Se o início de ano foi o mais chuvoso em 30 anos, por que há agora cinco bacias em seca hidrológica?
As albufeiras atingiram 95% da capacidade em fevereiro, mas o calor recorde e meses de precipitação escassa voltaram a pressionar rios, aquíferos e solos.

Em fevereiro, Portugal continental tinha água armazenada equivalente a 95% da capacidade total das albufeiras. Menos de oito meses depois, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) identifica cinco bacias hidrográficas em situação de seca hidrológica.
Embora a transição entre extremos pareça repentina, a verdade é que a chuva acumulada no inverno é insuficiente para garantir reservas duradouras quando se sucedem meses de calor intenso e precipitação escassa.
Albufeiras perto da capacidade máxima
O inverno de 2025-2026 foi excecionalmente chuvoso. Entre outubro e o final de fevereiro, Portugal continental registou 924 milímetros de precipitação, cerca de 1,8 vezes a média.
A recuperação foi especialmente importante para o Sul, que vinha de anos de escassez. Mas as reservas acumuladas não ficaram imunes às mudanças das condições meteorológicas.
Chuva acumulada não dura para sempre
A primeira chave para perceber esta evolução está na diferença entre a água que cai, a que fica no solo e a que permanece armazenada em barragens, aquíferos e rios. A chuva intensa pode provocar escorrência rápida e cheias, sem distribuir os seus benefícios de forma uniforme por todo o território. A quantidade armazenada nas bacias, além disso, depende das características de cada região e do uso da água.
| Bacia hidrográfica | Situação |
|---|---|
| Ribeiras do Oeste | Extrema |
| Rio Lima | Severa |
| Rio Mondego | Moderada |
| Rio Vouga | Moderada |
| Rio Cávado | Fraca |
Fonte: Portal InfoÁgua/APA | |
A APA distingue, por isso, a seca meteorológica, associada à falta de precipitação, da seca hidrológica, relacionada com os níveis de armazenamento nas albufeiras, nos aquíferos e nas linhas de água.
Os dois fenómenos estão ligados, mas não evoluem necessariamente ao mesmo ritmo. A recuperação das reservas exige tempo, mesmo depois da chuva regressar. Foi este desfasamento que começou a tornar-se evidente durante o verão.
Julho quase não teve chuva
Depois de uma primavera em que a seca meteorológica esteve ausente de Portugal continental, a situação mudou com a chegada do calor e a diminuição da precipitação. Julho registou apenas 0,8 milímetros de chuva, cerca de 8% do valor normal e o total mensal mais baixo deste século. A temperatura máxima chegou aos 44,3 °C em Mora, a 3 de julho.
No final de julho, cerca de 67% do território continental encontrava-se em situação de seca meteorológica, num agravamento associado ao calor intenso e à escassez de precipitação.

Agosto trouxe uma recuperação parcial. Foi o quinto agosto mais chuvoso desde 1931, com 36,6 milímetros de precipitação, mais de 2,5 vezes a média. A chuva, contudo, distribuiu-se de forma irregular. Atenuou a seca na maior parte do país, mas o interior do Baixo Alentejo e o Sotavento Algarvio continuaram sob pressão.
Calor extremo regressou em setembro
A trégua durou pouco com a chegada de setembro, o mais quente em Portugal continental desde 1931. O mês registou uma temperatura média de 23,41 °C (2,91 °C acima do normal) e uma máxima média de 31,03 °C, o que representa um desvio substancial de 4,21 °C face ao padrão.
Duas ondas de calor, sobretudo a segunda, que atingiu 72% das estações do IPMA, prolongaram o período de temperaturas elevadas. A pouca chuva e o calor agravaram a perda de água no solo e a pressão sobre os recursos hídricos.
Cinco bacias já estão em seca hidrológica
Os dados mais recentes da APA, atualizados a 12 de outubro, mostram que o armazenamento total nas albufeiras monitorizadas era de 72% da capacidade. Apesar do valor agregado, as variações revelam desequilíbrios regionais. A classificação mensal mais recente da seca hidrológica identifica cinco bacias em situação de seca.
| Número de albufeiras | Volume armazenado |
|---|---|
| 1 | 0-20% |
| 7 | 21-40% |
| 12 | 41-50% |
| 11 | 51-60% |
| 26 | 61-80% |
| 18 | 81-100% |
Fonte: Boletim Semanal de Albufeiras – 12 outubro 2026 /APA | |
A seca hidrológica nestas bacias não significa que todo o país esteja na mesma situação. Mostra, antes, que um nível total elevado de armazenamento não elimina as diferenças locais nem garante disponibilidade suficiente em todos os rios e aquíferos.
O contraste de 2026 revela, no fundo, que a abundância de água durante um inverno não elimina a vulnerabilidade dos meses seguintes. Num país sujeito a períodos prolongados de calor e falta de chuva, gerir as reservas exige acompanhar cada bacia, antecipar necessidades e evitar que a recuperação temporária seja confundida com segurança hídrica duradoura.
Referências da notícia
IPMA. Índice PDSI - Situação Atual - julho 2026.
IPMA. Monitorização da Seca - Índice PDSI – Evolução (agosto 2025-julho 2026).
APA. Portal InfoÁgua.
IPMA. Boletins Climatológicos de Agosto.
IPMA. Boletins Climatológicos de Setembro.