Tecnologia de satélite e inteligência artificial antecipam maré de algas invasoras em Cascais
Ferramenta digital cruza dados meteorológicos e oceanográficos para emitir alertas automáticos, possibilitando a limpeza das praias antes que a biomassa prejudique o turismo, a biodiversidade marinha e a pesca local.

O areal de Cascais transformou-se no laboratório de ensaio para uma tecnologia que promete revolucionar a gestão ambiental costeira. Através do projeto-piloto EO4RO, uma rede de satélites e algoritmos de inteligência artificial vigia o oceano com um objetivo bem definido.
Em vez de acionar limpezas apenas quando o problema se instala nas praias, a ciência permite agora prever o movimento biológico com precisão.
Uma invasão em tempo recorde
Esta resposta tecnológica responde a uma crise ecológica que começou longe de território nacional. Originária do Pacífico Noroeste, a alga foi avistada na Europa pela primeira vez em 2015, na região do Estreito de Gibraltar, protagonizando uma das invasões marinhas mais rápidas de que há registo.

Em 2019 atingiu os Açores, conquistando rapidamente o Algarve e a linha de Cascais. A sua proliferação agressiva sufoca a biodiversidade nativa, destrói os habitats subaquáticos, prende-se nas redes de pesca e afasta os veraneantes devido aos maus odores da decomposição.
Proteger o mar a partir do espaço
A plataforma desenvolvida pela GMV Portugal e pelo Plymouth Marine Laboratory cruza imagens espaciais de alta resolução com dados sobre correntes marítimas e vento.
O sistema emite avisos automáticos para as autoridades municipais, transformando a informação em capacidade de planeamento logístico.
Se os resultados obtidos neste teste forem positivos, o modelo será replicado noutras latitudes afetadas, desde a costa algarvia até ao arquipélago das Canárias. A iniciativa local ganha, assim, uma dimensão de referência internacional na gestão de crises ambientais.
Estratégia nacional procura resposta abrangente
O esforço surge alinhado com a estratégia nacional que o Governo lançou no verão de 2025 sob a coordenação da Agência Portuguesa do Ambiente, desenvolvida para unir universidades, autarquias e entidades ligadas ao setor do mar na contenção desta espécie que se fixa no casco das embarcações e nas redes de pesca, viajando longas distâncias através do tráfego marítimo.

Segundo os investigadores da Universidade dos Açores, terão sido as embarcações piscatórias o veículo mais provável que levou a alga invasora até à costa algarvia, no início de 2022. Nesse mesmo ano, a planta foi incluída na lista de espécies exóticas invasoras da União Europeia.
Barreiras mecânicas e valorização agrícola
A costa de Cascais é o destino mais recente destas algas, tendo chegado em 2024 à zona balnear entre a Praia das Moitas e a Praia da Rainha, obrigando a retirar centenas de toneladas com a ajuda de máquinas e trabalho voluntário.
Além do piloto que recorre a satélites e inteligência artificial, o município apoia outras frentes de combate físico e biológico. Desde a primavera que se testam Barreiras Flutuantes, estruturas de contenção desenvolvidas pela startup EasyHarvest para travar os arrojamentos de vegetação diretamente na água.
Noutro quadrante, investigadores do Centro de Ciências do Mar e Ambiente monitorizam a remoção cirúrgica desta flora, realizando campanhas de sensibilização junto da comunidade sobre um fenómeno ainda pouco estudado pela ciência europeia.
O restante material vegetal foi encaminhado para o Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, servindo de matéria-base para testes avançados de aproveitamento energético e fertilização agrícola. O desperdício ecológico converte-se, assim, num recurso que poderá vir a ser valioso para a economia circular.
Referência da notícia
Câmara Municipal de Cascais. Cascais recorre a ciência e IA para combater alga invasora.