Biomineralização em Marte: uma perspetiva sobre a construção sustentável fora da Terra

Poeira, urina e bactérias. Esta é a receita biológica para a construção de habitats em Marte. Saiba mais aqui!

O solo de Marte é parecido com o nosso cimento, mas falta-lhe o cálcio que as bactérias ajudam a fixar.
O solo de Marte é parecido com o nosso cimento, mas falta-lhe o cálcio que as bactérias ajudam a fixar.

Construir casas em Marte, utopia?

É um dos maiores desafios da ciência moderna, principalmente porque transportar tijolos ou cimento da Terra seria estupidamente caro e logisticamente impossível. A solução proposta pelos cientistas é utilizar o que já existe no Planeta Vermelho: o regolito marciano (a poeira e rocha local) e transformá-lo em material de construção usando "cola viva", um processo chamado biomineralização.

O que é a biomineralização?

De forma simples, a biomineralização é quando seres vivos minúsculos, como bactérias, produzem minerais sólidos como parte do seu dia a dia.

No caso de Marte, a técnica mais promissora é a biocimentação.

Em vez de usarmos fornos gigantes que gastam imensa energia para fabricar cimento tradicional, usamos micróbios que fazem o trabalho a temperaturas ambientes, poupando muita energia.

A "equipa de construção" microbiana

Os cientistas sugerem usar uma dupla de microrganismos que trabalham em equipa (uma co-cultura) para sobreviver às condições extremas de Marte:

  • A "cola": Sporosarcina pasteurii. Esta bactéria consegue transformar ureia em carbonato de cálcio, que funciona como uma cola superforte que une os grãos de poeira marciana, transformando-os em algo parecido com betão.
Robôs e bactérias: a equipa improvável que vai imprimir as primeiras cidades noutro planeta.
Robôs e bactérias: a equipa improvável que vai imprimir as primeiras cidades noutro planeta.
  • A "sobrevivente": Chroococcidiopsis. Marte é um deserto gelado e cheio de radiação perigosa. Esta cianobactéria é incrivelmente resistente a estas condições e, através da fotossíntese, produz oxigénio e substâncias protetoras que ajudam a primeira bactéria a fazer o seu trabalho.

Como funcionaria na prática?

A ideia é criar um ciclo onde nada se desperdiça. Os astronautas forneceriam a sua urina, que contém ureia e outros nutrientes necessários para as bactérias crescerem e fabricarem o cimento. A água poderia ser extraída do gelo que existe debaixo da superfície de Marte.

Paredes que respiram: enquanto constroem a casa, os micróbios libertam oxigénio para os astronautas.
Paredes que respiram: enquanto constroem a casa, os micróbios libertam oxigénio para os astronautas.

Para construir os habitats, robôs avançados ou drones seriam usados para misturar esta "sopa" de micróbios com o solo marciano. Esta mistura seria então usada numa impressora 3D gigante para criar paredes, domos e outras estruturas camada por camada, permitindo formas complexas que protejam os humanos das tempestades de poeira e da radiação.

Os grandes desafios

Apesar de parecer ficção científica, os cientistas já estão a estudar os obstáculos reais:

  • Baixa gravidade: Em Marte, a gravidade é apenas cerca de um terço da da Terra. Isto pode fazer com que o "betão biológico" fique com mais bolhas de ar, tornando-o mais fraco e poroso.
  • Frio extremo: As bactérias tornam-se inativas perto dos 5ºC. Isso significa que a construção teria de ser feita em ambientes controlados ou durante as poucas horas quentes do verão marciano.
  • Venenos no solo: O solo de Marte contém percloratos, que são substâncias tóxicas que podem matar seres vivos se não forem filtradas.

Embora ainda estejamos a testar estas ideias com solo artificial na Terra, a biomineralização oferece um caminho sustentável para a presença humana em Marte. Além de casas, este sistema ajudaria a criar um ciclo de vida, produzindo oxigénio para respirarmos e amónia que pode servir de fertilizante para futuras hortas marcianas.

Referência da notícia

Khoshtinat S, Long-Fox J and Hosseini SMJ (2025) From Earth to Mars: a perspective on exploiting biomineralization for Martian construction. Front. Microbiol. 16:1645014. doi: 10.3389/fmicb.2025.1645014