Importância do Sistema Global de Observação dos Oceanos, riscos que enfrenta e consequências para a análise do clima

O Sistema Global de Observação dos Oceanos (GOOS) é um programa internacional para monitorização de todos os oceanos, composto por uma rede de flutuadores robóticos, navios de investigação e boias fixas que abrange todas as bacias oceânicas.

O Sistema Global de Observação dos Oceanos, que resulta de uma importante cooperação internacional é fundamental para a monitorização dos oceanos.
O Sistema Global de Observação dos Oceanos, que resulta de uma importante cooperação internacional é fundamental para a monitorização dos oceanos.

O GOOS é considerado uma das conquistas mais importantes da cooperação científica internacional e é coordenado pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (COI-UNESCO).

Importância do Sistema Global de Observação dos Oceanos

O oceano presta serviços essenciais à sociedade. Além de ser fundamental para regular o clima, fornece alimentos e energia e sustenta uma série de importantes atividades económicas e de defesa.

Desde cerca de 2005, que o GOOS tem proporcionado uma cobertura quase contínua e quase global das temperaturas oceânicas, desde a superfície até aos 2 000 metros de profundidade, que resulta de décadas de compromisso político sustentado e investimento coordenado por parte de dezenas de nações.

O Sistema Global de Observação dos Oceanos (GOOS) é copatrocinado por diversas entidades, entre elas a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O GOOS fornece dados importantes para os modelos de trajetórias dos ciclones tropicais.
O GOOS fornece dados importantes para os modelos de trajetórias dos ciclones tropicais.

O GOOS fornece aos seus membros informações cruciais sobre variáveis essenciais oceânicas, sejam elas físicas, químicas ou biológicas, com o objetivo de contribuir para a análise e previsão do clima, para algumas atividades operacionais e para o conhecimento dos oceanos. Além disso, apoia ainda os esforços de previsão para determinar as condições futuras dos oceanos e auxiliar no desenvolvimento de cenários de alterações climáticas.

À medida que a sociedade enfrenta os impactos das alterações climáticas, os dados oceânicos são vitais para prever melhor os eventos extremos, como inundações costeiras, ciclones e ondas de calor.

O recurso a dados oceânicos em tempo real, fornecido pelo GOOS, é fundamental para atividades operacionais, tais como prever a intensidade de um furacão, se, por exemplo, este se intensifica rapidamente antes de atingir terra, para uma frota pesqueira planear a sua época, para uma autoridade portuária encaminhar um navio de carga para contornar mares perigosos ou para decisores políticos prepararem-se para o El Niño.

Riscos que enfrenta o GOOS e os impactos futuros

Não obstante a importância do GOOS, este está a sofrer uma rápida degradação devido não só a pressões financeiras, mas também políticas.

A Fundação Nacional de Ciência dos EU (NSF), da administração Trump, começou a desmantelar a infraestrutura de um programa de observação em águas profundas de 368 milhões de dólares, essencial para a monitorização de ecossistemas marinhos, correntes globais, ondas de calor marinhas e muito mais, de acordo com um anúncio feito a 21 de maio.

A NSF planeia remover todas as redes e infraestruturas subaquáticas, incluindo centenas de instrumentos de águas profundas, de quatro dos cinco locais atualmente em funcionamento no projeto.

A remoção deverá ocorrer ao longo dos próximos 15 meses, embora o processo já tenha começado no Endurance Array, ao largo das costas do Oregon e de Washington.

O Sistema Global de Observação dos Oceanos tem vindo a diminuir a sua rede de boias oceânicas por questões financeiras.
O Sistema Global de Observação dos Oceanos tem vindo a diminuir a sua rede de boias oceânicas por questões financeiras.

As implantações de boias Argo na Europa têm vindo a diminuir há vários anos devido a restrições de financiamento e ao aumento dos custos das plataformas. A pandemia da COVID-19 causou também perdas de observações ao longo de vários anos que ainda não foram totalmente recuperadas.

Os cortes propostos no orçamento federal dos EUA que visam a NOAA e a National Science Foundation (NSF) ameaçam diversos sectores relacionados com o clima, entre eles, o GOOS, pois os EU é o maior contribuinte individual para o Sistema Global.

Num estudo publicado na revista Nature Climate Change, uma equipa liderada pelo doutorando Zhu Yujing e pelo Prof. Cheng Lijing, do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências, descobriu a rapidez com que o GOOS pode ser desativado e por quem.

A equipa de investigação simulou sistematicamente o que acontece à qualidade da monitorização oceânica quando os dados do GOOS são progressivamente removidos.

Os investigadores quantificaram, pela primeira vez, como as perdas de dados na monitorização oceânica podem degradar severamente as estimativas de calor oceânico que fundamentam a previsão meteorológica, a previsão do El Niño, a gestão da pesca e os cenários climáticos.

A equipa chegou à conclusão que a remoção de apenas 20 % das observações degrada imediatamente a precisão das estimativas anuais do aquecimento oceânico em 33 %.

Com uma perda de 80% dos dados, o sinal do aquecimento global dos oceanos torna-se estatisticamente indistinguível do ruído e o sistema de monitorização deixa de ser útil.

O estudo mostra que a vulnerabilidade do sistema não se resume apenas ao volume de dados, mas também ao facto da perda de qualquer contribuinte importante criar pontos cegos geograficamente concentrados que não podem ser compensados por dados provenientes de outros locais.

Além disso, a remoção apenas das observações dos EUA, que representam mais de metade do volume de dados globais, produziu um aumento de 163% no erro de monitorização, pior do que a perda aleatória de 80% de todos os dados globais.

A razão é que as plataformas financiadas pelos EUA abrangem todas as bacias oceânicas, preenchendo lacunas críticas que nenhuma outra nação cobre, o que demonstra que a vulnerabilidade do GOOS depende não só da quantidade de observações perdidas, mas também da localização dessas observações.

Referência da notícia

Zhu, Y., Cheng, L., Trenberth, K.E. et al.. Critical dependence of global ocean heat monitoring on the ocean observing system..