A natureza contra a tecnologia: os fenómenos que estão a travar as centrais europeias

O calor extremo, a seca e a proliferação de medusas estão a obrigar as centrais nucleares europeias a reduzir ou a interromper a sua produção, revelando vulnerabilidades inesperadas. Fique a saber mais aqui!

Milhões de medusas podem bloquear os sistemas de captação de água e obrigar uma central nuclear a reduzir ou interromper temporariamente a produção.
Milhões de medusas podem bloquear os sistemas de captação de água e obrigar uma central nuclear a reduzir ou interromper temporariamente a produção.

O verão de 2026 está a revelar uma vulnerabilidade inesperada do sistema energético europeu.

As temperaturas extremas, a escassez de água e fenómenos biológicos invulgares estão a obrigar algumas das maiores infraestruturas de produção elétrica do continente europeu a reduzir potência ou a interromper temporariamente a atividade.

De acordo com o jornal online El Mundo, o caso mais emblemático aconteceu em França, na central nuclear de Gravelines, situada junto ao Canal da Mancha, entre Calais e Dunquerque.

A maior central nuclear da Europa Ocidental voltou a enfrentar dificuldades pelo segundo ano consecutivo, mostrando assim como as alterações das condições ambientais podem interferir diretamente no funcionamento de instalações concebidas para operar durante décadas.

Quando o calor impede uma central de arrefecer

Uma central nuclear necessita de retirar continuamente grandes quantidades de calor. Nas instalações costeiras, como Gravelines, a água do mar desempenha um papel essencial neste processo.

Durante uma vaga de calor, porém, a temperatura da água aumenta. Quando a água captada já chega mais quente à central, a eficiência da transferência de calor diminui e o rendimento termodinâmico da instalação pode cair.

“A natureza também interfere, de forma involuntária, nas grandes infraestruturas energéticas e de comunicações.” De acordo com o El Mundo

Existe ainda uma limitação ambiental. Depois de utilizada, a água regressa ao meio natural mais quente. Se a temperatura ultrapassar determinados limites, a descarga pode prejudicar os peixes e outros organismos marinhos.

Para cumprir as regras ambientais, os operadores podem ser obrigados a reduzir a potência ou desligar reatores.
É uma situação paradoxal pois quanto maior é a necessidade de eletricidade para alimentar sistemas de ar condicionado, mais difícil se pode tornar produzir eletricidade em determinadas centrais.

Uma das soluções possíveis passa por sistemas de refrigeração em circuito fechado, associados a torres de arrefecimento mais eficientes. No entanto, adaptar instalações existentes é uma operação complexa e dispendiosa.

Milhões de medusas contra uma central nuclear

A temperatura não é o único problema que chega através da água.
As medusas transformaram-se num dos obstáculos mais insólitos enfrentados por Gravelines. Grandes concentrações destes animais podem ser arrastadas pelas correntes, marés e vento até às estruturas que captam água do mar.

As centrais costeiras necessitam de captar enormes volumes de água. Para impedir a entrada de organismos, existem grades, filtros e tambores rotativos. Mas uma verdadeira “maré” de medusas pode ultrapassar a capacidade destes sistemas.

Os animais acumulam-se nas superfícies filtrantes e dificultam a passagem da água. Quando o caudal diminui, os sistemas de proteção podem desencadear a redução da potência ou a paragem dos reatores. O fenómeno voltou a ocorrer em 2026, depois de um episódio semelhante no ano anterior.

A situação obrigou a reforçar a vigilância junto às tomadas de água. Entre as estratégias utilizadas estão sistemas de monitorização, câmaras submersíveis e o acompanhamento das concentrações de medusas para permitir aos operadores antecipar a chegada dos organismos e adaptar o funcionamento da central.

O outro problema: os rios que estão a desaparecer

Enquanto na costa o excesso de calor e as medusas dificultam o funcionamento das centrais, no interior da Europa o problema pode ser exatamente o contrário, a falta de água.

O baixo caudal do Danúbio tornou-se uma preocupação para instalações nucleares que dependem do rio para a refrigeração. Na Roménia, a central de Cernavodă enfrenta limitações quando o nível do Danúbio desce demasiado.

Na Hungria, a central de Paks também depende das condições do rio para dissipar o calor produzido pelos seus reatores. Quando a água disponível diminui ou a sua temperatura aumenta demasiado, os operadores têm menos margem para garantir uma refrigeração adequada.

As alterações climáticas colocam assim um desafio duplo à energia nuclear, rios mais quentes e com menor caudal e mares cada vez mais quentes podem reduzir a disponibilidade de centrais que dependem diretamente destes recursos.

Quando os animais interferem na tecnologia

As medusas estão longe de ser os únicos animais capazes de perturbar infraestruturas humanas. Nos Estados Unidos, os esquilos são conhecidos por provocar avarias em redes elétricas ao entrarem em equipamentos ou roerem cabos.

A central nuclear de Gravelines, em França, enfrenta os efeitos combinados do calor extremo e das enormes concentrações de medusas nas águas do Canal da Mancha. Fonte: Wikimedia Commons
A central nuclear de Gravelines, em França, enfrenta os efeitos combinados do calor extremo e das enormes concentrações de medusas nas águas do Canal da Mancha. Fonte: Wikimedia Commons

Guaxinins também já provocaram interrupções de energia ao conseguirem aceder a subestações. Até os corvos podem causar problemas altamente sofisticados. No observatório LIGO, dedicado à deteção de ondas gravitacionais, aves chegaram a interferir com equipamentos extremamente sensíveis, demonstrando como pequenas vibrações podem ser relevantes quando se trabalha com medições de enorme precisão.

Nas infraestruturas subterrâneas, ratos e outros roedores podem danificar cabos e canalizações. E, no fundo dos oceanos, os cabos submarinos enfrentam outro tipo de desafio, organismos marinhos podem interagir com estruturas elétricas, obrigando os operadores a desenvolver sistemas de proteção cada vez mais resistentes.

Uma nova realidade para a infraestrutura energética

O que acontece em Gravelines e noutras instalações europeias mostra que a segurança energética não depende apenas da capacidade instalada ou da quantidade de combustível disponível.

Depende também de algo muito mais difícil de controlar, o ambiente onde as infraestruturas estão inseridas. Ondas de calor, secas, rios com caudais reduzidos, oceanos mais quentes e alterações nos ecossistemas podem transformar fenómenos naturais em problemas industriais.

A tecnologia consegue construir barreiras, filtros, sistemas de monitorização e mecanismos de segurança. Porém não consegue impedir que uma corrente marítima transporte milhões de medusas, que um rio diminua de caudal ou que um animal encontre um caminho inesperado até uma instalação elétrica.

O desafio para as próximas décadas será, por isso, adaptar as grandes infraestruturas a um planeta onde os extremos ambientais estão a tornar-se uma preocupação cada vez mais importante.