“Emoções em Perigo” chegou a Lisboa e expõe a extinção acelerada das espécies

Do fotógrafo mundialmente reconhecido Tim Flach, 34 retratos singulares de animais ameaçados estão, até 18 de maio, na Avenida dos Oceanos, no Parque das Nações, com entrada gratuita.

O Parque das Nações, em Lisboa, recebe a exposição “Emoções em Perigo” de Tim Flach. Foto: Tim Flach
O Parque das Nações, em Lisboa, recebe a exposição “Emoções em Perigo” de Tim Flach. Foto: Tim Flach

Há olhos que nos seguem mesmo depois de desviarmos o olhar. Estão fixos e expostos ao ar livre na Avenida dos Oceanos, no Parque das Nações, em Lisboa. Até 18 de maio, esses olhares pertencem a animais que podem já não existir daqui a algumas décadas. A exposição “Emoções em Perigo”, do fotógrafo britânico Tim Flach, transforma a cidade numa galeria silenciosa e num alerta que não nos deixa indiferentes.

Lémur de Madagáscar, espécie ameaçada de extinção, retratada na exposição “Emoções em Perigo”. Foto: Tim Flach
Lémur de Madagáscar, espécie ameaçada de extinção, retratada na exposição “Emoções em Perigo”. Foto: Tim Flach

Ao longo de 34 retratos de espécies ameaçadas, desenha-se um cenário que muitos cientistas classificam como a sexta extinção em massa. Um desaparecimento entre 100 e 1000 vezes mais rápido do que o ritmo natural. Mas aqui não há gráficos nem números. Há, sim, rostos, expressões e emoções.

Retratos que despertam a nossa humanidade

Tim Flach é reconhecido internacionalmente pela sua abordagem à fotografia de vida selvagem. Em vez de captar os animais nos seus habitats, escolhe fundos neutros, quase clínicos, retirando-os do contexto para os aproximar de nós. Sem distrações, somos confrontados com a individualidade de cada animal.

Os anfíbios estão em risco de extinção devido às alterações climáticas e à propagação do fungo quítridio. Foto: Tim Flach
Os anfíbios estão em risco de extinção devido às alterações climáticas e à propagação do fungo quítridio. Foto: Tim Flach

Há algo de profundamente humano nestes retratos. “Tentei construir uma ponte”, explica o autor em entrevista concedida à AfundacionTV, plataforma educativa da Obra Social ABANCA. Ao utilizar um estilo reservado a retratos humanos, o fotógrafo destaca a singularidade de cada animal, em vez de nos oferecer representações genéricas da vida selvagem.

Cada imagem é acompanhada de informações detalhadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), incluindo o grau de ameaça segundo a Lista Vermelha. O nome científico, a origem geográfica e a descrição da espécie ajudam a contextualizar o que está em causa.

A exposição integra também elementos interativos, como uma mesa de luz que desafia os visitantes a testar o seu conhecimento sobre as espécies. Mas, mesmo sem tecnologia, o impacto de cada retrato é como um espelho desconfortável.

Histórias de sobrevivência condensadas no olhar

Entre os rostos expostos, contam-se histórias que condensam milhões de anos de evolução, ameaçadas agora por decisões humanas. O mandril, por exemplo, destaca-se pela sua coloração vibrante, a mais intensa entre os mamíferos.

Essa exuberância, que sinaliza estatuto social e saúde, tornou-se uma maldição. Na África Ocidental, a sua carne é uma iguaria, alimentando um mercado ilegal em expansão. Como vivem em grupos numerosos, uma única caçada pode dizimar uma grande parte da população. Como se isso, por si só, não bastasse, o abate florestal e a expansão agrícola reduzem drasticamente o seu habitat.

No extremo norte, são os ursos polares que lutam para sobreviver à medida que o gelo marinho, essencial às caçadas, desaparece a um ritmo cada vez mais acelerado. Sem acesso ao gelo do Ártico, a espécie chega a perder cerca de sete quilos de gordura, em apenas uma semana, tornando ainda mais penosa a sua subsistência.

Em Madagáscar, os lémures sobrevivem num habitat fragmentado com apenas 10% das florestas originais intactas. Essencial para a polinização, a espécie é peça-chave no equilíbrio ecológico. Ainda assim, a sua recuperação é complexa, mesmo em cativeiro, devido à limitada diversidade genética.

Urso-panda é um sucesso relativo da conservação. Após décadas de esforços para a sua recuperação, passou de espécie em perigo para vulnerável. Foto: Tim Flach
Urso-panda é um sucesso relativo da conservação. Após décadas de esforços para a sua recuperação, passou de espécie em perigo para vulnerável. Foto: Tim Flach

Os anfíbios, por sua vez, enfrentam uma ameaça microscópica com efeitos globais. O fungo quítridio, fortalecido pelas alterações climáticas, está a devastar populações em todo o mundo. A doença que provoca — a quitridiomicose — já levou à extinção de cerca de 120 espécies, ameaçando um terço dos anfíbios existentes.

E depois há o olm, criatura subterrânea, habitante de grutas na Europa de Leste. Sobreviveu à extinção dos dinossauros, há 66 milhões de anos, mas, pela primeira vez na sua longa história, está em perigo. Dependente de águas limpas, vê o seu ambiente comprometido pela poluição e pela conversão das florestas em terrenos agrícolas.

Um percurso que atravessa fronteiras

“Emoções em Perigo” chega agora a Portugal após ter passado por Espanha, onde atraiu mais de 306 mil visitantes. A iniciativa, promovida pela Afundación, Obra Social ABANCA, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, marca a estreia nacional de um projeto que tem vindo a crescer em escala e impacto.

Considerada uma das aves de rapina mais raras do mundo, restam poucas centenas de casais de águas filipinas na natureza. As estimativas variam entre 400 e 700 indivíduos maduros. Foto: Tim Flach
Considerada uma das aves de rapina mais raras do mundo, restam poucas centenas de casais de águas filipinas na natureza. As estimativas variam entre 400 e 700 indivíduos maduros. Foto: Tim Flach

Mas o percurso da exposição não se mede apenas em números ou em geografias. Mede-se, acima de tudo, pela capacidade de provocar uma reação. Flach não esconde a ambição de querer reconectar as pessoas com a natureza e desfazer a distância que criámos entre nós e o resto do mundo vivo.

O apelo que fica depois da imagem

No final do percurso, permanece uma pergunta incómoda: o que fazemos com aquilo que sentimos? A empatia, por si só, não salva espécies. Mas é o primeiro passo para mudar comportamentos individuais e coletivos.

Tim Flach defende que o futuro depende da nossa capacidade de integrar a sustentabilidade em todos os aspetos da vida. A exposição não oferece, portanto, soluções nem respostas fechadas. Em vez disso, entrega-nos a consciência.

Num tempo em que a perda de biodiversidade ocorre longe dos nossos olhos, estas imagens trazem o problema ao centro da cidade. Não há distância possível quando um olhar nos interpela diretamente.

No último século, a população mundial de tigres diminuiu 97% e três das suas nove subespécies extinguiram-se. Foto: Tim Flach
No último século, a população mundial de tigres diminuiu 97% e três das suas nove subespécies extinguiram-se. Foto: Tim Flach

O desaparecimento destas espécies não é uma abstração, relembra-nos esta exposição. É um processo em curso. E, como todos os processos urgentes, exige mais do que contemplação.

Referência do artigo

Afundación e ABANCA inauguran en Lisboa a exposición «Emocións en perigo, fotografías de Tim Flach». Afundación – Obra Social ABANCA

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