“Volta” entra em vigor a 10 de abril. Sistema de Depósito e Reembolso garante 10 cêntimos na devolução de embalagens
O dia 10 de abril marca o arranque do novo Sistema de Depósito e Reembolso (SDR). Todas as garrafas e latas de bebidas em Portugal - em plástico, alumínio ou aço - passam a incluir um depósito de 10 cêntimos, reembolsável mediante devolução. O objetivo é reduzir o desperdício e dar impulso à economia circular.

Nesta segunda-feira, 30 de março, assinala-se o Dia Internacional do Resíduo Zero, estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 14 de dezembro de 2022. O mote é o desperdício alimentar.
Um estudo recente da associação ambientalista ZERO, baseado na caracterização dos resíduos indiferenciados realizado no município de Ourique, mostrou dados considerados “preocupantes”: uma população (bairro ou freguesia) de apenas 300 habitantes pode chegar a desperdiçar até 12 toneladas de alimentos por ano nas suas habitações, colocando-os nos resíduos indiferenciados.
Extrapolando estes dados, uma cidade de 100 mil habitantes poderá gerar 3760 toneladas de alimentos desperdiçados, alerta a ZERO.
Lado a lado com o desperdício alimentar está, muitas vezes, a ausência de reciclagem, incluindo das embalagens das bebidas, de plástico e de metal.
Portugal longe das metas de reciclagem
E Portugal está muito longe de cumprir as metas de reciclagem, desperdiçando todos os anos - queimando ou colocando em aterro - milhares de toneladas de materiais recicláveis que poderiam estar a ser reintegrados na nossa economia aumentando a sua resiliência.

Foi a pensar nisso que o Governo avançou para a implementação do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), que esteve pensada para entrar em vigor em janeiro de 2022, mas que só agora vai passar a vigorar. Entra em funcionamento a 10 de abril.
A ZERO refere ainda que o SDR permite também que os “cidadãos reconheçam o valor do resíduo”, que “deixa de ser um pedaço de lixo, para passar a ser um recurso que tem valor”.
Atribuir valor aos resíduos
É que, “ao permitir atribuir um valor a algo que antes era visto apenas como um resíduo, pode levar a que outros resíduos, não englobados no SDR, sejam também vistos como tendo valor”, mesmo não havendo um sistema de depósito com reembolso. E isso “pode ter um impacto positivo” na adesão a boas práticas de separação seletiva.

Ainda assim, em Portugal, pelo menos para já, o vidro não está contemplado no SDR. A ZERO lamenta a decisão e lembra que ela vai ao arrepio do que ficou definido pela Lei que aprovou este sistema de depósito com reembolso.
Até porque as características do material, que é de fácil reciclagem contínua, e os maus resultados da recolha seletiva mostravam que “havia todas as razões para o incluir [vidro] no sistema”. “Infelizmente”, diz a ZERO, “não foi essa a decisão política”, pelo que é “muito provável que continuemos a assistir ao incumprimento da meta de reciclagem de vidro no futuro”.
Indústria agroalimentar otimista
Pese embora a exclusão do vidro do SDR, a indústria agroalimentar está otimista com a entrada em vigor desta medida.
Em comunicado divulgado na última semana, a Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) considera que, ao adotar o novo Sistema de Depósito e Reembolso, “Portugal está a dar o passo decisivo na transição para uma economia mais circular”.
Em colaboração com a Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), estas entidades implementaram projetos-piloto de devolução de embalagens, preparando o caminho para o sistema "Volta".
Estes esforços, diz a FIPA, “evidenciam a capacidade da indústria em antecipar desafios ambientais e em trabalhar proativamente com as autoridades reguladoras”.
A FIPA, que é liderada por Jorge Tomás Henriques, refere que, ao longo dos anos, a “indústria agroalimentar tem investido substancialmente em inovação e adaptação” e que este investimento se reflete na “redução do uso de materiais virgens (plástico e vidro) e na exploração de alternativas mais sustentáveis e de menor impacto ambiental”.
A procura por materiais reciclados, biodegradáveis ou compostáveis, bem como o desenvolvimento de embalagens mais leves (ecodesign) e eficientes, são “exemplos deste compromisso”, diz aquela Federação que agrega as principais empresas do setor agroalimentar.
Para a FIPA, a implementação, a partir de 10 de abril, do sistema "Volta" “abre novas oportunidades para a indústria demonstrar o seu valor na construção de uma economia verdadeiramente circular”. E diz que está “confiante” de que, com o tempo e a experiência acumulada, “o sistema evoluirá" para incorporar as aprendizagens dos primeiros meses de operação.