Do colapso à abundância: há uma década que não havia tanta sardinha no mar português

Com os Santos Populares à porta, a notícia não podia ser mais oportuna. Graças ao esforço e persistência dos pescadores, a espécie regressou ao mar e ao prato dos portugueses

O stock da sardinha quadruplicou com um plano de gestão sustentável que pescadores portugueses e espanhóis cumpriram à risca. Foto: Hans/Pixabay
O stock da sardinha quadruplicou com um plano de gestão sustentável que pescadores portugueses e espanhóis cumpriram à risca. Foto: Hans/Pixabay

Houve um tempo em que os portos portugueses temeram o fim do peixe mais emblemático da nossa costa. Há uma década, os barcos regressavam a terra com redes vazias e as traineiras enfrentavam um deserto marinho que ameaçava o prato preferido dos verões portugueses e, em especial, dos arraiais dos Santos Populares.

O futuro parecia sombrio quando, em 2014, a certificação de sustentabilidade do Marine Stewardship Council (MSC) foi suspensa devido ao declínio drástico dos recursos. A realidade, hoje, é completamente distinta.

A costa da Península Ibérica regista atualmente uma abundância de sardinha que superou as melhores expectativas tanto de pescadores portugueses como de espanhóis.

Esta reviravolta histórica consta do relatório “Fishing for the Future”, divulgado pelo Marine Stewardship Council. Os dados revelam que a biomassa adulta deste recurso quadruplicou desde 2015. A impressionante recuperação resulta de uma estratégia luso-espanhola que aliou a biologia marinha à resiliência das comunidades piscatórias.

Uma travessia nos anos de sobrevivência

Para compreender estes resultados, importa recuar ao período crítico de 2017. Nesse ano, a comunidade científica internacional recomendou a paragem total da atividade pesqueira para evitar o colapso da espécie. A perspetiva de encerramento sobressaltou desde pescadores até armadores e operários das indústrias conserveiras.

A frota de cerco iniciou então uma fase difícil de sobrevivência económica. Em vez de ignorar os alertas, o setor optou por assumir sacrifícios severos para salvaguardar o futuro do mar.

Durante quase uma década, as comunidades piscatórias aceitaram amarrar as embarcações ao cais em paragens biológicas prolongadas. O controlo preventivo fixou limites anuais de captura muito restritos, exigindo uma disciplina coletiva sem precedentes na história da pesca ibérica.

A aliança ibérica guiada pela ciência

A inversão da tendência negativa assentou num plano de gestão partilhado entre Portugal e Espanha. Os dois países uniram esforços para implementar regras comuns com base em dados biológicos rigorosos.

Os pescadores ibéricos atravessaram períodos prolongados de paragem de atividade que comprometeram a sua subsistência. Foto: Lopo Pizarro, trabalho do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
Os pescadores ibéricos atravessaram períodos prolongados de paragem de atividade que comprometeram a sua subsistência. Foto: Lopo Pizarro, trabalho do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

A estratégia integrou períodos de defeso para proteger a reprodução e um sistema flexível que ajustou as quotas conforme a evolução real do recurso no oceano. Esta proteção humana coincidiu com vários anos de recrutamento natural favorável, expressão que designa a sobrevivência dos peixes jovens até à idade de reprodução.

O empenho foi recompensado com a atribuição do selo azul de pesca sustentável a mais de 300 embarcações que operam desde o Golfo da Biscaia até ao Estreito de Gibraltar.

A sardinha deixou finalmente de ser um símbolo de escassez para se tornar um exemplo de convivência harmoniosa entre a atividade económica e o meio ambiente.

O pessimismo nacional perante os dados reais

O sucesso deste processo contraria o ceticismo generalizado dos consumidores. O inquérito incluído no relatório indica que quatro em cada dez portugueses acreditam que um stock esgotado nunca mais consegue recuperar os seus níveis saudáveis.

Apenas um terço dos entrevistados sabe que as populações marinhas possuem capacidade de regeneração se houver uma intervenção adequada.

Apesar desta visão pessimista, o estudo confirma que os portugueses revelam uma elevada sensibilidade para os temas marítimos. Cerca de 85% dos inquiridos reconhecem que a água cobre a maior parte da superfície do planeta e a esmagadora maioria sabe que a pressão da pesca aumentou significativamente no último meio século.

Após vários anos de escassez, podemos voltar a comer sardinhas neste verão, sem peso na consciência. Foto: Mario Cvitkovic/Pixabay
Após vários anos de escassez, podemos voltar a comer sardinhas neste verão, sem peso na consciência. Foto: Mario Cvitkovic/Pixabay

Subsistem, no entanto, algumas lacunas de conhecimento geral, visto que mais de metade desconhece a origem geográfica do atum consumido globalmente e uma boa parte ignora a profundidade real das fossas oceânicas. As alterações climáticas e a poluição continuam a figurar no topo das preocupações da população portuguesa.

A capacidade de regeneração global

A recuperação alcançada na costa ibérica não é um caso isolado e reforça as mensagens de esperança partilhadas pela organização ambiental. O relatório detalha outros sucessos internacionais de grande relevância, como o caso do atum-rabilho no Atlântico Oriental.

À beira do colapso no final do século passado, a espécie atingiu recentemente os valores populacionais mais elevados desde os anos de 1960 graças a controlos muito rígidos.

O percurso da pescada segue a mesma direção favorável. Após um declínio acentuado na década de 1990, os stocks estabilizaram em patamares seguros devido à alteração técnica do tamanho das malhas das redes de pesca.

No prefácio do relatório, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura salienta que estes exemplos demonstram a eficácia da união entre o conhecimento científico e o compromisso político. O grande desafio nestes tempos de incerteza consiste em expandir estas boas práticas para assegurar oceanos saudáveis para as próximas gerações.

Referência do artigo

FISHING FOR THE FUTURE - How sustainable fishing helps secure stocks and build long-term resilience. Marine Stewardship Council

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