Um simples fungo pode ajudar a construir uma base em Marte? A ciência portuguesa acredita que sim
Investigação de Isabel Santos de Sousa, distinguida pela comunidade científica ibérica, mostra como os microrganismos poderão tornar futuras missões espaciais muito mais autónomas e sustentáveis.

Levar os humanos até Marte é um desafio extraordinário. Mantê-los vivos durante meses ou anos poderá ser ainda mais difícil. Cada missão espacial depende de uma enorme quantidade de alimentos, medicamentos, ferramentas, materiais e consumíveis transportados a partir da Terra.
Uma das grandes perguntas da exploração espacial, por isso, já não é apenas como chegar a lugares distantes do nosso planeta. É como permanecer lá durante longos períodos sem depender constantemente de reabastecimentos vindos da Terra.
Autonomia longe da Terra
Uma dissertação desenvolvida na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) acaba de mostrar que parte dessa resposta poderá estar num organismo tão discreto quanto improvável. Um fungo.
O trabalho de Isabel Santos de Sousa, recentemente distinguido com o Pedro Nunes Award – Best Iberian Master's Thesis in Planetary Sciences & Exploration 2025, atribuído pela comunidade Europlanet Iberia, demonstra que o Aspergillus niger consegue crescer recorrendo a recursos que, em teoria, poderão existir numa futura base na Lua ou em Marte.

Mais do que um resultado laboratorial, trata-se de uma prova de conceito que poderá ajudar a reduzir drasticamente a quantidade de materiais enviados da Terra, preparando o caminho para sistemas de suporte de vida muito mais autónomos.
Produzir em vez de transportar
Depois de décadas dedicadas sobretudo a colocar sondas, satélites e astronautas em órbita ou na superfície de outros mundos, a exploração espacial entrou numa nova fase. Organizações como a NASA e a Agência Espacial Europeia estudam a possibilidade de estabelecer presenças humanas cada vez mais prolongadas na Lua e, numa etapa seguinte, em Marte.
Cada quilograma enviado implica custos elevados, limitações técnicas e um aumento significativo da complexidade das missões. Quanto maior for a autonomia dessas futuras bases, maiores serão também as possibilidades de sucesso.
Uma viragem na abordagem
É aqui que entra a biotecnologia. Em vez de depender exclusivamente de cargueiros espaciais, a investigação procura desenvolver organismos capazes de produzir localmente alimentos, biomateriais, compostos químicos ou outras substâncias essenciais utilizando os recursos disponíveis nesses ambientes.
Até agora, grande parte destes estudos concentrava-se em plantas e cianobactérias. A dissertação premiada pela comunidade científica ibérica acrescenta agora uma nova peça a esse sistema.
Um novo habitante marciano
O protagonista da investigação é o Aspergillus niger, um fungo amplamente conhecido pela ciência e utilizado há décadas em processos industriais. Isabel Santos de Sousa procurou perceber se este organismo conseguiria integrar um sistema biológico pensado para futuras bases espaciais.
Pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma experiência de microbiologia, mas é algo bastante mais amplo. Em vez de estudar um organismo isolado, a investigação aproxima-se da lógica de um pequeno ecossistema, onde diferentes microrganismos colaboram entre si para transformar recursos simples em materiais úteis para assegurar a sobrevivência humana.
A pergunta deixa de ser apenas se um fungo consegue sobreviver fora da Terra. Passa a ser outra, muito mais ambiciosa: que papel poderá desempenhar para ajudar os seres humanos a viver num outro planeta?
Um aliado para futuras missões
Os resultados da dissertação mostram que o Aspergillus niger pode ser muito mais do que um simples organismo capaz de sobreviver em condições semelhantes às de Marte ou da Lua. O fungo poderá integrar sistemas biológicos concebidos para produzir localmente recursos indispensáveis à vida humana.
A investigação aponta ainda para o potencial destes organismos na criação de materiais capazes de contribuir para a proteção contra a radiação, um dos maiores desafios enfrentados pelos astronautas em missões de longa duração.
A principal novidade está na forma como estas capacidades se articulam. Em vez de imaginar uma sucessão de processos independentes, o estudo propõe que diferentes microrganismos possam colaborar entre si.

As cianobactérias captam recursos simples e produzem biomassa. O fungo utiliza essa biomassa para gerar novos produtos de interesse. Aos poucos, começa a desenhar-se um sistema capaz de reutilizar matéria, reduzir desperdícios e diminuir a dependência de abastecimentos vindos da Terra.
É uma lógica muito próxima da dos ecossistemas naturais, onde cada organismo ocupa um lugar específico e contribui para manter o equilíbrio do conjunto.
Uma visão com várias áreas da ciência
Foi precisamente esta abordagem interdisciplinar que distinguiu o trabalho de Isabel Santos de Sousa. A dissertação não se limita à microbiologia. Liga a biotecnologia à engenharia química e biológica, aos sistemas de suporte de vida e à exploração planetária, procurando responder a uma questão muito concreta.
Embora ainda se trate de uma prova de conceito, os resultados mostram que os fungos merecem um lugar destacado na investigação dedicada à exploração espacial. Até agora, plantas e cianobactérias concentravam grande parte da atenção científica.
Este trabalho sugere que outros microrganismos poderão desempenhar funções igualmente importantes na construção de sistemas de sobrevivência autónomos. O reconhecimento atribuído pela comunidade Europlanet Iberia reflete precisamente essa capacidade de abrir uma nova linha de investigação num domínio estratégico para o futuro da exploração humana do Sistema Solar.
Referência da notícia
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Doutoranda da FEUP distinguida com prémio ibérico para a melhor tese de mestrado em Ciências Planetárias.
Isabel Santos de Sousa. Sustainable Space Habitats: Cyanobacterial Biomass as Feedstock for Fungal Biotechnology. Universidade do Porto.