Biólogos declaram extinto o maçarico de bico fino: é a segunda espécie de ave que desaparece na Europa

A extinção do maçarico-de-bico-fino não é um acontecimento isolado, mas sim um sintoma de uma crise mais vasta que ameaça a biodiversidade europeia e que, provavelmente, afetará também as atividades humanas.

Espécime de Numenius tenuirostris em exposição no MUSE em Trento (Itália). Foto retirada da Wikipédia.
Espécime de Numenius tenuirostris em exposição no MUSE em Trento (Itália). Foto retirada da Wikipédia.

O maçarico-de-bico-fino (Numenius tenuirostris), também conhecido por maçarico real, foi declarado extinto pelos cientistas. Esta triste notícia, confirmada por um estudo recente publicado na revista Ibis, constitui uma perda trágica para a biodiversidade europeia.

É a segunda espécie de ave a desaparecer do continente nos últimos 100 anos, depois do ostraceiro das Canárias na década de 1940.

A sua extinção não é apenas um luto para os amantes da natureza, mas também um sinal de alarme que soa bem alto em toda a Europa, sublinhando a fragilidade dos ecossistemas e o papel crucial que a biodiversidade desempenha para o bem-estar humano.

Uma espécie que é símbolo da natureza migratória

O maçarico de bico fino era uma ave migratória extraordinária. Com o seu corpo esguio, com cerca de 40 centímetros de altura, o seu pescoço claro e o seu bico longo e curvo característico, percorria milhares de quilómetros todos os anos, nidificando nas turfeiras da Sibéria Ocidental e da Ásia Central e invernava nas zonas húmidas do Mediterrâneo.

O desaparecimento do pico fino não aconteceu por acaso, mas é o resultado de uma combinação letal de fatores, muitos deles relacionados com a atividade humana.
O desaparecimento do pico fino não aconteceu por acaso, mas é o resultado de uma combinação letal de fatores, muitos deles relacionados com a atividade humana.

O último avistamento confirmado foi em 1995, na lagoa Merja Zerga, em Marrocos, e desde então, apesar dos esforços de ornitólogos e conservacionistas, não voltou a ser encontrado. A probabilidade de a espécie estar extinta é estimada em 96%, um valor que reflete o resultado de décadas de declínio imparável.

As causas de uma extinção anunciada

O desaparecimento do maçarico-de-bico-fino não aconteceu por acaso, mas foi o resultado de uma combinação letal de fatores, muitos deles relacionados com a atividade humana.

A destruição dos habitats naturais foi uma das principais causas, uma vez que a expansão agrícola e a recuperação de zonas húmidas, tanto nos locais de reprodução como de invernada, privaram a ave de locais essenciais de nidificação e alimentação.

À medida que a espécie se tornou rara, a procura de espécimes para coleções privadas aumentou, acelerando o seu declínio. A poluição, as alterações climáticas e a lenta taxa de reprodução da espécie completaram o quadro, tornando impossível a recuperação da população.

Um sinal de alarme para a Europa

A extinção do maçarico-de-bico-fino não é um acontecimento isolado, mas um sintoma de uma crise mais vasta que ameaça a biodiversidade da Europa. É a primeira espécie de ave migratória a ser declarada extinta no continente e a segunda no último século, o que põe em evidência a perda acelerada de vida selvagem.

As aves migratórias, como o maçarico, são indicadores valiosos da saúde dos ecossistemas: a sua capacidade de ligar nações e continentes através de rotas migratórias torna-as sentinelas das alterações ambientais à escala global.

Esta evolução é particularmente alarmante para a Europa, pois mostra que mesmo um continente rico em recursos e conhecimentos científicos não está imune à perda de biodiversidade.

O desaparecimento de uma espécie deste tipo é um sinal de que os habitats naturais estão a colapsar, as redes ecológicas estão a quebrar-se e as pressões antropogénicas estão a ultrapassar o ponto de não retorno.

A Lista Vermelha da IUCN elevou recentemente o nível de ameaça de 16 outras espécies de aves migratórias costeiras, alertando para o facto de o maçarico poder ser apenas o primeiro de uma longa série.

A importância da biodiversidade para os seres humanos

A riqueza da biodiversidade não é um luxo, mas uma necessidade vital para a humanidade. Os ecossistemas saudáveis, dos quais fazem parte aves como o maçarico, desempenham um papel fundamental: regulam o clima, purificam a água, polinizam as culturas e mantêm o solo fértil.

A riqueza da biodiversidade é vital para a humanidade. Os ecossistemas saudáveis, dos quais aves como o maçarico-real são parte integrante, prestam serviços fundamentais como a purificação da água, a polinização e a manutenção de solos férteis.
A riqueza da biodiversidade é vital para a humanidade. Os ecossistemas saudáveis, dos quais aves como o maçarico-real são parte integrante, prestam serviços fundamentais como a purificação da água, a polinização e a manutenção de solos férteis.

A perda de uma única espécie pode desencadear efeitos em cascata, desestabilizando redes ecológicas inteiras. Por exemplo, o maçarico, ao alimentar-se de invertebrados nas zonas húmidas, contribuía para o controlo das populações de invertebrados, ajudando a preservar o equilíbrio dos habitats costeiros.

A sua ausência poderá fomentar desequilíbrios que, com o tempo, afetarão também as atividades humanas, como a pesca e a agricultura.

Além disto, a biodiversidade tem também um valor cultural e espiritual inestimável. O canto do maçarico, outrora familiar nos pântanos e ao longo das costas, fazia parte do património natural da Europa. Perder estas vozes significa empobrecer a nossa ligação com a natureza, uma ligação que afeta a nossa saúde mental e o nosso sentimento de pertença ao mundo.

Referência da notícia

Buchanan, G.M., Chapple, B., Berryman, A.J., Crockford, N., Jansen, J.J.F.J. and Bond, A.L. (2025), Global extinction of Slender-billed Curlew (Numenius tenuirostris). Ibis. https://doi.org/10.1111/ibi.13368