Seis organizações ambientais contestam pomar intensivo em Alcácer do Sal e alertam para crise da água

Associações contestam a aprovação de projeto de citrinos de regadio intensivo e alertam para a pressão crescente sobre uma reserva subterrânea já considerada crítica.

As associações ambientais contestam um pomar de 260 hectares que poderá consumir quase o dobro da água distribuída em Alcácer do Sal. Foto: Adobe Stock
As associações ambientais contestam um pomar de 260 hectares que poderá consumir quase o dobro da água distribuída em Alcácer do Sal. Foto: Adobe Stock

A água que abastece milhares de habitantes, entre Alcácer do Sal, Grândola, Comporta e Melides, está mesmo debaixo dos pés de quem vive na região. Trata-se de uma reserva subterrânea que sustenta populações, explorações agrícolas e parte da atividade económica do litoral alentejano.

Esse mesmo reservatório está no centro de uma disputa que chegou aos tribunais. Seis organizações ambientais entregaram, esta semana, uma ação no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja para contestar a aprovação de um projeto agrícola de cerca de 260 hectares de tangerinas de regadio intensivo nas Herdades da Murta e de Monte Novo, em Alcácer do Sal.

A iniciativa junta as associações Água & Sal, Dunas Livres, GEOTA, Quercus, SPEA e Zero, que pedem a anulação da Declaração de Impacte Ambiental favorável emitida pela CCDR Alentejo.

A sobre-exploração do aquífero da margem esquerda do Sado agrava-se com a seca e o aumento do regadio. Foto: Vitor Oliveira de Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons
A sobre-exploração do aquífero da margem esquerda do Sado agrava-se com a seca e o aumento do regadio. Foto: Vitor Oliveira de Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons

Na base da contestação está a quantidade de água prevista para alimentar o pomar. Segundo as organizações, o projeto poderá captar até 1 740 milhões de litros por ano do aquífero da margem esquerda do Sado, um volume que corresponde a quase o dobro da água distribuída pela rede pública de Alcácer do Sal em 2023.

Um aquífero que já perde mais água do que recebe

A reserva subterrânea em causa, conhecida como aquífero da margem esquerda de Alcácer do Sal, ou T3, integra o sistema hidrogeológico Tejo-Sado e é a única fonte de abastecimento público de Alcácer do Sal e Grândola.

Segundo dados referidos pela Associação de Agricultores de Alcácer do Sal, as reservas disponíveis terão diminuído de cerca de 60 para 30 hectómetros cúbicos nas últimas duas décadas. O consumo anual já ultrapassa a recarga natural, gerando um défice estimado em três hectómetros cúbicos por ano.

As associações de defesa do ambiente alertam que novas captações de grande dimensão podem agravar o problema. O projeto foi desaconselhado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), que alertou para a sobre-exploração do aquífero, cuja perda de água já supera a recarga natural.

IndicadorValor / Informação
Área do projetoCerca de 260 hectares de tangerinas em regadio intensivo
Água prevista para captaçãoAté 1,74 mil milhões de litros por ano
Captações previstas12 furos de águas subterrâneas
Profundidade máxima dos furosAté 288 metros
Comparação com Alcácer do SalConsumo anual próximo do dobro da água distribuída pela rede pública do município em 2023
Estado do aquíferoPerde mais água do que aquela que recebe por recarga natural
Consumos existentes na zonaCerca de 18 milhões de m³/ano entre agricultura, abastecimento público e indústria
Participações na consulta pública384 das 387 foram desfavoráveis ao projeto
Área protegida afetadaInserida na ZEC Comporta-Galé, da Rede Natura 2000
Fonte: Declaração de Impacte Ambiental e documentação do processo de AIA

A própria Declaração de Impacte Ambiental, aliás, classifica os efeitos sobre a água subterrânea como de «magnitude elevada, muito significativo e certo». O documento reconhece igualmente que cerca de 18 milhões de metros cúbicos de consumos anuais já estão associados a explorações agrícolas, captações públicas e usos industriais nas imediações do projeto.

O solo está a afundar-se em partes da região

A preocupação das seis organizações não surge isoladamente. Em outubro de 2025, dados geoespaciais do programa europeu Copernicus revelaram que áreas do litoral de Alcácer do Sal e de Grândola registaram abatimentos do terreno de vários centímetros ao longo dos cinco anos anteriores.

O fenómeno coincide com a área abrangida pelo aquífero e já tinha sido previsto em estudos realizados pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia. Quando a extração de água excede persistentemente a reposição natural, os espaços subterrâneos anteriormente preenchidos por água podem colapsar gradualmente, provocando rebaixamentos da superfície.

Os efeitos do abatimento do solo são particularmente relevantes em zonas onde se concentram campos de golfe, empreendimentos turísticos e explorações agrícolas de regadio intensivo.

Mesmo antes da instalação do novo pomar, as Herdades da Murta e Monte Novo já registavam o afundamento do solo (subsidência), um fenómeno assinalado pelo próprio parecer do LNEG, citado no processo de avaliação ambiental.

Uma área protegida sob pressão

A contestação das organizações ambientais, no entanto, não se esgota na água. O projeto localiza-se na Zona Especial de Conservação Comporta-Galé, integrada na Rede Natura 2000.

Segundo o Estudo de Impacte Ambiental, cerca de 88% da área analisada é ocupada por habitats de interesse comunitário, incluindo zimbrais associados a Juniperus navicularis, uma espécie rara e endémica de Portugal.

As seis associações alegam que parte da plantação prevista incide sobre áreas classificadas, contrariando os objetivos de conservação estabelecidos no plano de gestão da zona protegida. Os ambientalistas defendem ainda que a utilização intensiva de fertilizantes e fitofármacos em solos arenosos poderá aumentar o risco de contaminação das águas subterrâneas e das zonas húmidas associadas ao sistema aquífero.

Uma frente comum contra a exploração hídrica

A oposição ao projeto não partiu apenas das associações ambientais. Durante a consulta pública, 384 das 387 participações submetidas manifestaram-se contra a proposta. O comunicado relembra ainda que a própria Câmara Municipal de Alcácer do Sal emitiu um parecer desfavorável.

Na Rede Natura 2000, o Açude da Murta oferece refúgio e água doce a numerosas espécies, mas corre sério risco de secar pela pressão agrícola intensiva na região. Foto: GEOTA
Na Rede Natura 2000, o Açude da Murta oferece refúgio e água doce a numerosas espécies, mas corre sério risco de secar pela pressão agrícola intensiva na região. Foto: GEOTA

A autarquia considerou que não estava demonstrada a compatibilidade da exploração com os objetivos de conservação da área protegida, nem com os instrumentos de ordenamento do território. Também a Assembleia Municipal aprovou, por unanimidade, uma moção a solicitar a reapreciação de todo o processo.

As seis associações pedem agora que o tribunal reavalie a decisão e defendem a realização de um estudo independente sobre o aquífero antes da autorização de novas captações de grande dimensão.

A questão ultrapassa, porém, os limites deste projeto agrícola. O que está em causa, no fundo, é a capacidade de um território cada vez mais pressionado pela seca, pela expansão do regadio e pelas alterações do clima continuar a retirar água subterrânea a um ritmo superior ao da sua reposição natural. Para os promotores da ação judicial, a resposta definirá não apenas o futuro do aquífero, mas também a segurança hídrica de populações, agricultores e ecossistemas da região.

Referências da notícia

A iniciativa das organizações ambientais será acompanhada por uma campanha de crowdfunding, destinada a apoiar os encargos jurídicos, processuais e técnicos. Para conhecer e apoiar a campanha «A nossa água tem limites – Proteger o aquífero e a Rede Natura de Alcácer e Grândola» consulte a plataforma Go Fund Me.
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza. Seis organizações levam a tribunal pomar intensivo que poderá captar quase o dobro da água consumida em Alcácer do Sal.
Associação de Agricultores de Alcácer do Sal. O Aquífero de Alcácer do Sal (Margem Esquerda), fonte de vida para a nossa agricultura, está em colapso..
CCDR Alentejo. Declaração de Impacte Ambiental de 3 de agosto de 2026 (procedimento de AIA n.º 565).