Resíduos radioativos no mar, a 1000 km de Nantes: ainda é possível tomar banho no Atlântico?

Centenas de milhares de barris radioativos jazem no fundo do Atlântico, longe dos olhares. Uma vasta campanha científica liderada pelo CNRS procura agora avaliar o seu estado e os seus efeitos nos ecossistemas marinhos.

Mais de 200 000 barris contendo resíduos radioativos foram lançados ao Oceano Atlântico.
Mais de 200 000 barris contendo resíduos radioativos foram lançados ao Oceano Atlântico.

A descoberta de mais de 200 000 barris de resíduos radioativos submersos nas profundezas do Atlântico nordeste pode, com razão, suscitar preocupações. No entanto, esses resíduos encontram-se a cerca de 4 700 metros de profundidade e a aproximadamente 1 000 quilómetros da costa francesa, numa zona abissal muito distante das praias.

Hoje em dia, o principal desafio não é o banho na costa, mas sim a compreensão dos efeitos a longo prazo destes antigos depósitos nos ecossistemas marinhos profundos.

Uma prática há muito considerada normal

Entre os anos 1950 e 1990, vários países com indústria nuclear, entre os quais a França, o Reino Unido, a Bélgica e os Países Baixos, submergiram resíduos radioativos no oceano.

Na altura, esta prática era autorizada e até considerada uma solução segura: os barris eram depositados em planícies abissais, longe da costa e em zonas consideradas geologicamente estáveis.

Segundo o CNRS, mais de 200 000 barris foram depositados na principal zona de imersão do Atlântico Nordeste. Contêm essencialmente resíduos de baixa ou muito baixa atividade, provenientes, nomeadamente, de laboratórios, hospitais ou da indústria nuclear.

Os resíduos eram geralmente revestidos com betume, cimento ou resina antes de serem colocados em barris metálicos destinados a retardar a sua degradação.

Esta prática foi progressivamente posta em causa à medida que se foi adquirindo um melhor conhecimento dos impactos ambientais. A imersão de resíduos radioativos no mar está proibida desde 1993, na sequência da evolução da regulamentação internacional.

Uma campanha científica sem precedentes

Durante muito tempo, os cientistas sabiam da existência destes depósitos, mas a sua localização exata e o seu estado de conservação continuavam mal documentados. Os meios tecnológicos disponíveis não permitiam explorar facilmente profundidades superiores a 4 000 m.

Naquela altura, essa prática era totalmente aceite e normal.
Naquela altura, essa prática era totalmente aceite e normal.

Para colmatar esta lacuna, o CNRS lidera o projeto NODSSUM, em parceria com o Ifremer, a Autoridade de Segurança Nuclear e Radioproteção (ASNR) e vários laboratórios franceses e europeus.

Uma primeira campanha oceanográfica, realizada em 2025, permitiu cartografar vários milhares de barris graças ao robô submarino autónomo UlyX, equipado com um sonar de alta resolução. Os investigadores também recolheram amostras de água, sedimentos e organismos marinhos a alguma distância dos barris, a fim de obter um primeiro balanço da situação.

Observações inéditas bem junto aos barris

Uma segunda missão, realizada entre maio e junho de 2026 a bordo do navio oceanográfico Pourquoi Pas?, foi muito mais longe. Desta vez, os cientistas utilizaram o submarino tripulado Nautile para efetuar 20 mergulhos a cerca de 4 700 m de profundidade e observar diretamente vários barris.

Os investigadores constataram que alguns barris se encontram num estado avançado de degradação, tendo-se verificado, em alguns casos, um derrame parcial do seu conteúdo sobre os sedimentos circundantes.

As medições realizadas no local confirmaram a presença de radionuclídeos característicos destes resíduos, a níveis superiores ao ruído de fundo natural desta zona, mantendo-se, no entanto, suficientemente baixos para permitir a manipulação das amostras sem restrições significativas em termos de proteção radiológica.

Uma fauna abundante nas profundezas abissais

A missão reservou também uma surpresa: as profundezas abissais abrigam uma biodiversidade muito mais rica do que se imaginava quando estes resíduos foram imersos. Peixes, anémonas, corais, esponjas e até crustáceos colonizam as imediações dos barris.

Esses mergulhos ocorreram entre 1950 e 1990. Só em 1993 é que a lei proibiu essa prática.
Esses mergulhos ocorreram entre 1950 e 1990. Só em 1993 é que a lei proibiu essa prática.

Os investigadores procuram agora compreender se a presença dos resíduos influencia estes ecossistemas e como é que os radionuclídeos podem circular neste ambiente profundo.

As numerosas amostras de água, sedimentos e organismos recolhidas serão submetidas a análises laboratoriais nos próximos meses. O objetivo é compreender melhor o destino da radioatividade no oceano profundo, um domínio ainda muito pouco estudado, e melhorar os conhecimentos sobre as interações entre estes antigos depósitos e os ecossistemas abissais.

Atenção, é perigoso tomar banho?

A resposta é não. O CNRS e os seus parceiros não pretendem estudar os riscos da prática da natação para o público em geral. Mas sim observar os efeitos dos resíduos radioativos no ecossistema marinho circundante.

Até ao momento, nada indica que estes resíduos radioativos representem um risco para a prática da natação nas costas atlânticas francesas. Tanto mais que os barris se encontram a 4 300 m de profundidade e a mais de 1 000 km das costas francesas mais próximas, recordam os investigadores.

Referência da notícia

CNRS. (2026). Déchets radioactifs immergés dans l'Atlantique : une mission scientifique pour documenter les interactions avec les écosystèmes.