Rajadas de vento de 150 km/h e tempestades de poeira a nível global: é assim que se manifesta o clima extremo de Marte

A atmosfera de Marte é muito diferente da da Terra. É rica em CO₂, sopram ventos fortes e formam-se grandes tempestades de poeira que cobrem a maior parte do planeta vermelho.

Marte, com a sua atmosfera ténue e o cráter Cassini em primeiro plano, na região de Arabia Terra, fotografado pela sonda espacial da missão Emirates. © UAESA / MBRSC / Hope Mars Mission / EXI / Andrea Luck
Marte, com a sua atmosfera ténue e o cráter Cassini em primeiro plano, na região de Arabia Terra, fotografado pela sonda espacial da missão Emirates. © UAESA / MBRSC / Hope Mars Mission / EXI / Andrea Luck

Tal como a Terra, Marte possui uma atmosfera, na qual se formam nuvens altas e orográficas, sopram ventos e ocorrem alguns fenómenos meteorológicos, mas com diferenças marcantes, dadas as características distintas de ambos os planetas e das suas camadas gasosas. O tamanho de Marte é aproximadamente metade do da Terra e a sua massa é de 10% da terrestre, pelo que a sua gravidade é muito menor: 38% da nossa (3,7 m/s2 contra 9,8 m/s2).

As imagens captadas pelos diversos aparelhos que aterraram na sua superfície (landers) e pelos que se deslocaram por algumas zonas da mesma (rovers) — desde as missões Viking, na década de 70, até às mais recentes, como a Perseverance/Ingenuity (2021) ‒ mostram um céu de cor salmão, cuja intensidade varia em função da concentração de pó fino em suspensão, sempre em grandes quantidades. Esta circunstância dá origem a pores-do-sol de cor azulada.

Uma atmosfera contaminada com CO2, mas praticamente sem efeito de estufa

A atmosfera marciana apresenta uma estrutura térmica vertical e uma composição química muito diferente da terrestre. O gás mais abundante — de longe — é o CO2, que representa cerca de 96%, seguido do azoto e do árgon (cada um com cerca de 2%), sendo que a pequena percentagem restante (menos de 1%) é constituída por gases em traços, como o oxigénio molecular, o monóxido de carbono ou o vapor de água. A presença deste último permite a formação de nuvens, constituídas por gelo e formadas, na sua maioria, na parte superior da atmosfera.

Comparação da composição química da atmosfera de Marte (à esquerda) e da Terra (à direita). Fonte: ©ESA
Comparação da composição química da atmosfera de Marte (à esquerda) e da Terra (à direita). Fonte: ©ESA

A baixa densidade da atmosfera de Marte (extremamente leve) reduz a capacidade de efeito de estufa do CO2, apesar de este ser o gás mais abundante. A temperatura média global na superfície marciana ronda os -60 ºC, com variações significativas entre o dia e a noite e entre as estações do ano. No verão, durante o dia e na zona equatorial, podem atingir-se valores da ordem dos 20 ºC, enquanto no inverno, durante a noite e nas regiões polares, as temperaturas aproximam-se, por vezes, dos -150 ºC. O efeito de estufa marciano contribui com não mais de 5 ºC para a temperatura medida na superfície do planeta vermelho.

As tempestades de poeira marcianas

Se há uma característica que define a meteorologia marciana, são as tempestades de poeira, cuja propagação é extraordinária, chegando a abranger a maior parte do planeta. A baixa pressão à superfície (cerca de 7 hPa, em média, contra os 1013 hPa de pressão média ao nível do mar na Terra) favorece a libertação de grandes quantidades de poeira da sua superfície, que se desloca por longas distâncias, devido aos ventos fortes que aí sopram.

Imagem de um "diabo de poeira" e da sua sombra sinuosa na superfície marciana, captada pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter da NASA a 16 de fevereiro de 2012. © NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona
Imagem de um "diabo de poeira" e da sua sombra sinuosa na superfície marciana, captada pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter da NASA a 16 de fevereiro de 2012. © NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona

A formação de redemoinhos ou "diabos de poeira", com uma morfologia semelhante às tempestades de poeira que se formam na Terra, é frequente na superfície de Marte. Lá, no planeta vermelho, sopram ventos mais fortes do que na Terra, com rajadas que atingem facilmente os 150 km/h. A densidade da atmosfera marciana é tão baixa que, se estivéssemos lá, na sua superfície, mal sentiríamos o vento. Este manifesta-se principalmente através dos redemoinhos que se formam, por vezes, sobre a sua superfície empoeirada, especialmente na primavera e no verão.

Voltando às tempestades de poeira, as grandes quantidades de poeira que se encontram permanentemente em suspensão na atmosfera marciana deslocam-se rapidamente, impulsionadas pelos fortes ventos que aí sopram. No inverno, esses ventos são particularmente intensos nas regiões polares, o que dá origem a trovoadas inicialmente locais que acabam por se transformar em tempestades que se estendem por grande parte do planeta.

Imagens de Marte captadas com menos de três meses de diferença por uma das câmaras de campo profundo planetário do telescópio espacial Hubble, no ano de 2001, nas quais se pode observar o resultado de uma grande tempestade de poeira que ocorreu no planeta (à direita). Fonte: © NASA
Imagens de Marte captadas com menos de três meses de diferença por uma das câmaras de campo profundo planetário do telescópio espacial Hubble, no ano de 2001, nas quais se pode observar o resultado de uma grande tempestade de poeira que ocorreu no planeta (à direita). Fonte: © NASA

Quase toda a superfície de Marte está coberta por um véu opaco com uma tonalidade entre o amarelado, o alaranjado e o rosado, que impede a observação dos diferentes elementos do relevo marciano (cordilheiras, crateras, vales…) a partir do exterior do planeta, tal como comprovam as imagens das sondas que orbitam o planeta ou as dos telescópios espaciais Hubble (figura em anexo) e James Webb.