O paradoxo do Alqueva: mais riqueza não travou o despovoamento no Alentejo

Estudo de investigadores de Évora e de Lisboa revela como a expansão agrícola e as exportações coexistem com desigualdades, perda de população e pressão ambiental.

O Alqueva transformou a economia regional, mas não travou o despovoamento nem reduziu as desigualdades. Foto: EDIA
O Alqueva transformou a economia regional, mas não travou o despovoamento nem reduziu as desigualdades. Foto: EDIA

A água chegou, a agricultura transformou-se e o investimento multiplicou-se. Ao longo das últimas duas décadas, o empreendimento do Alqueva ajudou a converter vastas áreas do Alentejo num dos mais importantes polos agrícolas do país.

As exportações cresceram, as novas culturas ocuparam os campos e a região ganhou maior segurança no acesso à água. Ainda assim, o Alentejo continua a perder habitantes. É esta contradição que um estudo de investigadores das universidades de Lisboa e de Évora procura compreender.

A investigação conclui que o Alqueva cumpriu muitos dos objetivos para os quais foi concebido, mas não travou o despovoamento, o envelhecimento da população ou a persistência de desigualdades económicas.

Publicado na revista científica Sustainability, o estudo analisa a evolução da região desde a construção do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva e questiona até que ponto o crescimento económico gerado pelo projeto se traduziu em benefícios para as comunidades locais.

Prosperidade concentrada e mais desigualdades

Poucas regiões portuguesas sofreram uma transformação tão profunda nas últimas décadas. O aumento da área irrigada impulsionou a produção agrícola, valorizou terras e atraiu investimento. O turismo e as energias renováveis também prosperaram com a construção do maior lago artificial da Europa.

Alqueva em números: os ganhos e as contradições

ÁreaO que mudouO paradoxo
Água e regadioAté 130 mil hectares de regadio e abastecimento de água a cerca de 200 mil pessoasA disponibilidade de água aumentou, mas também a pressão sobre os recursos naturais
AgriculturaA produção de azeite cresceu de 118 mil para 866 mil hectolitros entre 1998 e 2015O aumento da produção não beneficiou todos de forma igual
TerraForte valorização dos terrenos agrícolasA propriedade concentrou-se em grandes grupos de investimento
PopulaçãoO projeto visava ajudar a fixar habitantesO Alentejo perdeu 67 552 residentes entre 2001 e 2021
RiquezaMais de 2 mil milhões de euros investidos no projetoParte significativa do valor gerado não ficou no território
Fonte: Gonçalves e Gonçalves, "Promises and Deliveries in the Alqueva Paradox".

Os indicadores demográficos, porém, revelam o lado B desta história de sucesso. Entre 2001 e 2021, o Alentejo perdeu 67 552 residentes. Nas freguesias situadas em torno da albufeira do Alqueva, a redução populacional atingiu 26,2%.

Este é um dos principais paradoxos do projeto. Apesar do crescimento económico, a região não conseguiu fixar população nem inverter tendências demográficas de longa duração.

Parte da explicação poderá estar na natureza do próprio modelo produtivo. Muitas explorações agrícolas dependem de trabalho sazonal e pouco qualificado. Uma proporção significativa dos trabalhadores é migrante e encontra frequentemente condições precárias de alojamento e emprego. Continuam a existir, simultaneamente, dificuldades no acesso à habitação, serviços públicos, transportes e oportunidades de qualificação profissional.

Os grandes beneficiários da valorização das terras

O estudo chama ainda a atenção para a concentração da propriedade agrícola. A chegada da água aumentou o valor dos terrenos e criou oportunidades económicas. Mas nem todos os agricultores estavam em posição de aproveitar essa transformação.

Cerca de 70% da terra agrícola da área abrangida pelo projeto mudou de mãos na década seguinte à conclusão da barragem. No mesmo período, seis grupos de investimento passaram a controlar mais de 65% dos olivais de regadio.

Os investigadores defendem que uma parte importante dos ganhos gerados pela valorização da terra e pelo investimento público acabou por se concentrar num número reduzido de proprietários e investidores. A questão, sublinham, não é saber se a região produz mais riqueza. É perceber quem beneficia dessa riqueza e quanto dela permanece no território.

Os recursos naturais são sempre limitados

Para interpretar esta evolução, os autores recorrem ao conceito de "neoextrativismo". Trata-se de um modelo económico que utiliza intensivamente recursos naturais para abastecer mercados externos, mas gera benefícios mais limitados para as comunidades locais.

Parte significativa das terras beneficiadas pelo Alqueva passou para as mãos de grandes investidores, tornando mais difícil a permanência dos pequenos agricultores. Foto: EDIA
Parte significativa das terras beneficiadas pelo Alqueva passou para as mãos de grandes investidores, tornando mais difícil a permanência dos pequenos agricultores. Foto: EDIA

No caso do Alqueva, esta lógica não se restringe à agricultura. Os investigadores identificam tendências semelhantes em setores como a energia renovável e o turismo.

O estudo alerta ainda para as pressões ambientais associadas à intensificação produtiva, incluindo riscos para os solos, para os recursos hídricos e para a biodiversidade. A disponibilidade de água permitiu expandir a produção agrícola, mas não eliminou os limites ecológicos da região.

Crescimento económico nem sempre é desenvolvimento

A principal conclusão dos investigadores é que o investimento em infraestruturas, por si só, não garante coesão territorial. Os autores defendem, por isso, uma maior articulação entre políticas agrícolas, habitação, transportes, serviços públicos, qualificação profissional e proteção ambiental.

Sem mecanismos capazes de redistribuir parte da riqueza gerada, argumentam, os benefícios do investimento público tendem a concentrar-se sem produzir melhorias equivalentes nas condições de vida locais.

O caso do Alqueva deixa, assim, uma reflexão que vai muito além do Alentejo. Uma região pode aumentar a produção, exportar mais e atrair investimento sem conseguir inverter o declínio demográfico ou reduzir desigualdades.

O verdadeiro teste ao desenvolvimento não está apenas na riqueza que um território consegue gerar. Está sobretudo na capacidade de transformar essa riqueza em oportunidades, população residente e prosperidade partilhada.

Referência da notícia

Jorge Manuel Gonçalves & Carlos Gonçalves. Promises and Deliveries in the Alqueva Paradox: Neoextractivism and the Limits of Territorial Cohesion Policy in Southern Portugal. Sustainability.