma importância acrescida.

Quando o calor se torna mais difícil de suportar

A humidade elevada dificulta a evaporação do suor, um dos principais mecanismos utilizados pelo organismo para regular a temperatura corporal.

Assim, quando o ar já contém grandes quantidades de vapor de água, o arrefecimento natural torna-se menos eficiente, aumentando o risco de sobreaquecimento e de problemas associados ao stress térmico.

"A humidade desempenha um papel muito importante na exposição ao calor durante a gravidez e quisemos estudar não apenas os efeitos do calor, mas também os do calor húmido." Segundo Nina Brooks, professora auxiliar na Escola de Ambiente e Sustentabilidade da Universidade do Michigan.

Durante a gravidez, o corpo passa por diversas alterações fisiológicas e enfrenta exigências adicionais. Desta forma, compreender de que forma é que a combinação entre a temperatura e a humidade pode interferir com a saúde reprodutiva é cada vez mais importante, sobretudo num contexto de alterações climáticas.

Uma investigação centrada na realidade da Nigéria

Segundo uma investigação liderada pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos e publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os cientistas procuraram aprofundar esta relação através da análise de dados de saúde e condições meteorológicas na Nigéria, um dos países mais populosos de África e particularmente vulnerável ao aumento do calor e da humidade.

Estudo avalia a existência entre a exposição ao calor húmido e maiores riscos para a saúde reprodutiva.
Estudo avalia a existência entre a exposição ao calor húmido e maiores riscos para a saúde reprodutiva.

O estudo cruzou informação de dois períodos dos Inquéritos Demográficos e de Saúde da Nigéria, abrangendo dados de gravidezes entre 2003 e 2016, com estimativas de exposição ao calor húmido.

Para avaliar esta exposição, os investigadores recorreram à chamada temperatura de globo e bolbo húmido, um indicador que combina diferentes variáveis ambientais, incluindo a temperatura e a humidade, permitindo avaliar melhor o stress térmico a que o organismo está sujeito.

Os resultados revelaram uma associação significativa entre a exposição a níveis elevados de calor húmido e uma maior probabilidade de interrupção precoce da gravidez. Contudo, os dados disponíveis não permitiram distinguir se estas interrupções foram espontâneas ou induzidas, uma limitação importante na interpretação das conclusões.

O calor também pode alterar o momento da conceção

Outra descoberta relevante diz respeito à fertilidade. Durante os meses de maior exposição ao calor húmido, o número de conceções diminuiu cerca de 1,4% relativamente à média habitual, que ultrapassava as 15 conceções por cada mil mulheres por mês.

As mulheres que vivem em comunidades rurais e com menos recursos podem enfrentar maiores dificuldades para se protegerem dos episódios de calor extremo.
As mulheres que vivem em comunidades rurais e com menos recursos podem enfrentar maiores dificuldades para se protegerem dos episódios de calor extremo.

No entanto, o padrão inverteu-se nos meses que se seguiram, as conceções aumentaram 2,3% no mês posterior e 5% dois meses depois. Isto sugere que a exposição ao calor pode influenciar não apenas a probabilidade de engravidar, mas também o momento em que ocorre a conceção.

Todavia os efeitos não foram iguais em todas as comunidades. As alterações foram particularmente evidentes entre mulheres com níveis de escolaridade mais baixos e residentes em zonas rurais. Também se observaram diferenças regionais, com mudanças mais acentuadas no norte da Nigéria.

Uma questão de saúde pública e desigualdade

A investigação reforça a necessidade de considerar a humidade nas políticas de adaptação às alterações climáticas. As populações com menos recursos, menor acesso a cuidados de saúde e condições habitacionais mais vulneráveis podem enfrentar maiores dificuldades para se protegerem dos episódios de calor extremo.

Os investigadores defendem que é necessário aprofundar o conhecimento sobre a forma como as mulheres experienciam estes fenómenos e desenvolver orientações de saúde pública ajustadas às diferentes realidades sociais e geográficas.

Mais do que um problema de desconforto provocado pelas temperaturas elevadas, o calor húmido pode representar um desafio para a saúde reprodutiva. À medida que as alterações climáticas intensificam estes episódios, compreender os seus efeitos torna-se essencial para proteger a saúde materna e reduzir desigualdades.

Referências da notícia

Matt Davenport. (2026). It’s not (just) the heat, it’s the humidity: Examining the impact of intensifying humid heat on pregnancies..
Nina Brooks, Cascade Tuholske, Kathryn , and Kwaw S. Andam. (2026). Humid-heat shifts conceptions and increases pregnancy termination risks in Nigeria.