IPMA revela que fevereiro foi um mês extremamente chuvoso: meteorologista Teresa Abrantes analisa principais destaques

O mês de fevereiro de 2026, em Portugal continental, classificou-se, do ponto de vista climatológico, como um mês muito quente em relação à temperatura do ar e extremamente chuvoso em relação à precipitação.

Em fevereiro tivemos cheias nos principais rios do continente e inundações em muitas regiões.
Em fevereiro tivemos cheias nos principais rios do continente e inundações em muitas regiões.

Em fevereiro, o estado do tempo em Portugal continental foi condicionado pela ação sucessiva de quatro depressões (Leonardo, Marta, Nils e Oriana), com sistemas frontais associados, que transportavam massas de ar com muita humidade proveniente do Atlântico tropical e subtropical.

Estes rios atmosféricos originaram precipitação generalizada no continente, por vezes forte e persistente nos primeiros 20 dias do mês, nas regiões Norte e Centro, e nos primeiros 13 dias, na região Sul. Em alguns dias da 2ª quinzena verificou-se um tempo mais estável devido à ação de um Anticiclone posicionado a oeste da Península Ibérica.

Temperatura média acima dos valores normais para o mês de fevereiro

De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, IPMA, em Portugal continental, no mês de fevereiro, o valor médio da temperatura média do ar, 11.66 °C, foi o 7º mais alto desde 1931, com uma anomalia 1.79 °C superior ao valor da normal 1991-2020.

Desde 1931, o valor mais alto da temperatura média para fevereiro, 12.47 °C, registou-se em 2024 e é de assinalar que nos últimos 8 anos registaram-se sempre valores acima da média para fevereiro.

Anomalias da temperatura média do ar no mês de fevereiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA
Anomalias da temperatura média do ar no mês de fevereiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA

O valor médio da temperatura máxima do ar, 15.61 °C, foi acima do valor médio no período 1991-2020, com uma anomalia de 0.91°C e foi o 10º valor mais alto de fevereiro, desde 2000, sendo o mais alto de 17.89 °C, que ocorreu em 2020.

Desde 1931, valores de temperatura máxima superiores ao deste mês ocorreram em 15% dos anos.

O valor médio da temperatura mínima do ar, 7.70 °C, registou uma anomalia de 2.67 °C, sendo o 6º valor mais alto desde 1931. O valor mais alto registou-se em 1985, com 7.96 °C. De referir os últimos 3 anos com anomalias positivas da temperatura mínima em fevereiro.

O maior valor da temperatura máxima do ar em fevereiro foi registado na estação meteorológica de Mora, 26.2 °C, no dia 22 de fevereiro e o maior valor da temperatura mínima do ar, 15.8 °C, em Portimão no dia 05. A temperatura mínima mais baixa, -2.4 °C, ocorreu em Miranda do Douro no dia 20 de fevereiro.

Ao longo do mês destacaram-se dois períodos mais quentes em relação à temperatura média diária, com anomalias positivas nos períodos de 9 a 12 e 21 a 26 de fevereiro.

A maior anomalia registou-se na temperatura mínima, com desvios que chegaram a 8.1°C, no dia 10 e no que diz respeito à temperatura máxima, destacaram-se os dias 22 e 23 com anomalias acima de 7.0 °C e, respetivamente com 15% e 25% das estações meteorológicas da rede do IPMA a registarem valores de temperatura máxima acima de 24 °C.

No período quente de 21 a 26 de fevereiro é de referir a ocorrência de uma onda de calor, com a duração de 6 dias, em 4 localidades dos distritos de Bragança e Guarda.

Neste mês de fevereiro foram batidos alguns recordes de temperatura máxima e mínima para fevereiro em algumas estações do IPMA.

A precipitação em fevereiro foi bastante superior ao valor médio

Ainda de acordo com o IPMA, o mês de fevereiro registou um total de precipitação mensal de 241.7 mm, 5º valor mais alto desde 1931, com uma anomalia de 168.3 mm.

Fevereiro de 2026 foi o mais chuvoso dos últimos 47 anos, sendo o mais chuvoso o de 1947, com 347.0 mm.

De referir que o total mensal da precipitação registada foi 3 vezes o valor médio, o que corresponde a 329% do valor médio 1991-2020.

Anomalias da quantidade de precipitação, no mês de fevereiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA
Anomalias da quantidade de precipitação, no mês de fevereiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA

Em todas as estações meteorológicas da rede IPMA analisadas foi ultrapassado o valor normal para fevereiro.

Grande parte do território registou valores 3 a 4 vezes o valor normal 1991-2020, sendo mesmo superior a 5 vezes nas localidades de Mora, Lavradio (Barreiro) e Alvalade do Sado.

A precipitação total mensal chegou a atingir valores superiores a 500 mm, que foram registados em 3 estações meteorológicas, Cabril, Penhas Douradas e Lamas de Mouro, com 609.7 mm, 586.8 mm e 578.1 mm, respetivamente.

Em 11 estações da rede do IPMA registaram-se também novos extremos da precipitação diária. É de referir os seguintes valores: 83.5 mm, no dia 2, em V. Nova de Cerveira, 64.5 mm, no dia 4 em Alvalade, 55.9 mm, no dia 4, em Alcácer do Sal e 55.7 mm em Beja, também no dia 4.

Ao longo do mês registaram-se mais de 10 dias com precipitação diária superior a 10 mm em 35% das estações. 63% das estações registaram pelo menos 1 dia, ou mais, com precipitação superior a 30 mm, salientando-se Cabril com 10 dias e Penhas Douradas com 9 dias.

Indicador de cheias e precipitação extrema

Atendendo à precipitação elevada e persistente que ocorreu no continente em fevereiro, o IPMA calculou um dos principais índices para a caracterização de eventos extremos persistentes de precipitação. Trata-se do máximo da precipitação acumulada em cinco dias consecutivos num determinado período, mensal ou anual.

Este indicador é particularmente relevante para a avaliação do potencial de ocorrência de cheias, uma vez que a acumulação de precipitação ao longo de vários dias favorece a saturação dos solos, o aumento do escoamento superficial e consequentemente a ocorrência de cheias fluviais e outros impactos hidrológicos que se verificaram no mês de fevereiro.

Os valores máximos deste indicador ocorreram na região Norte e Centro de Portugal continental, mas também em alguns locais do Alentejo nos primeiros dias do mês. Os valores mais elevados ocorreram nas Penhas Douradas e no Cabril, respetivamente com 254.6 mm e 231.1 mm.

Ano hidrológico 2025/2026

O valor da quantidade de precipitação acumulada até final de fevereiro, no ano hidrológico 2025/2026 (1 de outubro de 2025 a 30 setembro de 2026), 924 mm, corresponde a 1,8 vezes o valor médio do ano hidrológico no período 1991-2010, o que corresponde a 179% do valor normal.

O ano hidrológico até final de fevereiro corresponde ao mais chuvoso dos últimos 30 anos, o 5º desde 1931 e já ultrapassou o ano hidrológico mais chuvoso depois de 2000, 2000/2001, registando uma anomalia de 21 mm.

Os valores da quantidade de precipitação acumulada no ano hidrológico 2025/2026 são superiores ao normal em todo o território, sendo mesmo superior a 2 vezes nos distritos de Leiria, Lisboa e Santarém.

Água no solo e Índice de seca - PDSI

No final de fevereiro todos os concelhos apresentam valores de água no solo entre 60% e 100%. Nas regiões Norte, interior Centro e alguns municípios do interior do alto Alentejo encontram-se nos níveis de saturação do solo, e no nordeste transmontano, o solo encontra-se perto da sobressaturação.

De acordo com o Índice Meteorológico de Seca, PDSI, índice meteorológico de seca calculado pelo IPMA para monitorização da situação de seca, no final de fevereiro não existia seca meteorológica no continente, verificando-se um agravamento nas classes de chuva.

Em termos de distribuição percentual por classes do índice PDSI no território continental, no final de fevereiro era a seguinte: 0.4% na classe de chuva moderada, 24.5% na classe de chuva severa e 75.1% na classe de chuva extrema.