Os arrozais que alimentam o país são também um dos últimos refúgios para as aves aquáticas

A destruição das zonas húmidas aproximou agricultores e aves aquáticas. Um novo estudo mostra que a coexistência depende tanto da conservação da natureza como de quem cultiva a terra.

Os arrozais da Lezíria Grande produzem alimento e servem de refúgio a aves aquáticas que dependem hoje destes ecossistemas agrícolas. Foto: Adobe Stock
Os arrozais da Lezíria Grande produzem alimento e servem de refúgio a aves aquáticas que dependem hoje destes ecossistemas agrícolas. Foto: Adobe Stock

Os arrozais, durante séculos, existiram com o único propósito de produzir alimento. Mas, à medida que pântanos, lagoas e estuários desapareceram sob a pressão urbana e agrícola, muitos destes campos inundados transformaram-se em refúgios para milhares de aves aquáticas.

O mesmo terreno que, todos os anos, garante as colheitas de arroz passou também a acolher flamingos, garças, íbis, patos e muitas outras espécies migratórias que percorrem a rota Atlântica Oriental.

Onde antes havia zonas húmidas naturais, surgem agora arrozais capazes de oferecer alimento, abrigo e locais de descanso durante algumas das etapas mais exigentes das suas migrações.

Os ecossistemas da Lezíria Grande

Na Lezíria Grande, no concelho de Vila Franca de Xira, essa convivência faz parte da paisagem. Os campos inundados reproduzem muitas das condições ecológicas que estas aves procuram.

A água pouco profunda favorece o desenvolvimento de peixes, anfíbios, insetos e sementes que sustentam cadeias alimentares inteiras. A vegetação proporciona proteção durante a reprodução e cria corredores ecológicos entre áreas naturais cada vez mais fragmentadas.

Mas estes benefícios não são exclusivos da vida selvagem. Ao se alimentarem de lagartas, percevejos e outros insetos que atacam as plantas de arroz, várias espécies ajudam naturalmente a controlar pragas agrícolas. Essa predação reduz a necessidade de recorrer a inseticidas, diminui os custos de produção e contribui para uma agricultura ambientalmente equilibrada.

Benefícios para ambas as partes

Durante muito tempo, esta dimensão positiva da relação entre aves e agricultores esteve praticamente ausente do debate público. A atenção concentrou-se, quase sempre, nos estragos que algumas espécies causam nas culturas.

Olhar para um arrozal apenas como um campo de produção agrícola significa, no entanto, esquecer as suas funções ecológicas essenciais para a conservação da biodiversidade.

Foi dessa coexistência que partiu um estudo recentemente publicado na revista European Journal of Wildlife Research. No âmbito do seu doutoramento no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, João Paulino procurou compreender como os produtores de arroz da Lezíria Grande veem as aves aquáticas com as quais partilham diariamente este território.

Ouvir os agricultores para proteger a biodiversidade

A investigação, desenvolvida em colaboração com Pedro Granadeiro, Teresa Catry e Ana Nuno, não pretendeu estudar apenas os impactos das aves nas culturas. Procurou também compreender um aspeto frequentemente esquecido nas estratégias de conservação.

Quando a sobrevivência de muitas espécies depende cada vez mais de paisagens alteradas pelo ser humano, será possível protegê-las sem escutar quem trabalha nesses territórios todos os dias?

A resposta não é linear porque uma paisagem capaz de sustentar milhares de aves migradoras pode, ao mesmo tempo, representar perdas económicas para os agricultores. E é nesse delicado equilíbrio que se encontra o objetivo deste estudo.

O diálogo na base da conservação

As opiniões dos agricultores variam consideravelmente segundo a idade. Enquanto os mais jovens têm uma visão predominantemente negativa sobre as aves aquáticas, os mais velhos revelam uma menor rejeição. Mas este último grupo etário demonstra uma menor abertura para implementar medidas que mitiguem estes conflitos.

Os participantes com níveis de escolaridade mais elevados, em contrapartida, mostram receptividade a adoptar soluções de coexistência e maior confiança na eficácia de medidas de dissuasão direcionadas.

A Lezíria Grande é uma das mais importantes zonas húmidas da Europa para as aves aquáticas, com cerca de 200 espécies registadas. imagem: FENAREG
A Lezíria Grande é uma das mais importantes zonas húmidas da Europa para as aves aquáticas, com cerca de 200 espécies registadas. imagem: FENAREG

Estas diferenças ajudam a compreender que a relação entre agricultura e conservação não depende unicamente dos impactos reais provocados pelas aves. É também influenciada pela experiência de cada produtor, pela forma como interpreta esses prejuízos e pela confiança que deposita nas soluções propostas.

É por isso que a equipa defende uma mudança de abordagem. Em vez de tratar os agricultores apenas como destinatários de medidas de conservação, os investigadores propõem que passem a ser parceiros na produção de conhecimento científico.

Uma das recomendações passa pela recolha sistemática de dados sobre os danos causados pelas aves, envolvendo os próprios produtores nesse processo. Só assim será possível quantificar o verdadeiro impacto económico nas culturas e identificar, com rigor, quais as espécies responsáveis pelos prejuízos.

Essa informação permitiria desenvolver estratégias muito mais seletivas, dirigidas apenas às aves problemáticas, evitando afastar indiscriminadamente espécies que ajudam a controlar insetos e outras pragas agrícolas.

A investigação aponta ainda para a necessidade de reforçar ações de educação ambiental e criar esquemas agroambientais que reconheçam o papel dos arrozais na conservação da biodiversidade, compensando os agricultores pelos serviços ecológicos que estes ecossistemas prestam à sociedade.

Entre as plantas de arroz, as garças recordam que estes campos são também um importante habitat para a biodiversidade. Foto: Adobe Stock
Entre as plantas de arroz, as garças recordam que estes campos são também um importante habitat para a biodiversidade. Foto: Adobe Stock

O estudo, no fundo, deixa uma ideia profundamente atual. A coexistência entre agricultura e natureza dificilmente se constrói escolhendo um lado. Constrói-se quando a ciência deixa de falar apenas sobre agricultores e aves e começa, finalmente, a aproximá-los na procura de soluções comuns.

Referência da notícia

João Paulino, José Pedro Granadeiro, Ana Nuno & Teresa Catry. Conflict or coexistence? Rice farmers’ perceptions of services and disservices provided by waterbirds and the challenges of conflict mitigation. European Journal of Wildlife Research.