Portugal registou o setembro mais quente desde 1931 após duas ondas de calor
Recordes de calor e falta de chuva transformaram o mês passado num dos mais extremos alguma vez registados no país.

Setembro entrou para a história climatológica de Portugal como o mês mais quente desde o início dos registos sistemáticos em 1931, marcado por duas ondas de calor e por escassez persistente de chuva, segundo o mais recente Boletim Climatológico do IPMA.
A média das temperaturas máximas também bateu recordes em setembro, atingindo os 31,03 °C (mais 4,21 °C que o normal). A média das mínimas, por sua vez, fixou-se nos 15,79 °C, registando o quarto valor mais alto desde 1931.
Alcácer do Sal chegou aos 44,2 °C
Os recordes não ficaram apenas nas médias mensais. A 3 de setembro, os termómetros atingiram os 44,2 °C em Alcácer do Sal, a temperatura mais elevada registada no continente durante o mês. No extremo oposto do país, Lamas de Mouro registou 3 °C na madrugada de 25 de setembro.
| Setembro de 2026 | Valor |
|---|---|
| Temperatura média | 23,41 ºC |
| Desvio face à normal | +2,91 ºC |
| Temperatura máxima média | 31,03 ºC |
| Desvio da máxima | +4,21 ºC |
| Temperatura máxima absoluta | 44,2 ºC |
| Local do máximo | Alcácer do Sal |
| Precipitação acumulada | 12,7 mm |
| Percentagem da precipitação normal | 30% |
| Fonte: IPMA. | |
Os valores extremos refletem um mês dominado pelo calor, mas não explicam, por si só, a dimensão do fenómeno. O que tornou setembro excecional foi a persistência das temperaturas elevadas ao longo de várias semanas.
Duas ondas de calor marcaram o mês
Duas ondas de calor distintas atravessaram o mês passado. A primeira ocorreu entre 2 e 7 de setembro e afetou sobretudo o Interior Norte. A segunda, entre os dias 18 e 27, revelou-se muito mais abrangente, sendo identificada em 72% das estações meteorológicas do IPMA distribuídas pelo território continental.

O impacto da segunda fase de calor prolongado refletiu-se diretamente nas médias mensais. Os valores muito acima do normal, registados consecutivamente em quase todo o território, foram decisivos para os recordes históricos alcançados. No total, foram estabelecidos 33 novos recordes mensais, dos quais 18 relativos à temperatura mínima e 15 à temperatura máxima.
Noites mais quentes limitaram o arrefecimento
O calor persistente estendeu-se ao período noturno. Com temperaturas a manterem-se altas durante a noite, o alívio térmico entre o crepúsculo e a alvorada acabou por ser muito menor.

Embora a temperatura mínima média não tenha atingido o valor mais elevado da série histórica, foi a quarta maior desde 1931 e a mais alta registada desde o ano 2000, confirmando a predominância de noites anormalmente quentes ao longo do mês.
Quase não choveu
Ao calor extremo juntou-se a falta de precipitação. Em setembro caíram apenas 12,7 milímetros de chuva em Portugal continental, o equivalente a cerca de 30% do valor normal para o período de referência 1991-2020.
A falta de precipitação afetou diretamente a humidade da terra. No fecho do mês, o IPMA sinalizava uma quebra nas reservas de água do solo, com maior impacto nos territórios do Centro e do Oeste.
A ausência de precipitação à escala nacional, ainda assim, não impediu a ocorrência de episódios localizados de chuva intensa. A 29 de setembro, Ponte de Lima acumulou 53,2 milímetros em apenas 24 horas. No mesmo dia, o Cabo da Roca registou uma rajada máxima de vento de 91,8 km/h.
Um setembro fora do comum
A análise do IPMA mostra que setembro de 2026 foi não só o mais quente da série histórica iniciada em 1931, como também um dos mais secos das últimas décadas. As temperaturas médias e máximas ficaram muito acima dos valores normais para o início do outono, enquanto a precipitação permaneceu muito abaixo do esperado, num mês considerado excecional tanto pelo calor como pela secura.