Rajadas de vento de 150 km/h e tempestades de poeira a nível global: é assim que se manifesta o clima extremo de Marte
A atmosfera de Marte é muito diferente da da Terra. É rica em CO₂, sopram ventos fortes e formam-se grandes tempestades de poeira que cobrem a maior parte do planeta vermelho.

Tal como a Terra, Marte possui uma atmosfera, na qual se formam nuvens altas e orográficas, sopram ventos e ocorrem alguns fenómenos meteorológicos, mas com diferenças marcantes, dadas as características distintas de ambos os planetas e das suas camadas gasosas. O tamanho de Marte é aproximadamente metade do da Terra e a sua massa é de 10% da terrestre, pelo que a sua gravidade é muito menor: 38% da nossa (3,7 m/s2 contra 9,8 m/s2).
As imagens captadas pelos diversos aparelhos que aterraram na sua superfície (landers) e pelos que se deslocaram por algumas zonas da mesma (rovers) — desde as missões Viking, na década de 70, até às mais recentes, como a Perseverance/Ingenuity (2021) ‒ mostram um céu de cor salmão, cuja intensidade varia em função da concentração de pó fino em suspensão, sempre em grandes quantidades. Esta circunstância dá origem a pores-do-sol de cor azulada.
Uma atmosfera contaminada com CO2, mas praticamente sem efeito de estufa
A atmosfera marciana apresenta uma estrutura térmica vertical e uma composição química muito diferente da terrestre. O gás mais abundante — de longe — é o CO2, que representa cerca de 96%, seguido do azoto e do árgon (cada um com cerca de 2%), sendo que a pequena percentagem restante (menos de 1%) é constituída por gases em traços, como o oxigénio molecular, o monóxido de carbono ou o vapor de água. A presença deste último permite a formação de nuvens, constituídas por gelo e formadas, na sua maioria, na parte superior da atmosfera.

A baixa densidade da atmosfera de Marte (extremamente leve) reduz a capacidade de efeito de estufa do CO2, apesar de este ser o gás mais abundante. A temperatura média global na superfície marciana ronda os -60 ºC, com variações significativas entre o dia e a noite e entre as estações do ano. No verão, durante o dia e na zona equatorial, podem atingir-se valores da ordem dos 20 ºC, enquanto no inverno, durante a noite e nas regiões polares, as temperaturas aproximam-se, por vezes, dos -150 ºC. O efeito de estufa marciano contribui com não mais de 5 ºC para a temperatura medida na superfície do planeta vermelho.
As tempestades de poeira marcianas
Se há uma característica que define a meteorologia marciana, são as tempestades de poeira, cuja propagação é extraordinária, chegando a abranger a maior parte do planeta. A baixa pressão à superfície (cerca de 7 hPa, em média, contra os 1013 hPa de pressão média ao nível do mar na Terra) favorece a libertação de grandes quantidades de poeira da sua superfície, que se desloca por longas distâncias, devido aos ventos fortes que aí sopram.

A formação de redemoinhos ou "diabos de poeira", com uma morfologia semelhante às tempestades de poeira que se formam na Terra, é frequente na superfície de Marte. Lá, no planeta vermelho, sopram ventos mais fortes do que na Terra, com rajadas que atingem facilmente os 150 km/h. A densidade da atmosfera marciana é tão baixa que, se estivéssemos lá, na sua superfície, mal sentiríamos o vento. Este manifesta-se principalmente através dos redemoinhos que se formam, por vezes, sobre a sua superfície empoeirada, especialmente na primavera e no verão.
Voltando às tempestades de poeira, as grandes quantidades de poeira que se encontram permanentemente em suspensão na atmosfera marciana deslocam-se rapidamente, impulsionadas pelos fortes ventos que aí sopram. No inverno, esses ventos são particularmente intensos nas regiões polares, o que dá origem a trovoadas inicialmente locais que acabam por se transformar em tempestades que se estendem por grande parte do planeta.

Quase toda a superfície de Marte está coberta por um véu opaco com uma tonalidade entre o amarelado, o alaranjado e o rosado, que impede a observação dos diferentes elementos do relevo marciano (cordilheiras, crateras, vales…) a partir do exterior do planeta, tal como comprovam as imagens das sondas que orbitam o planeta ou as dos telescópios espaciais Hubble (figura em anexo) e James Webb.