Cientistas chegam a uma conclusão inesperada em relação ao comportamento do Oceano Antártico no futuro
Atendendo às alterações climáticas, os oceanos desempenham um papel fundamental para a regulação climática global, visto serem os maiores sumidouros naturais de carbono da atmosfera.

Estima-se que os oceanos do mundo tenham absorvido cerca de 30% das emissões de dióxido de carbono provocadas pela atividade humana, sendo que o Oceano Antártico representa cerca de 40% a 50% dessa absorção.
Oceano Antártico de sumidouro de carbono para emissor de carbono
O Oceano Antártico é o oceano que absorve mais dióxido de carbono, o que se justifica, pois, as águas mais frias dissolvem gases com maior facilidade que as águas mais quentes. Além disso, é um oceano rico em nutrientes que alimentam o fitoplâncton existente, organismos microscópios que fazem fotossíntese, que por seu lado consome o carbono.
Os esforços para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais dependem da obtenção de emissões líquidas nulas, quando o dióxido de carbono (CO2) atmosférico regressa aos níveis iniciais, e, em muitos casos, da remoção ativa de CO2 da atmosfera.

Embora isto ajude a limitar os eventos climáticos extremos, como a subida do nível do mar, a perda de ecossistemas e o risco de desencadear pontos de inflexão climáticos irreversíveis, um novo estudo, publicado na revista Science Advances, revela que a redução dos níveis de CO2 pode ter um efeito inesperado.
A equipa executou dois cenários idealizados de emissões a longo prazo para testar a resposta do Oceano Antártico. O primeiro cenário atinge emissões líquidas nulas até meados do século, enquanto o segundo continua para além desse ponto com emissões negativas sustentadas através de tecnologias de captura direta do ar.
Foram comparadas 10 simulações para cada cenário e confirmou-se a absorção recente de CO2 pelo oceano, segundo o modelo, em relação às estimativas baseadas em observações.
Esta alteração persiste mesmo só com a redução do CO2 atmosférico. Os investigadores afirmam que, uma vez reduzidas as emissões de CO2, a absorção de CO2 no Oceano Antártico diminui rapidamente e depois transforma-se gradualmente numa fonte líquida de CO2.
De acordo com o estudo, a evolução temporal do fluxo médio global de CO2 entre o ar e o mar é caracterizada por uma maior absorção oceânica de CO2 até que o pico de emissões seja atingido (aproximadamente em 2050), seguida por uma absorção reduzida à medida que as emissões diminuem.
Causas da inversão
Esta inversão deve-se a dois fatores desencadeantes: o aquecimento persistente das águas superficiais do Oceano Antártico, que retêm menos dióxido de carbono dissolvido, visto estarem mais quentes (água mais quentes retêm menos CO2), e um declínio generalizado da alcalinidade da água do mar, o que enfraquece a capacidade química da água para absorver o carbono.
Ambos os fatores elevam a pressão interna de dióxido de carbono no oceano até que esta exceda a da atmosfera, invertendo o fluxo ar-mar, de modo a que o oceano liberte dióxido de carbono em vez de o absorver.

Existem ainda muitas incógnitas e estas simulações carecem frequentemente de detalhes que possam afetar o resultado. Neste caso, as projeções da química do carbono no Oceano Antártico diferem entre os modelos, sendo que o estudo utiliza apenas um.
Os autores também referem que o estudo se baseia num único modelo climático e que este omite a camada de gelo da Antártida, que poderá afetar os processos regionais de água doce e oceânica.
Alertam ainda que é necessária uma monitorização contínua e de várias décadas da química dos carbonatos no Oceano Antártico, incluindo a alcalinidade, para reduzir as incertezas atuais dos modelos e confirmar a eficácia duradoura das estratégias de mitigação climática.
Os autores defendem que a redução das emissões continua a ser essencial, mas que o sistema climático pode responder com longos atrasos que complicam a recuperação.
Referência da notícia
Lee, H., Kug, J. et al.. (2006). Enhanced carbon loss in the Southern Ocean under mitigation scenarios.