Depois do acordo UE-Mercosul, a Europa estreita laços comerciais com a Índia. Acordo comercial foi assinado em Nova Deli

A União Europeia e a Índia concluíram esta semana as negociações de um acordo de comércio livre considerado “histórico e ambicioso”. O setor automóvel é o que mais ganha, mas os agentes económicos do vinho e do azeite também estão otimistas.

Com o novo acordo UE-Índia, o azeite deixará de estar sujeito a qualquer tarifa. E, atualmente, é taxado até 45%. Portugal pode sair beneficiado.
Com o novo acordo UE-Índia, o azeite deixará de estar sujeito a qualquer tarifa. E, atualmente, é taxado até 45%. Portugal pode sair beneficiado.

Volvidos cerca de 20 anos de aproximações e recuos entre a União Europeia (UE) e a Índia, o dia 27 de janeiro de 2026 marcou a assinatura de um acordo de livre comércio entre as duas geografias, que agregam mais de dois mil milhões de pessoas.

Em 2024, as exportações da UE para a Índia totalizaram cerca de 75 mil milhões de euros, sendo 48,8 mil milhões em bens e mais 26 mil milhões em serviços. A UE refere que o comércio da União com a Índia é responsável por cerca de 800 mil empregos.

A indústria automóvel e de peças para automóveis é a grande beneficiada com este acordo de livre comércio, visto que a UE vai poder exportar anualmente 250 mil veículos com tarifas reduzidas (passando progressivamente de 110% para apenas 10% de taxa aduaneira).

Ganhos no vinho, fruta e azeite

E, nesta quota de exportação, já estão incluídos 160 mil automóveis por ano com motor a combustão interna e 90 mil elétricos.

No setor das peças sobressalentes para a indústria automóvel, haverá, aliás, uma eliminação total das tarifas num prazo de cinco a dez anos.

O setor agroalimentar europeu também vê ganhos com este acordo com a Índia.

Se é certo que os setores agrícolas mais sensíveis - carne de bovino, frango, arroz e açúcar - permanecem excluídos desta liberalização do comércio, os vinhos, bebidas espirituosas, cervejas, azeite, produtos de confeitaria e outros vão ter “acesso preferencial ao mercado indiano em rápido crescimento”. Isso mesmo referiu Christophe Hansen, comissário europeu para a Agricultura e Alimentação. Ainda assim, a UE manterá tarifas sobre importações indianas de carne de bovino, açúcar, arroz, frango, leite em pó, mel, bananas, trigo mole, alho e etanol.

As tarifas sobre o vinho exportado da UE vão descer dos atuais 150% para 20% ou 30%, sendo que a França, Itália e Espanha serão os países mais beneficiados.

A secretária-geral da Fenazeites refere que o acordo comercial UE/Índia “pode proporcionar a abertura de um novo mercado” para o azeite português.
A secretária-geral da Fenazeites refere que o acordo comercial UE/Índia “pode proporcionar a abertura de um novo mercado” para o azeite português.

Portugal pode, ainda assim, ter aqui uma janela de oportunidade, como referiu à agência Lusa o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, que considera que o acordo comercial UE/Índia “é bastante positivo” porque vai tornar os vinhos portugueses mais competitivos naquele mercado.

Portugal exportou em 2024 cerca de 964 milhões de euros em vinho, mas o mercado indiano apenas representa 300 mil euros, visto ter um consumo muito reduzido de bebidas alcoólicas, por razões religiosas.

Por sua vez, as taxas sobre as bebidas espirituosas vão descer para 40%, face às taxas atualmente praticadas e que poderiam atingir 150% de imposto aduaneiro.

Azeite isento de tarifas

Na cerveja, as tarifas serão reduzidas de 110% para 50%.

O presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, considera que o acordo comercial UE/Índia “é bastante positivo”, porque vai tornar os vinhos portugueses mais competitivos naquele mercado.
O presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, considera que o acordo comercial UE/Índia “é bastante positivo”, porque vai tornar os vinhos portugueses mais competitivos naquele mercado.

Já o azeite deixará de estar sujeito a qualquer tarifa. E, atualmente, é taxado até 45%. Itália, Espanha e Grécia são os principais exportadores de azeite para a Índia, mas Portugal pode marcar pontos neste setor.

Isso mesmo foi assumido pela secretária-geral da Fenazeites, Patrícia Falcão, que, em declarações à agência Lusa, referindo que o acordo comercial UE/Índia “pode proporcionar a abertura de um novo mercado” para o azeite português, numa altura em que se espera um aumento da produção nacional. “A produção de azeite tem crescido muito em Portugal e é expectável que continue a aumentar devido às novas plantações em território nacional”, afirmou a secretária-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Olivicultores.

Apesar de a Índia não ter um historial de consumo de azeite, nem ser um mercado alvo dos produtores nacionais, pode vir a tornar-se num destino “interessante” para a exportação do azeite português. Isto porque, segundo Patrícia Falcão, há na Índia “uma classe alta com poder de compra”.

Um dado parece certo. No dia 27 de janeiro de 2026 a UE e a Índia fizeram “história, aprofundando a parceria entre as maiores democracias do mundo”.

“Criámos uma zona de comércio livre de dois mil milhões de pessoas, com vantagens económicas para ambas as partes”, afirmou em Nova Deli a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.

Com a assinatura deste acordo comercial com a Índia, “enviámos um sinal ao mundo de que a cooperação assente em regras continua a produzir grandes resultados”, diz a responsável máxima da Comissão.

E, “acima de tudo, estamos apenas no início. Vamos tirar partido desta iniciativa bem sucedida e desenvolver a nossa relação para sermos ainda mais fortes”.