Alfredo Graça, geógrafo: “Portugal deve preparar-se para um episódio de chuva forte e persistente, com ventos ábregos"

Um ou mais rios atmosféricos, fluxos húmidos e amenos vindos de latitudes subtropicais, serão transportados pelos ventos de Sudoeste reforçando a intensidade da chuva gerada por frentes associadas a uma depressão atlântica. Saiba o que esperar do tempo nos próximos dias em Portugal continental!
Como já foi sucessivamente referido nas últimas previsões lançadas aqui na Meteored Portugal, o padrão meteorológico vai alterar-se significativamente a partir de sexta-feira, 6 de novembro, com o Atlântico a merecer um olhar atento por parte do Sudoeste Europeu, onde se inclui Portugal continental.
Com o anticiclone progressivamente mais fraco e a deslocar-se das Ilhas Britânicas-Escandinávia para a Europa Central, “abre-se uma via” para as perturbações atmosféricas vindas de oeste.
Uma extensa e profunda depressão nascerá sobre o Atlântico, com vários centros depressionários inseridos na sua circulação, bem como superfícies frontais associadas. Estes sistemas geradores de precipitação serão reforçados por rios de humidade, transportados pelos ventos de Sudoeste (ventos ábregos), tendo o potencial de provocar episódios de chuva forte e persistente em Portugal continental.
Amanhã, quinta-feira 5 de novembro, os mapas de referência da Meteored mostram-nos como uma área encerrada de baixas pressões situada a norte dos Açores irá cavar (ou aprofundar) rapidamente a partir de sexta-feira, 6 de novembro.

A configuração sinóptica descrita prevê a génese de uma depressão cujos efeitos começarão a fazer-se a partir da tarde de sexta-feira (6) devido a uma primeira frente de chuva associada a este sistema de baixas pressões.
Será a primeira de muitas outras frentes que irão distribuir precipitação abundante e persistente a partir da reta final da presente semana na unidade territorial do Continente, mas também nos Açores e na Madeira.
Uma extensa e profunda depressão atlântica enviará várias frentes até à nossa geografia
Ao longo do fim de semana e no início da próxima semana, à medida que se for deslocando para leste sobre o Atlântico e se aproximar da Península Ibérica, a depressão aprofundará, fazendo descer a pressão mínima central até aos 990 hPa na próxima segunda-feira, 9 de novembro, quando se prevê que esteja localizada a oes-noroeste do Minho e Douro Litoral. É de salientar também a presença de vários núcleos depressionários secundários, embebidos no sistema depressionário principal.

A partir dessa posição, a depressão irá gerar uma segunda frente muito ativa que descarregará chuva abundante em Portugal continental, dando origem a um forte temporal de sudoeste e a chuva forte e persistente, com acumulações significativas nas zonas mais expostas ao fluxo húmido canalizado pela depressão. Isto ocorrerá especialmente entre os dias 8, 9 e 10 de novembro - domingo a terça-feira.
Entretanto, nestes próximos dias, enquanto se mantém distante de terra firme, a depressão continuará a evoluir e a intensificar à medida que rodopia entre os Açores, Madeira, Portugal continental e noroeste da Galiza. Nos primeiros dias deste fase de tempo instável, os episódios de chuva bastante generalizados e acompanhados de vento serão mais adversos nos arquipélagos portugueses, desde 5 a 9 de novembro, mas com mais intensidade nos dias 6, 7 e 8, segundo o modelo ECMWF (europeu).
Posteriormente, já em meados da próxima semana, não se descarta a possibilidade que a depressão, ainda bastante intensa na sua área de influência - condicione o tempo em Portugal continental, algo que poderia aumentar o risco de novos fenómenos meteorológicos adversos. Mesmo assim, a incerteza para essas datas (a partir de quarta-feira, 11), já é mais elevada.

Contudo, de momento, a depressão que ainda está em formação não possui nome. Ainda assim, é muito provável que lhe seja atribuído o segundo nome da lista de depressões de grande impacto da temporada 2026/2027. Caso tal aconteça, estaríamos perante a depressão Bruna.
Chuva abundante à vista em Portugal continental
Na reta final da presente semana e, especialmente na próxima semana - entre os dias 6 e 12 de novembro - a chuva fará manchete. A prolongada ausência de chuva em Portugal continental será amplamente compensada pela já referida depressão atlântica de grande envergadura, que deixará acumulações consideráveis nas zonas mais expostas aos ventos húmidos de Sudoeste (também conhecidos como ventos ábregos), que começarão a soprar com mais intensidade a partir de domingo, 8 de novembro.
As mais recentes saídas dos modelos projetam a possibilidade de um episódio com elevada eficiência da chuva, o que certamente fará com que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) emita avisos meteorológicos nas zonas potencialmente mais afetadas pela forte intensidade da precipitação, sujeitas a acumulados mais elevados e ao risco de inundações.

Ainda é precoce indicar quais serão as regiões mais afetadas na nossa geografia no período que se estende de 6 a 12 de novembro, porém, as primeiras estimativas do modelo ECMWF apontam para acumulados entre 90 e 120 mm no Noroeste e em zonas montanhosas do Norte e Centro do país. Isto diz respeito essencialmente a zonas como Minho, Douro Litoral, Região de Aveiro e Serra da Estrela.
Nas restantes zonas do país preveem-se acumulados de chuva menos significativos, já que a precipitação será condicionada pela direção tomada pelo vento e pela orientação do relevo local.
Monitorização, prevenção e mitigação dos riscos
Importa, portanto, realçar que não há motivo para “perder o sono”. Tomando medidas adequadas de prevenção e mitigação de risco associados aos impactos expectáveis no território, quer por parte das autoridades (Proteção Civil, entre outras) quer por parte da própria sociedade e tendo por base, a antecedência e a constante atualização das previsões meteorológicas, será possível antecipar cenários, preparar respostas que contemplem a salvaguarda de pessoas, bens e infraestruturas, bem como tomar decisões operacionais e políticas adequadas ao episódio de chuva que se avizinha.