OMM alerta para a possibilidade de novos recordes de calor: um ano entre 2026 e 2030 poderá superar o histórico 2024

Um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial prevê que as temperaturas globais se manterão próximas de níveis recorde durante os próximos cinco anos. O sinal é claro: o planeta continua a acumular calor e a margem para agir está a diminuir.

O calor extremo continuará a marcar a agenda climática global: a OMM alerta que um novo recorde de temperatura poderá ser atingido antes de 2030. Crédito: OMM.
O calor extremo continuará a marcar a agenda climática global: a OMM alerta que um novo recorde de temperatura poderá ser atingido antes de 2030. Crédito: OMM.

O termómetro global não parece disposto a fazer férias. Um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), elaborado pelo Met Office do Reino Unido, prevê que as temperaturas médias do planeta continuarão em níveis muito elevados entre 2026 e 2030, com uma probabilidade significativa de que seem quebrados novos recordes.

A atualização anual a decenal do clima global alerta que a temperatura média anual perto da superfície poderá situar-se entre 1,3 °C e 1,9 °C acima da média pré-industrial, considerada entre 1850 e 1900.

Um novo recorde mundial poderá ser batido antes de 2030

Um dos dados mais impressionantes do relatório é que existe uma probabilidade de 86% de que pelo menos um ano entre 2026 e 2030 ultrapasse 2024 como o ano mais quente desde que existem registos instrumentais. Este antecedente é relevante porque 2024 já marcou um marco climático ao situar-se cerca de 1,55 °C acima do nível pré-industrial.

A OMM também estima que há 91% de probabilidade de que pelo menos um ano do período 2026-2030 ultrapasse temporariamente o limiar de 1,5 °C.

Este número não significa, por si só, que o Acordo de Paris tenha falhado, uma vez que essa meta é avaliada em médias de longo prazo, geralmente de 20 anos. Mas mostra que as ultrapassagens temporárias serão cada vez mais frequentes.

A temperatura global continua a subir: 2024 está a caminho de se tornar o ano mais quente de que há registo e o primeiro a ultrapassar temporariamente o limiar de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Crédito: Copernicus/ECMWF.
A temperatura global continua a subir: 2024 está a caminho de se tornar o ano mais quente de que há registo e o primeiro a ultrapassar temporariamente o limiar de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Crédito: Copernicus/ECMWF.

A diferença é importante: um ano isolado com um aumento de 1,5 °C não significa que tenhamos ultrapassado definitivamente o limite climático, mas funciona como um alarme. E não um alarme suave de telemóvel, mas daqueles que nos obrigam a levantar-nos imediatamente.

O El Niño poderá voltar a impulsionar o calor global

O relatório indica que as projeções para a região Niño 3.4 do Pacífico tropical central apontam para uma tendência de condições de El Niño, especialmente durante 2027 e 2028. Este fenómeno natural costuma elevar a temperatura média global, porque altera a circulação atmosférica e liberta o calor acumulado do oceano para a atmosfera.

De acordo com o relatório, o possível aparecimento do El Niño no final de 2026 aumentaria a probabilidade de 2027 se tornar um novo ano recorde.

Isto não significa que o El Niño seja o único responsável pelo aquecimento global. Pelo contrário, ele atua como um impulso adicional sobre uma tendência que já está marcada pela acumulação de gases com efeito de estufa.

É como subir uma ladeira com uma mochila pesada e, além disso, enfrentar vento contrário. O El Niño pode intensificar a temperatura de um ano específico, mas o aquecimento de fundo continua a ser o grande protagonista desta história climática.

O Ártico continuará a aquecer mais rapidamente do que o resto do planeta

A OMM também dá especial atenção ao Ártico, uma das regiões onde o aquecimento avança mais rapidamente. Para os próximos cinco invernos prolongados do hemisfério norte, entre novembro e março, preveem-se anomalias de temperatura de 2,8 °C acima da média de 1991-2020.

Este valor é mais de três vezes e meia superior à anomalia média global prevista para o mesmo período. O impacto não se limita ao Ártico: a perda de gelo marinho, as alterações na circulação atmosférica e as mudanças nos ecossistemas podem ter consequências muito mais amplas.

O Ártico volta a acender os alarmes climáticos: a OMM prevê que esta região continuará a aquecer muito mais rapidamente do que a média global, com efeitos sobre o gelo marinho, os ecossistemas e os padrões meteorológicos à escala global.
O Ártico volta a acender os alarmes climáticos: a OMM prevê que esta região continuará a aquecer muito mais rapidamente do que a média global, com efeitos sobre o gelo marinho, os ecossistemas e os padrões meteorológicos à escala global.

As projeções apontam também para uma nova redução da concentração de gelo marinho em zonas como o Mar de Barents, o Mar de Bering e o Mar de Okhotsk. Além disso, preveem-se condições mais húmidas do que o normal nas altas latitudes do hemisfério norte, enquanto algumas zonas subtropicais, especialmente no hemisfério sul, poderão enfrentar condições mais secas.

A mensagem do relatório é contundente: os próximos anos continuarão a pôr à prova a capacidade de adaptação das sociedades, dos ecossistemas e das economias. Cada décimo de grau importa, porque pode traduzir-se em ondas de calor mais intensas, chuvas extremas mais prováveis, secas mais severas e maiores riscos para a saúde, a agricultura e o acesso à água.

A ciência climática não está a olhar para uma bola de cristal; está a interpretar uma tendência apoiada por observações, modelos e décadas de evidências. E a previsão, embora preocupante, também oferece uma oportunidade: quanto mais cedo se reduzirem as emissões e se reforçar a adaptação, menor será a conta climática que as próximas gerações terão de pagar.

Referência da notícia

OMM. Un nuevo informe sugiere que se avecinan más récords mundiales de temperatura.

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