Do colapso à abundância: há uma década que não havia tanta sardinha no mar português
Com os Santos Populares à porta, a notícia não podia ser mais oportuna. Graças ao esforço e persistência dos pescadores, a espécie regressou ao mar e ao prato dos portugueses

Houve um tempo em que os portos portugueses temeram o fim do peixe mais emblemático da nossa costa. Há uma década, os barcos regressavam a terra com redes vazias e as traineiras enfrentavam um deserto marinho que ameaçava o prato preferido dos verões portugueses e, em especial, dos arraiais dos Santos Populares.
O futuro parecia sombrio quando, em 2014, a certificação de sustentabilidade do Marine Stewardship Council (MSC) foi suspensa devido ao declínio drástico dos recursos. A realidade, hoje, é completamente distinta.
Esta reviravolta histórica consta do relatório “Fishing for the Future”, divulgado pelo Marine Stewardship Council. Os dados revelam que a biomassa adulta deste recurso quadruplicou desde 2015. A impressionante recuperação resulta de uma estratégia luso-espanhola que aliou a biologia marinha à resiliência das comunidades piscatórias.
Uma travessia nos anos de sobrevivência
Para compreender estes resultados, importa recuar ao período crítico de 2017. Nesse ano, a comunidade científica internacional recomendou a paragem total da atividade pesqueira para evitar o colapso da espécie. A perspetiva de encerramento sobressaltou desde pescadores até armadores e operários das indústrias conserveiras.
Durante quase uma década, as comunidades piscatórias aceitaram amarrar as embarcações ao cais em paragens biológicas prolongadas. O controlo preventivo fixou limites anuais de captura muito restritos, exigindo uma disciplina coletiva sem precedentes na história da pesca ibérica.
A aliança ibérica guiada pela ciência
A inversão da tendência negativa assentou num plano de gestão partilhado entre Portugal e Espanha. Os dois países uniram esforços para implementar regras comuns com base em dados biológicos rigorosos.

A estratégia integrou períodos de defeso para proteger a reprodução e um sistema flexível que ajustou as quotas conforme a evolução real do recurso no oceano. Esta proteção humana coincidiu com vários anos de recrutamento natural favorável, expressão que designa a sobrevivência dos peixes jovens até à idade de reprodução.
A sardinha deixou finalmente de ser um símbolo de escassez para se tornar um exemplo de convivência harmoniosa entre a atividade económica e o meio ambiente.
O pessimismo nacional perante os dados reais
O sucesso deste processo contraria o ceticismo generalizado dos consumidores. O inquérito incluído no relatório indica que quatro em cada dez portugueses acreditam que um stock esgotado nunca mais consegue recuperar os seus níveis saudáveis.
Apesar desta visão pessimista, o estudo confirma que os portugueses revelam uma elevada sensibilidade para os temas marítimos. Cerca de 85% dos inquiridos reconhecem que a água cobre a maior parte da superfície do planeta e a esmagadora maioria sabe que a pressão da pesca aumentou significativamente no último meio século.

Subsistem, no entanto, algumas lacunas de conhecimento geral, visto que mais de metade desconhece a origem geográfica do atum consumido globalmente e uma boa parte ignora a profundidade real das fossas oceânicas. As alterações climáticas e a poluição continuam a figurar no topo das preocupações da população portuguesa.
A capacidade de regeneração global
A recuperação alcançada na costa ibérica não é um caso isolado e reforça as mensagens de esperança partilhadas pela organização ambiental. O relatório detalha outros sucessos internacionais de grande relevância, como o caso do atum-rabilho no Atlântico Oriental.
O percurso da pescada segue a mesma direção favorável. Após um declínio acentuado na década de 1990, os stocks estabilizaram em patamares seguros devido à alteração técnica do tamanho das malhas das redes de pesca.
No prefácio do relatório, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura salienta que estes exemplos demonstram a eficácia da união entre o conhecimento científico e o compromisso político. O grande desafio nestes tempos de incerteza consiste em expandir estas boas práticas para assegurar oceanos saudáveis para as próximas gerações.
Referência do artigo
FISHING FOR THE FUTURE - How sustainable fishing helps secure stocks and build long-term resilience. Marine Stewardship Council
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