Alteração na variabilidade sazonal do nível do mar poderá ter impactos significativos nos ecossistemas costeiros
A subida do nível da água do mar tem sido um tema abordado por muitos cientistas, mas, no entanto, as variações sazonais do nível do mar, que não têm sido tão bem estudadas, também têm um impacto importante em muitos ecossistemas.

Num estudo recente, publicado na revista *Nature Climate Change*, os autores, investigadores de instituições científicas de Utrecht, Países Baixos, e da Antuérpia, Bélgica, avaliaram os impactos das flutuações sazonais do nível do mar.
Variação sazonal do nível do mar a intensificar-se
Em grande parte das linhas de costa, a água fica ligeiramente mais alta em certos meses e mais baixa noutros. O nível do mar não é fixo, sofre flutuações ao longo de um único ano. Esta variação sazonal resulta de mudanças de temperatura, padrões de vento e correntes oceânicas.
Um artigo científico sobre o aquecimento da água do mar concluiu que por cada 2 °C de aquecimento na camada superior do oceano, as oscilações sazonais do nível do mar aumentam 4% a 10% a nível global.
Estas variações sazonais ocorrem em escalas temporais muito mais curtas do que a subida média do nível do mar, o que significa que podem ter impactos surpreendentemente grandes nos ecossistemas costeiros.
Os autores do estudo alertam para o facto de se prever uma intensificação da variabilidade sazonal do nível do mar, o que pode remodelar significativamente as zonas intertidais, ou seja, as que correspondem à estreita faixa de costa que está diretamente sob a influência das marés (zonas entre marés), que são as faixas do litoral que ficam submersas durante a maré alta e expostas ao ar na maré baixa.
As zonas entre marés pode ser uma faixa estreita, como nas ilhas do Pacífico que têm apenas uma estreita faixa de maré ou pode incluir muitos metros de costa. Estas zonas também incluem falésias rochosas íngremes, praias arenosas, pântanos salgados ou vastos lamaçais.
Impactos da variação sazonal do nível do mar no ecossistema das zonas entre marés
Os impactos da oscilação sazonal do nível do mar não são iguais em todas as regiões. De acordo com o estudo, as áreas mais vulneráveis são as costas onde a amplitude das marés é mais reduzida.

Os cientistas envolvidos neste estudo alertam que em relação à variação sazonal do nível do mar é fundamental compreender e prever a sua dinâmica intra-anual, pois é determinante para a sobrevivência de habitats e cidades costeiros a nível global.
Além disso, também haverá uma alteração da duração da exposição de horas para dias, ou de dias para meses. Uma área que atualmente fica submersa por apenas algumas horas poderá, no futuro, permanecer submersa por dias ou mesmo semanas.
É de referir que, ficando as áreas submersas por muito mais tempo, as espécies residentes também serão afetadas, pois não estão adaptadas para essa situação, nem para tolerar um aumento de exposição, no caso de marés baixas mais prolongadas.
Para as plantas e os animais que vivem na fronteira entre a terra e o mar, tais como, algas, ervas marinhas e vegetação de pântanos salgados, o momento e a duração das inundações são críticos.
A intensificação da variação sazonal do nível do mar terá impacto ainda no stress fisiológico adicional sobre os organismos costeiros, por exemplo, através de submersão prolongada, esgotamento de oxigénio nos sedimentos do leito marinho ou, inversamente, exposição prolongada ao calor e à dessecação.
Se a água se mantiver demasiado alta por muito tempo, os sedimentos do fundo podem ficar pobres em oxigénio. Isso coloca em risco, por exemplo, vermes, amêijoas e os microrganismos responsáveis pela reciclagem de nutrientes.
Uma exposição prolongada ao ar provoca o efeito inverso. Plantas e bivalves podem sobreaquecer e desidratar.

Até à publicação desta investigação, nenhum modelo tinha quantificado de forma explícita o que um ciclo sazonal em crescimento faz às espécies e habitats costeiros.
Atualmente, em muitas regiões do mundo, a diferença entre os máximos e mínimos sazonais está a aumentar e quase nenhum planeamento costeiro considera este facto.
Os autores salientam ainda que este estudo representa um primeiro passo importante para chamar a atenção para um risco climático amplamente ignorado para os ecossistemas costeiros e defendem que as alterações na variabilidade sazonal do nível do mar devem ser incorporadas em futuras avaliações de impacto, planos de conservação e estratégias de adaptação costeira.
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