Portugueses são os que se sentem mais afetados por incêndios florestais, segundo a Agência Europeia do Ambiente

O relatório “Overheated and Underprepared” mostra que 35% dos residentes em Portugal já sofreram, direta ou indiretamente, com os fogos rurais nos últimos cinco anos – a média europeia não ultrapassa 8%.

Portugal está incluído na região da Europa onde quatro em cada cinco pessoas já sentiram o impacto das mudanças do clima nos últimos cinco anos. Foto: Adobe Stock
Portugal está incluído na região da Europa onde quatro em cada cinco pessoas já sentiram o impacto das mudanças do clima nos últimos cinco anos. Foto: Adobe Stock

Mais de um terço dos residentes em Portugal já se sentiram afetados pelos incêndios florestais ou pelo fumo associado nos últimos cinco anos.

Os fogos rurais são uma realidade que, direta ou indiretamente, atinge 35,2% da população do país e esse é um valor demasiado elevado, quatro vezes superior, aliás, ao registado na média europeia, que não vai além dos 8%.

Os dados, incluídos no relatório “Overheated and Underprepared”, da Agência Europeia do Ambiente, traçam um retrato preocupante do nosso continente, mostrando como ainda nos encontramos vulneráveis e despreparados para lidar com os eventos meteorológicos extremos.

Portugal, nesta sondagem, integra o grupo do Sul da Europa, a região onde a maior percentagem dos inquiridos (86,1%) admite já ter sentido na pele os impactos climáticos recentes.

No relatório da Agência Europeia do Ambiente, Portugal está no grupo do Sul da Europa com Chipre, Croácia, Itália, Malta, Montenegro, Eslovénia e Espanha.

É também a região onde a ansiedade é maior com as consequências mais imediatas das mudanças do clima - 61% dos entrevistados temem ondas de calor ou vagas de frio, 58,8% receiam os incêndios e 50,2% vivem apreensivos diante do risco de cheias.

Portugal, considerado um país de alto risco de inundações, também surge no inquérito da Agência Europeia do Ambiente como aquele em que os inquiridos revelam grande dificuldade no acesso a seguros contra catástrofes naturais.

A tempestade Kristin, no final de janeiro, expôs muitas das dificuldades que Portugal enfrenta na adaptação às mudanças climáticas. Foto: Município de Torres Vedras
A tempestade Kristin, no final de janeiro, expôs muitas das dificuldades que Portugal enfrenta na adaptação às mudanças climáticas. Foto: Município de Torres Vedras

Esse obstáculo, para os autores do relatório, pode vir a ter repercussões diretas e indiretas na capacidade de recuperação das famílias após o impacto de fenómenos extremos, como a recente tempestade Kristin.

Perceção de alertas e risco

Mas há aspetos positivos que a Agência Europeia do Ambiente destaca em Portugal. No contexto europeu, os portugueses estão entre os que apresentam a mais elevada taxa de perceção das medidas de aviso e de prevenção.

Mais de 90% dizem ter recebido alertas meteorológicos, via SMS ou através de órgãos de comunicação social, e cerca de 70% já se depararam com ações de sensibilização sobre riscos climáticos ou instruções sobre o que fazer em caso de emergência.

A desigualdade no acesso aos seguros é um dos principais fatores em Portugal a dificultar a recuperação das famílias após os eventos meteorológicos extremos, alerta a Agência Europeia do Ambiente. Foto: Município de Alcácer do Sal
A desigualdade no acesso aos seguros é um dos principais fatores em Portugal a dificultar a recuperação das famílias após os eventos meteorológicos extremos, alerta a Agência Europeia do Ambiente. Foto: Município de Alcácer do Sal

Estes números colocam Portugal muito acima da média europeia, revelando uma resposta institucional visível, embora ainda insuficiente para mitigar riscos “profundamente estruturais”, conclui o relatório.

Uma Europa despreparada

Para elaborar o seu relatório, a Agência Europeia do Ambiente entrevistou mais de 27 mil europeus de 27 estados-membros da UE. A amostra revela que ainda há muito a fazer na adaptação climática de um continente cada vez mais pressionado por eventos como inundações, incêndios ou temperaturas extremas.

Uma maioria esmagadora dos europeus — “mais de 80%” — já sofreram algum impacto climático nos últimos cinco anos, incluindo calor extremo, cheias, incêndios, escassez de água e aumento da presença de mosquitos.

“As alterações climáticas afetam a vida de quatro em cada cinco cidadãos da União Europeia, mas apenas um quarto está equipado com instrumentos adequados para lidar com elas.”
Ivailo Kalfin, director executivo da Eurofound

Apesar da intensificação da exposição à crise climática, boa parte das famílias europeias continua sem os recursos adequados para lidar com os riscos associados ao aquecimento global.

Um quinto dos inquiridos não adota nenhuma das medidas de proteção doméstica listadas — sombreamento, ar condicionado ou ventilação, dispositivos contra cheias, sistemas de captação de águas pluviais e seguros contra eventos extremos.

A exposição ao risco é maior em habitações com menos recursos. O inquérito indica que o grupo de famílias com os rendimentos mais baixos reporta quatro vezes mais dificuldades do que o grupo com rendimentos mais elevados. São sobretudo as camadas socioeconómicas mais desfavorecidas que relatam não conseguir manter a casa fresca, ter acesso à água segura ou proteger-se contra inundações.

É necessário aumentar a capacidade das famílias de lidar com os impactos climáticos e garantir que as ações tomadas sejam acessíveis e socialmente justas, para que ninguém seja deixado para trás.”

Leena Ylä-Mononen, diretora executiva da Agência Europeia do Ambiente.

O Norte da Europa é o que mais destoa no panorama geral – em países como Áustria, Liechtenstein, Luxemburgo, Países Baixos ou Suíça, a percentagem de residentes que dizem sentir os impactos climáticos é a mais baixa do bloco comunitário.

Mais de 20% dos europeus não possuem nenhum tipo de proteção instalada nas suas habitações para minimizar o impacto de eventos extremos. Foto: Pixabay
Mais de 20% dos europeus não possuem nenhum tipo de proteção instalada nas suas habitações para minimizar o impacto de eventos extremos. Foto: Pixabay

Mas a adoção de medidas domésticas nesta região é também a mais reduzida, o que, segundo os autores do relatório, pode resultar numa combinação perigosa a gerar “uma falsa sensação de segurança”.

Referência da notícia

Superaquecidos e despreparados: experiência dos europeus ao viverem com as mudanças climáticas (versão em inglês). Agência Europeia do Ambiente