Portugal lidera projetos de literacia do oceano, mas desconhece o seu impacto nas escolas
Cientistas portuguesas alertam para a falta de dados sobre a eficácia das campanhas ambientais, propondo novos modelos participativos para aproximar os cidadãos da preservação marinha.

Portugal assume uma posição de destaque na proteção dos mares e é reconhecido internacionalmente pelo dinamismo com que promove a literacia do oceano. Há três décadas que o país multiplica projetos educativos, envolvendo milhares de alunos em iniciativas dedicadas à sustentabilidade das águas.
Esta liderança surge detalhada num novo livro global publicado pela prestigiada editora Springer Nature, que reúne cerca de 250 autores de 42 países e regiões. Por trás do volume de atividades escolares, no entanto, esconde-se um paradoxo desconfortável que compromete o sucesso destas políticas públicas.
Estima-se que apenas 30 por cento dos programas tenham passado por algum tipo de controlo de eficácia. Sem dados concretos, será impossível saber se o conhecimento transmitido nas salas de aula se traduz em mudanças reais de comportamento na sociedade. O país produziu iniciativas em quantidade, mas falha no momento de medir o retorno prático desse esforço pedagógico.
O perigo do conhecimento puramente teórico
A análise centrada na realidade escolar recorda o sucesso de programas nacionais como a Escola Azul, O MARE Vai à Escola, CIIMAR na Escola, Educar para uma Geração Azul ou o Coastwatch. São alguns exemplos que demonstram a forte vitalidade das comunidades académicas no alinhamento com as metas das Nações Unidas.
O problema, contudo, reside na abordagem pedagógica, que tende a privilegiar a transmissão de conceitos abstratos em detrimento da ação direta. As autoras do estudo explicam que a falta de monitorização sistemática impede a consolidação de uma verdadeira consciência ecológica coletiva.

A lacuna ganha relevância quando se analisa a dimensão do ativismo social nas escolas. O relatório aponta que a participação cívica ativa é a vertente menos desenvolvida nas dinâmicas educativas nacionais.
Ao afastar os estudantes da intervenção direta nas comunidades, a aprendizagem corre o risco sério de se transformar num exercício teórico estéril. As novas gerações acumulam informação sobre as ameaças marinhas, mas carecem de ferramentas práticas para liderar movimentos de contestação ou de conservação do litoral.
Laboratórios vivos contra o desconhecimento
A resposta para preencher este vazio entre a teoria e a prática pode passar por uma metodologia que começa a ganhar terreno na costa portuguesa. Os chamados laboratórios vivos surgem como ecossistemas de inovação aberta concebidos para testar soluções sustentáveis em cenários reais.
Estas plataformas têm como intuito unir cientistas, empresas locais, cidadãos e decisores políticos na criação conjunta de respostas para os problemas ambientais de cada região, potenciando o conhecimento empírico já existente.
Saber tradicional esbarra na falta de ferramentas práticas
Um segundo estudo sobre a realidade portuguesa avaliou o impacto deste modelo através da auscultação de dezenas de profissionais ligados às salinas artesanais, desde Aveiro até ao Algarve.
Subsiste ainda uma enorme confusão sobre a verdadeira utilidade destas estruturas de cooperação, frequentemente confundidas com gabinetes de comunicação ou de resolução de problemas imediatos.
Um novo modelo para ligar a ciência às comunidades
A investigação conclui que estes centros partilhados assumem um papel fundamental na valorização sustentável da orla costeira nacional. Ao aproximar a ciência das preocupações imediatas das populações, o modelo opera como um catalisador para mitigar conflitos territoriais históricos entre a atividade económica e as metas de preservação. A cooperação direta permite desenhar políticas públicas mais próximas das necessidades reais de cada comunidade.
Desta forma, os laboratórios vivos oferecem a oportunidade ideal para converter o conhecimento em atitudes permanentes de proteção ambiental. A experiência acumulada nestes ecossistemas práticos serve de modelo para o debate internacional sobre o futuro dos oceanos.

Só através da monitorização dos resultados pedagógicos e do incentivo ao envolvimento cívico será possível garantir que a literacia do oceano deixa de ser um mero plano de intenções para passar a ditar a sobrevivência do litoral.
Referência da notícia
Zara Teixeira, Raquel L. Costa, Patrícia Conceição, Cláudia Faria & Laura Guimarães. Ocean Literacy in Portugal: Three Decades of Experience and Innovative Educational Initiatives Supporting the Ocean Decade. Ocean Literacy: The Foundation for the Success of the Ocean Decade, Volume III. Springer Nature.
Cátia Marques, Ana Cunha & Zara Teixeira. Living Labs: A Catalyst for Ocean Literacy and Sustainable Innovation. Ocean Literacy: The Foundation for the Success of the Ocean Decade, Volume II. Springer Nature.
Marine And Environmental Sciences Centre (MARE). MARE contributes to the national debate on ocean literacy at the 2nd National Conference.