Águas residuais vão reforçar as reservas subterrâneas do aquífero Tejo-Sado
A ETAR da Comporta está a testar um modelo inovador de gestão de aquíferos que, se for bem-sucedido, poderá ser replicado nas regiões europeias mais vulneráveis à seca.

Os recursos hídricos subterrâneos contribuem com mais de metade do total da água fornecida para consumo humano em Portugal. A sua preservação e gestão, porém, são grandes desafios diante das alterações climáticas, com períodos de seca cada vez mais prolongados.
A irregularidade da precipitação tem reduzido a recarga natural dos aquíferos, especialmente nas regiões a sul do rio Tejo, onde a chuva tem vindo a diminuir de forma consistente ao longo das últimas décadas.
O aumento das extrações para consumos urbanos, agrícolas e industriais intensifica a pressão sobre estes sistemas, contribuindo para a descida dos níveis piezométricos, principalmente no Algarve e no Alentejo, onde as restrições nas captações de águas subterrâneas já são frequentes durante o verão.
Estima-se que, até ao final do século, cerca de 40% dos poços na Península Ibérica, incluindo Portugal, possam sentir uma diminuição do nível de água superior a um metro.
Portugal, Espanha e Países Baixos testam modelos de gestão de águas subterrâneas
Só através de métodos mais eficientes é possível mitigar o stress hídrico e gerir proativamente o impacto das secas. E esse é precisamente o intuito do projeto MARCLAIMED, implementado na Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da Comporta, no distrito de Setúbal.

O piloto está a ser desenvolvido simultaneamente em mais dois países europeus - na Estação de Tratamento de Água Potável de Sant Joan Despí, em Barcelona, e na rede de drenagem subterrânea das ilhas do Mar de Wadden, nos Países Baixos. Se forem bem-sucedidos, estes vão ser os modelos de referência para replicar a solução em regiões da Europa mais vulneráveis à escassez de água.
A Recarga Gerida de Aquíferos (conhecida internacionalmente pelo acrónimo MAR - Managed Aquifer Recharge) é o processo intencional de armazenar água em aquíferos subterrâneos para utilização posterior com benefícios ambientais.
A técnica permite captar águas excedentes (superficiais, pluviais, tratadas ou dessalinizadas) e injetá-las ou infiltrá-las no subsolo, onde ficam protegidas da evaporação e da contaminação.
Soluções baseadas na natureza reduzem o stress hídrico
O modelo utiliza princípios naturais para aumentar a resiliência hídrica, permitindo o armazenamento de longo prazo, guardando, por exemplo, a água no inverno para ser utilizada durante o verão.

Gerir a recarga das águas subterrâneas através deste sistema possibilita, desde logo, repor os níveis aquíferos sobrecarregados e atenuar a descida dos níveis freáticos. São várias as vantagens reconhecidas, como manter ou até melhorar a qualidade da água, prevenir a intrusão salina, no caso de aquíferos costeiros, ou controlar o afundamento do solo.
No caso particular da ETAR da Comporta, o sistema inclui quatro lagoas de infiltração e está localizado sobre o aquífero da Margem Esquerda do Tejo-Sado, o maior da Península Ibérica, numa zona de Reserva Natural.
O projeto irá demonstrar como a reutilização segura de águas residuais tratadas pode ajudar a reforçar as reservas subterrâneas e aumentar a resiliência hídrica do Alentejo.
A experiência desenvolvida na ETAR da Comporta está a ser conduzida pela Águas Públicas do Alentejo (AgdA) e pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
O projeto MARCLAIMED, no entanto, conta com mais parceiros, sendo o consórcio composto por 11 entidades de países como Áustria, Bélgica, França e Polónia, além de Portugal, Espanha e Países Baixos, que são os três estados-membros onde estão a ser desenvolvidos os pilotos de demonstração.
Referência do artigo
Supporting decision-making and adaptation policies to address water scarcity and water stress - MARCLAIMED Project