Produção de vinho: Alentejo prevê aumento de 20% e boa qualidade, mas no Douro avizinha-se “uma catástrofe”
Enquanto no Alentejo se estima uma produção de 108 milhões de litros de vinho - mais 20% face ao ano anterior -, no Douro os viticultores falam de uma "catástrofe", por não terem garantias de escoar as uvas, nem informação sobre os preços. Há uma concentração agendada para 7 de agosto, na Régua.

Na vindima de 2025, a região vitivinícola do Alentejo registou uma produção de 87 milhões de litros de vinho.
Este ano, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) estima um crescimento de 20% e uma produção de 108 milhões de litros de vinho nas próximas vindimas.
Os resultados de um estudo desenvolvido pela CVRA em parceria com a Universidade do Porto apontam para “uma campanha positiva, com expectativas favoráveis, tanto em termos quantitativos como qualitativos”, refere a Comissão Vitivinícola do Alentejo. E revela que as vinhas alentejanas beneficiaram, nos últimos meses, de “condições climatéricas favoráveis ao longo do ciclo” vegetativo.
Boa distribuição da precipitação
O arranque das vindimas alentejanas está previsto para as primeiras semanas de agosto e os viticultores sabem que esta campanha de 2026 decorre após um período marcado por uma “boa distribuição da precipitação, um inverno frio e ausência de impactos significativos dos fenómenos meteorológicos adversos”, situação que afetou outras regiões do país.
Luís Sequeira salienta que a campanha de vindimas assume “particular relevância”, já que a região vitivinícola do Alentejo “representa cerca de 40% do valor total das vendas de vinhos certificados em Portugal”. E este aumento da produção “reforça o peso económico e estratégico dos Vinhos do Alentejo” no panorama nacional.
"Cenário positivo" no Dão
Também na Região Demarcada do Dão o cenário é positivo, prevendo-se “um ligeiro aumento da produção de vinho na vindima de 2026” até cerca de 5%, face ao ano anterior.

As previsões constam do Boletim de Evolução Intercalar do Ano Vitícola 2026, divulgado nesta segunda-feira, 27 de julho, e que foi elaborado pelo Polo do Dão do CoLAB VINES & WINES, em parceria com a Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão).
Na Região Demarcada do Douro o panorama não é tão favorável. Viticultores contactados pela agência Lusa mostram-se apreensivos e estão a pedir “uma intervenção urgente do Governo”, de forma encontrar uma solução para a “insustentabilidade económica” em que se encontram.
Cancelamento das encomendas de uvas
Tudo isto, após receberem cartas das empresas a cancelar as encomendas de uvas.
“Fomos confrontados agora, nesta altura do ano, [pelas] casas a quem vendemos as uvas que, ou não querem uvas, ou apenas querem as uvas destinadas para o vinho do Porto, sem ainda qualquer tipo de preço. Ou seja, temos uma produção e uma colheita [que] praticamente irá ficar na vinha, porque neste momento ninguém quer uvas", explicou Marinete Alves, que integra o Conselho Regional da Casa do Douro.
Citada pela agência Lusa, a viticultora adiantou que contactaram, entretanto, “outras empresas para saber se querem uvas e a resposta que nos dão é que não, só querem uvas destinadas para o [vinho do] Porto, que é o cartão do benefício, fora isso, ninguém quer mais uvas”.

Marinete Alves revela que os viticultores estão numa “situação completamente catastrófica, estão desesperados, porque têm um ano de trabalho em que gastaram todo o seu rendimento e não têm agora forma de o recuperar". E assume que estão perante uma "total insustentabilidade económica dos viticultores”.
Concentração a 7 de agosto, na Régua
No dia 19 de julho, dezenas de viticultores durienses reuniram-se no Peso da Régua, num plenário, promovido pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e pela AVADOURIENSE – Associação dos Viticultores e da Agricultura Familiar Douriense, expressando “as suas preocupações face à situação vivida”.
Outra das decisões foi a realização de uma concentração, no dia 7 de agosto, às 10h00, na Régua, frente ao Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), “exigindo a adoção do conjunto das propostas e reclamações” constantes na moção.
A CNA alerta que, “no Douro, as uvas continuam a ser vendidas abaixo dos custos de produção e sem contratos, os preços estão estagnados há décadas, os custos de produção aumentam constantemente e continuam as importações de vinho e aguardente”. E isto ao mesmo tempo que “muitos viticultores não conseguem escoar a sua produção”.
Para “agravar a situação”, os viticultores queixam-se que a “fixação do quantitativo de benefício fica muito aquém das necessidades”.
O comunicado de vindima de 2026, aprovado a 17 de julho pelo conselho interprofissional do IVDP, fixou o benefício - a quantidade de mosto para produção de vinho do Porto - em 76 mil pipas.
Em 2025, o benefício foi fixado em 75 mil pipas. Em 2024 foi de 94 mil pipas e em 2023 foi de 104 mil pipas.