Janeiro de 2026 foi um mês muito chuvoso e caracterizou-se pela passagem da depressão Kristin com impactos devastadores

O mês de janeiro de 2026, em Portugal continental, classificou-se, do ponto de vista climatológico, como um mês quente em relação à temperatura do ar, muito chuvoso em relação à precipitação, e extremamente ventoso durante a passagem da depressão Kristin.

O mês de janeiro, além de ter sido um mês muito chuvoso, caracterizou-se pela passagem do temporal Kristin, que provocou vento extremamente forte com impactos destrutivos no terreno e nas populações.
O mês de janeiro, além de ter sido um mês muito chuvoso, caracterizou-se pela passagem do temporal Kristin, que provocou vento extremamente forte com impactos destrutivos no terreno e nas populações.

Em janeiro, no continente, o estado do tempo foi condicionado predominantemente pela passagem de depressões e sistemas frontais, que provocaram episódios frequentes e persistentes de precipitação, por vezes forte, com aumento das reservas hídricas nas principais albufeiras.

Além das depressões Francis, Goreti, Ingrid e Joseph, é de referir a depressão Kristin, uma depressão com cavamento (pressão no seu centro a baixar) muito acelerado (ciclogénese explosiva), provocando, além da chuva forte, ventos extremamente fortes em especial na região de Leiria, com impactos devastadores no terreno, desde destruição de casas e telhados, queda de árvores e postes de alta tensão, afetando milhares de pessoas.

Temperatura média um pouco acima dos valores normais para o mês de janeiro

De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, IPMA, em Portugal continental, no mês de janeiro, o valor médio da temperatura média do ar, 9.19°C, foi o 12º mais alto desde 2000, com uma anomalia de 0.15 °C superior ao valor da normal 1991-2020.

Desde 1931, o valor mais alto da média da temperatura média para janeiro, 11.28°C, registou-se em 1955.

Anomalias da temperatura média do ar no mês de janeiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA
Anomalias da temperatura média do ar no mês de janeiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA

O valor médio da temperatura máxima do ar, 12.71 °C, 6º valor mais baixo desde 2000, foi abaixo do valor médio no período 1991-2020, com uma anomalia de 0.64°C. O valor mais baixo em janeiro, 9.87 °C, ocorreu em 1945.

O valor médio da temperatura mínima do ar, 5,66 °C, 9º valor mais alto desde 2000, registou uma anomalia de 0.93 °C, acima do valor normal. O valor mais alto registou-se em 1955, com 8.58 °C.

Maior valor da temperatura máxima do ar, 20.6 °C, registou-se em Alvalade, no dia 02, enquanto o menor valor da temperatura mínima, -7.3 °C, ocorreu em Miranda do Douro, no dia 06.

Ao longo do mês houve muita variabilidade da temperatura do ar podendo destacar-se dois períodos mais quentes para o mês de janeiro, no início e final do mês. As maiores anomalias registaram-se na temperatura mínima, com desvios superiores a 5.0°C, nos dias 2, 3, 26 e 29 de janeiro.

A precipitação em janeiro foi muito acima do valor normal

Ainda de acordo com o IPMA, o mês de janeiro de 2026 registou um total de precipitação mensal de 233.4 mm, o que corresponde a cerca de 2 vezes o valor médio 1991-2020, que é de 105.0 mm.

Janeiro de 2026 teve o 2º valor da precipitação mais alto desde 2000 e o 14º mês de janeiro mais chuvoso desde 1931.

A precipitação mensal, que foi superior à normal em todas as estações, registou uma anomalia de 128,4 mm.

Anomalias da quantidade de precipitação, no mês de janeiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA
Anomalias da quantidade de precipitação, no mês de janeiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios no período 1991-2020. Fonte: IPMA

Em 78% das estações meteorológicas o total da precipitação foi igual ou superior a 2 vezes o valor médio e em 40% das estações o total foi 2.5 a 3.5 vezes o valor médio.

Foi nas regiões Centro e Sul que os valores de precipitação chegaram a 250-350% do valor normal.

As estações meteorológicas da região Sul que registaram valores acima de 300% em relação ao valor médio foram Alvalade, Barreiro/Lavradio, Sagres e Mértola.

O maior valor da quantidade de precipitação em 24h foi de 143.8 mm e registou-se em V. Nova de Cerveira, no dia 26, enquanto o maior valor da precipitação mensal ocorreu em Cabril, 545,5 mm, 204% da normal.

É de referir também outras estações meteorológicas com precipitação acima dos 250 mm, tal é o caso de Guarda, Rio Maior, Coimbra/Bencanta, Vila Real CC, Portalegre, Braga, Porto S. Geans, Nelas, Anadia, Porto PR, Ponte de Lima, Montalegre e Viseu CC.

No entanto, foi em Alvalade que se registou a maior percentagem de precipitação em relação à normal para janeiro, 362%, com um valor de 227,8 mm. Esta foi a única estação com uma percentagem superior a 350%.

Durante o mês de janeiro também se registou queda de neve em alguns dias, sendo de referir no final do dia 24 e madrugada do dia 25 a ocorrência de um dos nevões mais significativos dos últimos anos a atingir cotas relativamente baixas (> 400m de altitude).

Situação hidrológica – ano hidrológico 2025/2026

Ainda de acordo com o IPMA, o valor da quantidade de precipitação acumulada até final de janeiro, no ano hidrológico 2025/2026 (ano hidrológico refere-se ao período de 1 de outubro de um ano até 30 de setembro do ano seguinte), foi de 681 mm, ainda abaixo da precipitação do ano hidrológico 2000-2001 em final de janeiro, 797.1 mm, que foi dos anos hidrológicos mais chuvosos de sempre, desde há 25 anos.

No entanto, o valor acumulado no ano hidrológico até 31 de janeiro (681 mm) corresponde a 2 vezes o valor médio do ano hidrológico até final de janeiro. Este valor foi acima do que ocorreu nos anos hidrológicos 1991-2020 e 2024-2025, que foram dois anos hidrológicos dos mais chuvosos.

No final de janeiro todos os concelhos apresentavam valores de água no solo acima da capacidade de campo, com concelhos do interior Norte, região Centro e litoral Sul, muito próximos da saturação total do solo, aumentando o risco de inundações e instabilidade de vertentes.

Também no final de janeiro maior parte das bacias hidrográficas estavam entre 1.5 a 2 vezes o valor normal.

Vento máximo registado no mês de janeiro – depressão Kristin

A tempestade Kristin originou valores de intensidade do vento superiores a 130 km/h nos Distritos de Coimbra, Leiria e Castelo Branco.

Na rede das estações meteorológicas do IPMA o valor da rajada máxima foi registado na estação de Leiria, 156 km/h, no dia 28 às 05h20 UTC, no entanto a rajada máxima ocorrida em Portugal, 177.8 km/h, foi registada em Monte Real numa estação meteorológica da FAP (Força Aérea Portuguesa).

No dia 28, dia da passagem da Kristin, na rede de estações meteorológicas automáticas do IPMA e FAP (desde 1987), foram batidos recordes anteriores de rajada em 20 estações.

De entre estas 20 estações destacam-se as que registaram valores mais elevados de rajada: Monte Real (177.8 km/h), Ansião (172.4 km/h), Leiria/Aeródromo (156.2 km/h), Cabo Carvoeiro/Farol (149.0 km/h), Castelo Branco (136.8 km/h), Fóia (135.4 km/h) e Tomar/Vale Donas (132.8 km/h).