Foi observada a presença de água líquida em Marte. Será que esta é a primeira vez?

Um estudo realizado pelo INGV, o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, revelou o aparecimento sazonal de água em certas dunas marcianas. Esta poderá ser a primeira vez que se observa água no estado líquido.

Imagem recortada que mostra uma parte das ravinas ativas na Duna Russell (Processada a partir da imagem HiRISE/MRO: ESP_047078_1255 – NASA/JPL-Caltech/UArizona)
Imagem recortada que mostra uma parte das ravinas ativas na Duna Russell (Processada a partir da imagem HiRISE/MRO: ESP_047078_1255 – NASA/JPL-Caltech/UArizona)

A presença de água líquida em Marte poderá estar na origem de um fenómeno invulgar observado nas dunas do Planeta Vermelho; esta é a conclusão a que se chegou no estudo "Observações geomorfológicas e hipóteses físicas sobre as ravinas nas dunas marcianas" (Geomorphological Observations and Physical Hypotheses About Martian Dune Gullies, em inglês).

Realizado por investigadores do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV) e publicado recentemente na revista Geosciences, da editora MDPI.

Há pelo menos 3,7 mil milhões de anos, Marte possuía uma atmosfera muito mais densa do que a atual e albergava lagos e oceanos; com o passar do tempo, grande parte da atmosfera do planeta perdeu-se, o que tornou a presença de água líquida estável na sua superfície — devido à pressão atmosférica extremamente baixa — quase impossível.

A investigação realizada pelo INGV analisou o lado a sotavento da Duna Russell, a maior das dunas formadas pelo vento situadas dentro do cráter marciano com o mesmo nome, centrando-se no comportamento da água sob as condições de temperatura e pressão atmosférica do Planeta Vermelho.

O estudo revela: a possível presença de água no seu ponto triplo em Marte

"A análise de 110 imagens de ultra-alta resolução (até 25 cm/pixel), recolhidas ao longo de 8 anos marcianos (aproximadamente 16 anos terrestres), pela sonda espacial norte-americana Mars Reconnaissance Orbiter", explica Adriano Nardi, investigador do INGV e autor principal do artigo.

"Permitiu-nos destacar, pela primeira vez, a possível presença de água em Marte no seu ponto triplo; ou seja, num estado de equilíbrio em que as fases sólida, líquida e gasosa podem coexistir, revelando assim um ciclo sazonal recorrente".

"Embora seja por breves períodos, especificamente durante os primeiros dias da primavera marciana e coincidindo com rajadas de vento, a água poderia aparecer nesta duna todos os anos sob condições de temperatura e pressão atmosférica que permitem a sua existência transitória no estado líquido".

Neste caso, acredita-se que a água seja gerada por um fenómeno meteorológico característico do ambiente marciano; este fenómeno manifesta-se perto da superfície das dunas, facilitado pela sua forma aerodinâmica, e é impossível de reproduzir na Terra, onde, além disso, nunca foram observadas as características de ravinas nas dunas que se encontram em Marte.

“A génese das ravinas marcianas ‘clássicas’ foi investigada num estudo anterior nosso”, acrescenta Antonio Piersanti, diretor de investigação do INGV e coautor do estudo.

"Essa investigação destacou como a água que jorra de nascentes poderia esculpir essas ravinas através do degelo sazonal do permafrost; ou seja, gelo preso no subsolo em épocas passadas. No entanto, esta nova investigação identificou fenómenos ainda mais raros que produzem canais distintos dos clássicos: concretamente, as "ravinas lineares", assim denominadas devido à sua morfologia mais retilínea".

"Estas ravinas lineares poderão ter-se formado devido à geada, cuja presença, graças às imagens captadas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter, identificámos no topo da Duna Russell. A superfície da encosta apresenta ondulações laterais; quando os canais ficam na sombra, podem observar-se vestígios de humidade absorvida pela areia. Por outro lado, quando um canal se vira para a luz solar direta, observa-se que a água, que até então se mantinha no estado líquido, evapora instantaneamente", acrescentou.

Gelo em Marte

Em condições normais, o ambiente marciano pode albergar a presença de gelo. No entanto, este apresenta-se geralmente sob a forma de gelo seco, gelo de dióxido de carbono, que só pode sofrer transições de fase através da sublimação direta para vapor, e vice-versa.

Através deste estudo, os investigadores fizeram a observação excecional de água presente simultaneamente nos seus três estados físicos, apesar de o estado líquido continuar a ser o menos estável nestas condições.

"Esta poderá ser a primeira vez que se observa com sucesso água líquida em Marte; sem dúvida, é a primeira vez que a formação e a morfologia de um fenómeno marciano pouco comum, as ravinas lineares encontradas nas suas dunas, são associadas à ação da água líquida no ambiente atual", conclui Nardi.

Se for confirmada, a presença de água na forma líquida, mesmo que por períodos muito curtos, poderá ter implicações significativas para a nossa compreensão da geologia marciana e para a procura de formas de vida microbiana, bem como para a identificação de locais de aterragem para futuras missões espaciais a Marte.

Referência da notícia

Nardi, A.; Piersanti, A., Geomorphological Observations and Physical Hypotheses About Martian Dune Gullies. Geosciences 2025, 15, 29.

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