A monção na Índia estará a tornar-se mais difícil de prever?

A monção de sudoeste na Índia, que ocorre entre junho e outubro, é um vento sazonal que sopra do oceano Índico para o continente trazendo uma massa de ar quente e muito húmido.

A Índia sob o efeito da monção de sudoeste fica normalmente debaixo da ação de massas de ar muito húmido com bastante água precipitável.
A Índia sob o efeito da monção de sudoeste fica normalmente debaixo da ação de massas de ar muito húmido com bastante água precipitável.

Na Índia, a consequente alternância entre estações seca e chuvosa, é governado pela monção, que causa chuvas intensas em grande parte do país, mas que é vital para a agricultura local, em especial para o cultivo do arroz.

Índia a sofrer um défice de chuvas em 2026 mas com inundações devastadoras

A monção do sudoeste da Índia em 2026 tem oscilado entre períodos de seca e chuvas intensas desde o seu início, a 4 de junho de 2026.

Os dados a nível estadual e distrital mostram o quão desigual tem sido a estação. A Índia está a viver condições climáticas extremas simultaneamente.

De acordo com as avaliações baseadas em dados do Departamento Meteorológico da Índia, este ano a precipitação acumulada da monção na Índia estava aproximadamente 16% abaixo do normal até 27 de julho de 2026.

Na monção de sudoeste da Índia este ano ocorreram fortes inundações, apesar da precipitação total estar abaixo do normal.

A Índia registou um défice de 38% nas chuvas das monções em junho. No país ocorreu precipitação extremamente irregular, com alguns distritos a receberem 600% a 1.700% da precipitação normal devido a aguaceiros muito fortes.

Mais de metade dos distritos da Índia receberam chuvas abaixo ou muito abaixo da média, enquanto inundações, inundações repentinas e deslizamentos de terra atingiram vários estados.

Mais de metade dos distritos do país foram classificados como deficientes ou com grande deficiência de chuvas.

É de referir, alguns exemplos sobre o impacto da monção da Índia, este ano.

Por exemplo, em Assam, um estado que sofre de um défice de chuvas de 30% nesta estação, 900 aldeias ficaram submersas e pelo menos 80 pessoas morreram no mês passado devido a algumas das piores inundações em décadas.

Fortes chuvadas desencadearam deslizamentos de terra em Wayanad, Kerala, causando mortes e ferindo várias pessoas. A precipitação acumulada em 24 horas na região foi quase 10 vezes superior à média diária normalmente esperada para julho.

No entanto em Mumbai, onde normalmente começa a chover por volta de 10 de junho e as chuvas começam a diminuir no final de setembro, no ano passado choveu de maio até outubro, este ano, durante a monção, mal houve chuviscos até ao final de junho, seguindo-se uma quantidade de chuva equivalente a todo o mês de julho, concentrada apenas na primeira semana.

Em Gujarat, um estado relativamente seco, tem sido atingido por fortes aguaceiros em curtos períodos, intercalados com períodos de seca.

Os especialistas referem que a estação das monções na Índia está a tornar-se mais errática devido às alterações climáticas, com chuvas a chegarem em rajadas intensas seguidas de períodos de seca, em vez de padrões constantes.

Este ano pode ser particularmente atípico por causa do El Niño no Oceano Pacífico equatorial, um fenómeno climático que altera os padrões meteorológicos. Assim a irregularidade da estação está a ser moldada pela variabilidade natural da monção, pelo fortalecimento do El Niño este ano, pelas perturbações atmosféricas vindas de oeste e pelo aquecimento global e o aquecimento do oceano Índico.

Cientistas referem que por toda a Índia, as chuvas estão a cair com mais intensidade e em períodos mais curtos.

Isto provoca efeitos severos na agricultura, que emprega 43% dos trabalhadores da Índia. Os agricultores planeiam a plantação com base na previsão de chuvas, mas tanto as inundações como os longos períodos sem chuva causam estragos nas suas culturas.

Uma das principais culturas na Índia é o arroz
Uma das principais culturas na Índia é o arroz

A previsão sazonal na Índia fornece informação sobre a percentagem de precipitação que se prevê durante a monção em relação ao valor médio no período de referência de 50 anos, entre 1971 e 2020.

Este sistema fornece aos agricultores, decisores políticos e economistas uma informação nacional para o planeamento da agricultura, gestão da água e produção alimentar.

Como podem ocorrer inundações quando a precipitação total está abaixo do normal?

Os défices de precipitação nacionais ou regionais são médias calculadas em grandes áreas geográficas. Estas médias podem ocultar extremos locais. Além disso o défice de precipitação é calculado num período como uma semana, um mês ou a estação das monções, mas não descreve como a precipitação é distribuída dentro desse período.

Precipitação média diária (mm) em todo o país no período assinalado da monção de 2026. Fonte: Down To Earth
Precipitação média diária (mm) em todo o país no período assinalado da monção de 2026. Fonte: Down To Earth

Há que ter em conta que uma região pode ter precipitação sazonal deficiente, enquanto que uma parte dessa região pode sofrer um evento extremo de precipitação. Na mesmo região, um local pode ser inundado enquanto outro recebe pouca chuva, ou mesmo nenhuma, mantendo-se em situação de seca. Quando as duas áreas são combinadas, a região pode ainda permanecer abaixo da sua precipitação sazonal normal.

Têm-se verificado fortes inundações este ano em muitas cidades da Índia. As cidades contêm grandes áreas cobertas por ruas, telhados, parques de estacionamento, betão e pavimentos. Estas superfícies impermeáveis impedem que a água da chuva penetre no solo e vai escorrendo.

A água flui rapidamente em direção às ruas, aos esgotos e às zonas baixas. Quando a intensidade da chuva excede a capacidade de drenagem, a água acumula-se em poucos minutos. A ocupação de zonas húmidas, lagos, planícies de inundação e canais de drenagem naturais agrava este problema.

Portanto, as inundações urbanas não são determinadas apenas pela quantidade de chuva. Refletem também como uma cidade foi planeada e se os cursos de água naturais foram preservados.

Em relação a uma década atrás, a Índia está mais urbanizada e as suas cidades mais populosas, o que amplia os danos económicos e físicos causados por eventos climáticos extremos.

A escassez de água é outra preocupação na Índia. Períodos prolongados de seca endurecem o solo e diminuem a sua capacidade de absorver humidade e de reabastecer os seus aquíferos.

Referência da notícia

Sangomla, A.. (2026). Floods, dry spells and a 16% rain deficit: India’s monsoon is becoming harder to read.