Cientistas descobrem os gatilhos de sismos "impossíveis" em regiões estáveis

O despertar de falhas milenares: como a atividade humana causa sismos em zonas geologicamente seguras. Saiba mais aqui!

Segundo os manuais tradicionais, estes sismos não deveriam ocorrer porque as falhas superficiais tendem a estabilizar-se. Este estudo veio provar o contrário.
Segundo os manuais tradicionais, estes sismos não deveriam ocorrer porque as falhas superficiais tendem a estabilizar-se. Este estudo veio provar o contrário.

A explicação convencional sugeria que as falhas geológicas em profundidades reduzidas tendem a fortalecer-se quando se movem, o que deveria impedir a ocorrência de rupturas bruscas e, consequentemente, de sismos.

Falhas antigas, que permaneceram inativas durante milhões de anos, passam por um fortalecimento gradual ao longo do tempo. As superfícies onde as rochas se encontram "cicatrizam", criando uma resistência muito superior à que seria de esperar.

Este processo permite que a falha acumule uma quantidade imensa de tensão sem se mover. Quando essa resistência é finalmente superada, frequentemente devido a intervenções externas, a energia acumulada é libertada de forma súbita e violenta, dando origem a um sismo num local rotulado pelos manuais escolares como estável.

O papel da atividade humana

A investigação destaca que muitos destes tremores são induzidos por atividades humanas modernas, tais como a extração de gás, o armazenamento de energia no subsolo, a captura de carbono e a exploração de energia geotérmica. Estas operações envolvem a injeção ou extração de fluidos, o que altera a pressão nas falhas superficiais (situadas a poucos quilómetros de profundidade).

Atividades modernas como a extração de energia geotérmica ou o armazenamento de CO2 podem "acordar" falhas que estavam adormecidas há milhões de anos.
Atividades modernas como a extração de energia geotérmica ou o armazenamento de CO2 podem "acordar" falhas que estavam adormecidas há milhões de anos.

Diferente dos sismos naturais que ocorrem a dezenas de quilómetros abaixo da superfície, estes eventos rasos são particularmente perigosos. Devido à proximidade com a superfície, as ondas sísmicas chegam com maior intensidade às infraestruturas humanas. Além disso, como estas áreas não possuem um histórico recente de sismicidade, as comunidades locais e as normas de construção muitas vezes não estão preparadas para lidar com o impacto destes abalos.

Eventos únicos e estabilização

Uma descoberta encorajadora do estudo é que estes sismos tendem a ser eventos únicos para cada segmento de falha. Uma vez que a tensão acumulada durante milhões de anos é libertada, a falha entra num novo estado de estabilidade.

Os investigadores observaram que, após o movimento inicial, as secções rompidas deslizam com maior facilidade, funcionando como barreiras naturais que impedem o acumular de novas tensões críticas.

Isto significa que, embora o risco inicial possa ser elevado, a probabilidade de sismos subsequentes de magnitude semelhante diminui drasticamente naquela localização específica.

Implicações para o futuro energético

Este estudo redefine a avaliação do risco sísmico para a transição energética global. Compreender como as falhas reagem a estímulos humanos permite que projetos de energia sustentável sejam planeados com maior precisão. A capacidade de prever que uma falha pode gerar apenas um evento significativo antes de se estabilizar oferece uma nova perspetiva para a segurança de longo prazo em projetos geotérmicos e de armazenamento de gases.

Em suma, esta investigação transforma o que antes era um mistério geológico num modelo previsível, permitindo que a ciência avance na exploração segura do subsolo terrestre, minimizando os riscos para as populações residentes em áreas de "estabilidade aparente".

Referência da notícia

Li, M., Niemeijer, A.R. & van Dinther, Y. Frictional healing and induced earthquakes on conventionally stable faults. Nat Commun 16, 9140 (2025). https://doi.org/10.1038/s41467-025-63482-3