Dique em colapso iminente obriga a gigantesca operação para retirar a população do Vale do Mondego
As chuvas das últimas horas colocaram o sistema hidráulico do Mondego à beira da rutura. As autarquias mobilizaram todos os meios para retirar milhares de residentes das zonas ribeirinhas de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho.

Mais de três mil residentes que, ao longo das últimas horas, estavam ainda a ser retirados dos concelhos de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho é uma operação gigantesca e inédita em Portugal, que ficará, certamente, na nossa memória.
O sistema de drenagem atingiu, durante a noite de ontem, níveis recordes de passagem de água. O máximo que os diques aguentam são dois mil metros cúbicos por segundo e os valores chegaram aos 1900 m3/s.
Ordem para abandonar as casas
Diante deste cenário, a decisão de retirar os habitantes nos três concelhos da região Coimbra avançou de imediato. Exército, fuzileiros, bombeiros, GNR e PSP, mobilizados de emergência, bateram porta-a-porta, pedindo aos residentes para manterem a calma e se dirigirem para os pontos de acolhimento.

As juntas de freguesia disponibilizaram botes, carros dos bombeiros, autocarros dos transportes urbanos e lugares de estacionamento para os deslocados. Escolas, pavilhões e instalações de associações recreativas estavam já preparados com camas, refeições e apoio médico e assistencial.
Prevenção nas zonas ribeirinhas
No concelho de Coimbra, cerca de três mil habitantes estavam de sobreaviso. Cerca de 300 residentes já foram, entretanto, retirados. Tratou-se de uma medida de prevenção que a autarquia conduziu nas zonas ribeirinhas de Ceira, Torres do Mondego, São Martinho do Bispo, Ribeira de Frades, Taveiro, Ameal e Arzila. Também todas as escolas da margem esquerda do rio foram encerradas por questões de segurança.
As operações em Soure incluíram as freguesias de Granja do Ulmeiro, Alfarelos e Figueiró do Campo, que estão localizadas mesmo em cima da corda do Mondego, mas também Samuel e Vinha da Rainha.

À semelhança de Coimbra, o município encerrou as escolas não só devido ao risco de cheias nas zonas ribeirinhas, mas sobretudo para não atrapalhar os trabalhos que ainda decorrem nas estradas para remover árvores caídas e reparar taludes e muros, que se romperam com os deslizamentos de terras.
Uma centena de moradores de Montemor-o-Velho abandonou igualmente as suas casas ao longo das últimas horas. As localidades mais vulneráveis situam-se na margem esquerda do Mondego – Pereira, Formoselha, Santo Varão e Caixeira –além da aldeia isolada da Ereira e o Casal Novo do Rio, às portas da sede de concelho.
Nível do rio em situação crítica
Ao início desta tarde, o rio voltou a atingir um cenário de alto risco, tal como aconteceu no passado sábado, com um nível hidrométrico acima dos quatro metros na ponte de Santa Clara, na baixa de Coimbra.
A intensidade da chuva que caiu ao longo desta manhã e início da tarde voltou a colocar as autarquias de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz em prevenção máxima. A Proteção Civil e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) prepararam-se para o pior dos cenários, esperando que tudo não passasse apenas de um valente susto.
O risco foi real e nas duas últimas semanas a APA esteve a trabalhar intensamente para adaptar os meios e os dispositivos, procurando lidar com uma eventual rutura dos diques.
Monitorização permanente
Se o pior acontecesse, estariam preparados, assegurou a Agência Portuguesa do Ambiente. Segundo o presidente Pimenta Machado, a “brutalidade da precipitação” obrigou a uma monitorização permanente das barragens de Aguieira, Raiva, Santa Luzia e Fronhas.
O pior não se verificou e, provavelmente, teremos de estar gratos ao efeito de uma massa de ar tropical, que segundo o IPMA, reduziu a intensidade e a queda de precipitação no Baixo Mondego.
Uma "bomba" que não explodiu
A rutura dos diques no Mondego, se tivesse mesmo acontecido “seria como uma bomba”, descreveu aos órgãos de comunicação social a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, ressalvando que os municípios da região estavam bem preparados e coordenados para enfrentar as cheias.

O colapso do sistema hidráulico do Baixo Mondego não seria inédito. Há 25 anos, em janeiro de 2001, a intensa queda de chuva, considerada excecional, aumentou repentinamente o caudal do rio. As descargas das barragens da Aguieira foram, por fim, a gota de água que provocou o rebentamento de vários diques do leito central do rio.
Uma situação extrema que, desta vez, acabou por não se verificar, mas a pressão das correntes nas margens do rio continua alta e permanentemente avaliada. Prevê-se que o regresso a casa das populações retiradas nas últimas horas só venha a ser possível durante o fim de semana, altura em que se espera um abrandamento do caudal do Mondego.