De asteroide a cometa: a órbita invulgar de um objeto próximo da Terra revela a sua verdadeira natureza
Desde a sua descoberta, há quase 30 anos, o cometa 1998 SH2 não apresentava nenhum dos sinais característicos de um cometa. Mas novas análises, combinadas com observações históricas feitas por equipas internacionais, contam uma história bem diferente.

O objeto próximo da Terra 1998 SH2 fez a sua maior aproximação ao planeta no dia 28 de agosto de 2025, a uma distância segura de aproximadamente 3 milhões de quilómetros. Descoberto em setembro de 1998, foi inicialmente classificado como asteroide. No entanto, novos dados sugerem que se trata de algo completamente diferente, como é detalhado num estudo publicado na revista Nature Astronomy. A deteção de atividade na cauda revelou que se trata de um cometa escuro elusivo.
Asteroides ou cometas?
A distinção entre asteroides e cometas baseia-se no seu comportamento observado. As diferenças na órbita, composição e presença de cauda são tradicionalmente utilizadas para os classificar.
Segundo a Sociedade Planetária, os asteroides são objetos rochosos e metálicos que orbitam o Sol e são remanescentes da formação do nosso Sistema Solar. Os cometas, por outro lado, formaram-se nas regiões mais frias do Sistema Solar exterior, onde o gelo é mais estável. À medida que as suas órbitas se aproximam do Sol, este gelo sublima rapidamente, ejetando poeira que forma a sua coma e cauda características.
Deep space doppelgangers: a NASA study finds that an unusual asteroid is actually a comet https://t.co/GFYcXAX3rV pic.twitter.com/ROqkcwTrxE
— NASA Solar System (@NASASolarSystem) July 16, 2026
Com o aperfeiçoamento das capacidades de observação, os astrónomos descobriram um número crescente de objetos híbridos que não se enquadram nem na categoria de asteroides nem de cometas. Estes objetos foram apelidados de "cometas escuros". Alguns deles podem conter gelo, mas a sua atividade cometária muito discreta, com uma coma e uma cauda quase invisíveis, dificulta a sua identificação como verdadeiros cometas.
Estes cometas escuros exibem anomalias nas suas órbitas em torno do Sol, mas não foram observadas outras evidências de cauda ou coma. As observações iniciais do cometa 1998 SH2 não revelaram tais sinais.
Uma passagem apertada e novas observações
Durante a aproximação da sonda SH2 à Terra, em agosto de 2025, os investigadores que utilizaram a Rede de Espaço Profundo (DSN) da NASA observaram uma anomalia clara: o objeto não estava onde deveria estar. Apesar de cálculos extremamente precisos que tiveram em conta os efeitos gravitacionais do Sol e dos planetas na sua trajetória, os investigadores concluíram que outros fenómenos estavam a influenciar o seu movimento.
Because the astronauts are traveling so far, a series of Earth-based satellites known as the Deep Space Network help keep us connected to our Moon-bound crew.
— NASA's Johnson Space Center (@NASAJohnson) April 2, 2026
Did you know you can see those connections happening real-time? You can see which satellites are communicating with pic.twitter.com/p4TbH0UTUt
Em resposta, os investigadores reuniram todas as observações disponíveis do fenómeno 1998 SH2 feitas em todo o mundo. Em particular, entraram em contacto com astrónomos do Telescópio Canadá-França-Hawaii, instalado em Mauna Kea (Hawaii), bem como do telescópio dinamarquês do Observatório Europeu do Sul (ESO), localizado em La Silla, no Chile.
Estes resultados têm implicações importantes para o seguimento de objetos próximos da Terra e para a defesa planetária. Desde 2016, foram observados catorze cometas escuros, mas os cientistas acreditam que poderão existir muitos mais.
O telescópio espacial NEO Surveyor da NASA está atualmente em construção. Concebido como o primeiro observatório dedicado à defesa planetária, a sua missão será detetar asteroides e cometas — incluindo cometas escuros — que possam representar uma ameaça para a Terra.