Qual é o segredo da cidade de Setúbal para ter sido poupada destas inundações?
Historicamente atingido por cheias, o município resiste ao mau tempo sem danos maiores. Descubra aqui o que foi feito para proteger a população das chuvas intensas como as ocorridas nas últimas semanas.

Com as chuvas intensas destas últimas semanas, as zonas ribeirinhas em praticamente todo o território continental estão sob pressão. As inundações sucedem-se de norte a sul, com a situação do vale do Mondego, na região centro, a suscitar maiores preocupações por parte das autoridades nacionais e regionais.
Até agora, os setubalenses têm resistido ao mau tempo, como os gauleses resistiram às invasões romanas que ocuparam toda a Gália, menos um ponto minúsculo, onde hoje se situa a atual Bretanha, em França.
Só que, em vez de uma poção mágica a proteger a população do inimigo, tem uma bacia de retenção que está a fazer toda a diferença nestes dias em que os caudais dos rios e ribeiras estão cheios e as barragens no limite.
Passar o teste com distinção
Situada numa planície de cheia para onde convergem várias ribeiras, com elevados declives, Setúbal foi sempre um município sujeito a inundações, agravadas pela fraca capacidade de retenção de água dos solos.
Foi diante deste cenário que o município começou a planear, há quase uma década, um ambicioso projeto de adaptação às alterações climáticas. Foram investidos três milhões de euros, apoiados por fundos comunitários, para construir uma bacia de retenção, que conjuga soluções de engenharia hidráulica com um amplo espaço verde para ser usufruído pela população.

O Parque Urbano da Várzea, em Setúbal, foi inaugurado em 2018, mas só agora, com este recente comboio de tempestades que atropela o país, foi verdadeiramente posto à prova. Poder-se-ia dizer que a obra está a passar este teste com distinção.
O mecanismo que protege a população das cheias
A intervenção teve como peça central a construção da bacia de retenção da ribeira do Livramento, com capacidade para armazenar até 240.000 m3 de água, o equivalente a 100 piscinas olímpicas.
O mecanismo evita a sobrecarga do sistema urbano mesmo em situações de maré-cheia. Em articulação com a estrutura instalada na zona da Algodeia e outras intervenções complementares, esta é uma resposta que assegura uma capacidade global de retenção próxima dos 300.000 m3.
Combater o calor urbano com espécies autóctones
Com uma área de intervenção de 19 hectares, o Parque Urbano da Várzea vai além da sua função hidráulica. As cerca de 1300 árvores de espécies autóctones plantadas asseguram também a prevenção da erosão do solo e o efeito de ilha de calor urbano que, com a subida das temperaturas, durante o verão, são cada vez mais frequentes.

Foram ainda construídos dois furos geodésicos para assegurar o abastecimento de água ao parque e caminhos pedonais para que a população pudesse aproveitar este espaço verde, que, entretanto, se tornou num dos principais refúgios climáticos da cidade.
A bacia resiste às intensas chuvas
Apesar dos níveis elevados de pluviosidade registados, a bacia de retenção encontra-se atualmente abaixo de 50% da sua capacidade. Está, portanto, a demonstrar robustez, apresentando ainda margem de segurança para enfrentar novos episódios intensos de chuva.
O parque regulariza o caudal das ribeiras do Livramento e da Figueira, com leitos de 8,54 e 4,68 quilómetros, respetivamente. Estas linhas de água fazem chegar à cidade caudais de 52 e 33 metros cúbicos por segundo, respetivamente, provenientes das serras do Louro e de São Luís.
Quando as marés do Atlântico e a pressão do Sado permitem a injeção de mais água, a bacia despeja-a por canais próprios, através de válvulas de pressão. Além do retorno ao leito original, há ainda a absorção pelo terreno do próprio parque, que minimiza os efeitos de impermeabilização do solo nas zonas mais urbanizadas da cidade.
Conservação do património e educação ambiental
A intervenção assegurou também a manutenção e futura preservação de elementos patrimoniais importantes para o município, como o aqueduto da Quinta de Prostes, tanques de rega, poços, alguns troços de caleiras e os três edifícios existentes na área.

A autarquia implementou, paralelamente, um programa abrangente, envolvendo os alunos do ensino básico em atividades de sensibilização para os desafios climáticos. O Parque Urbano da Várzea tornou-se, assim, num possível modelo a ser replicado em outras cidades, mas também num polo educacional para promover a sustentabilidade e cidadania ambiental.
A câmara assegura que continuará a investir neste espaço, pretendendo implementar um sistema de rega automatizada, plantar mais espécies arbóreas e arbustivas autóctones e aumentar as áreas de prado e relvado, tal como está, aliás, previsto no projeto paisagístico da bacia de retenção do Parque Urbano da Várzea.
Referência da notícia
Refúgio Climático da Várzea – Município de Setúbal