O mundo está a ficar sem areia

A areia é o segundo recurso mais consumido do mundo. O crescimento da população e o aumento exponencial do seu uso estão a pô-la em risco. Nós humanos, podemos vir a ficar sem areia em poucas décadas.

Enzo Campetella Enzo Campetella Alfredo Graça 03 Dez. 2019 - 19:19 UTC
Arena
O uso da areia cresce de forma exponencial e o recurso está em risco.

Um relatório revelador da BBC Future mostra como este recurso tão necessário para o ser humano corre sérios riscos devido à sobre-exploração. Ainda que pareça mentira, histórias humanas de assassinatos em lugares tão díspares como o México, Índia ou África do Sul estão por detrás da luta pelo acesso à areia, tão vital para a construção das cidades modernas que habitamos.

O cimento e o asfalto em grande medida estão conformados em grande parte devido à areia. Os ecrãs dos nossos telemóveis e computadores, os pára-brisas dos nossos automóveis ou os vidros das nossas casas são feitos de areia derretida. Até os chips dos computadores e telemóveis têm origem na areia.

A água é o recurso que os seres humanos mais consomem. Logo a seguir vem a areia. O cerne da questão é que tipo de areias estamos a usar. Na verdade, as areias dos desertos são em grande parte inúteis porque a forma dos seus grãos não é apta para obter um bom cimento já que são muito lisos e arredondados.

A população mundial duplicou em apenas 60 anos

A areia que necessitamos deve ser mais angular e é obtida geralmente dos leitos, depósitos e planícies de aluvião dos rios, assim como nos lagos e à beira-mar. E por lá, vai-se compreendendo o problema porque vemos que a origem do material cada vez mais é muito limitada. A sua procura a nível global é tão intensa que para conseguir satisfazê-la destroem-se leitos fluviais e praias. Em muitos casos é mais rentável que as terras de cultivo, e avança-se sobre bosques para poder obtê-la.

O problema gerado pela tensão entre a oferta e a procura fez com que em alguns países grupos de pessoas tenham estabelecido um comércio ilegal em torno da areia. Verdadeiras máfias que, como contávamos no início, chegam a matar para alcançar o seu objetivo. Pascal Peduzzi, investigador do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente disse à BBC Future que "não podemos extrair 50 mil milhões de toneladas por ano de nenhum material sem provocar impactos massivos no planeta e, portanto, na vida das pessoas".

Várias realidades somam-se. A população mundial continua a aumentar a níveis exponenciais. Apenas um par de números para entender a magnitude deste tópico. Em 1960 a população mundial rondava 3200 milhões de pessoas. Em 2017 esse número já superava os 7500 milhões de pessoas. Por outras palavras a população aumentou 2,34 vezes em menos de 60 anos. Ao mesmo tempo cresce a quantidade de gente que se muda do campo para as cidades, pelo que a urbanização acelerada necessita de cada vez mais areia.

O êxodo rural para as cidades é cada vez mais intenso

Um dado perturbador indica que na América Latina, África e Ásia as cidades estão a crescer a um ritmo muito superior a qualquer outro momento da história humana. O número de pessoas que vivem em zonas urbanas quadriplicou em relação ao início da década de 1950. O exemplo do relatório é muito claro: equivale a somar 8 cidades do tamanho de Nova Iorque a cada ano.

Dubai
O Dubai é um dos países que mais terreno retirou ao mar. Ainda que esteja no meio de um deserto, tem que importar areia da Austrália.

É provável que a China tenha usado mais areia nesta década do que os Estados Unidos em todo o século XX. O Dubai, por exemplo, em pleno deserto, tem que importar areia da Austrália para colmatar as necessidades do seu crescimento urbano. Também em muitos lugares do mundo, está a ser realizada a dragagem do fundo do mar para somar essa quantidade de areia nas linhas de costa e criar novas terras habitáveis.

Esta prática constitui uma grande desvantagem ao danificar zonas de recifes de coral, por exemplo, e em alguns casos deteriora zonas antes ricas em pesca. Singapura é o país que mais terreno conquistou ao mar, necessitando de enormes quantidades de areia de outros países. O dano ambiental é tão grande que a Indonésia, Malásia, Vietname e Camboja tiveram que restringir todas as exportações de areia para Singapura. E estes são poucos exemplos.

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