Como Portugal atravessou 20 anos de verões cada vez mais quentes

O país enfrenta novamente temperaturas extremas num verão que prolonga uma evolução iniciada com o episódio histórico de 2003.

Em 2003, a Amareleja atingiu os históricos 47,3 °C, um recorde nacional que ainda não foi batido. Foto: Por Hugo Cadavez de Maia, CC BY 2.0, Wikimedia Commons
Em 2003, a Amareleja atingiu os históricos 47,3 °C, um recorde nacional que ainda não foi batido. Foto: Por Hugo Cadavez de Maia, CC BY 2.0, Wikimedia Commons

Quando julho arrancou, Portugal já acumulava 59 dias sob o efeito de ondas de calor desde o início de 2026. A estimativa do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) já impressiona, mas deverá ser rapidamente ultrapassada.

A onda de calor que se iniciou a 2 de julho deverá prolongar-se até ao início da próxima semana, num episódio marcado por uma cúpula de calor em grande parte do território continental e com vários distritos, como Coimbra, Santarém ou Portalegre, em que as temperaturas poderão ultrapassar os 40 graus.

A onda histórica

Falar de calor extremo em Portugal obriga, inevitavelmente, a regressar ao ano de 2003. Entre 29 de julho e 14 de agosto desse ano ocorreu a mais longa e severa onda de calor registada no país e também a maior alguma vez observada na Europa.

Foi o verão em que a Amareleja, no concelho de Moura, fixou um recorde nacional ainda hoje imbatível: 47,3 graus.

Pelo Alentejo profundo, Beja chegou aos 45,4 graus e Elvas aos 44,9. No litoral, Lisboa registou 42 graus e Porto 39 graus. Em vários pontos do país, o calor se arrastou por 14 dias seguidos. No balanço final, calcularam-se cerca de 2700 mortes em excesso devido ao stress térmico.

De exceção à tendência

Duas décadas depois, a onda de calor de 2003 continua a ser um episódio excecional. O que era extraordinário passou, porém, a repetir-se com uma frequência que os dados do IPMA documentam cada vez mais claramente. Talvez por isso tantos portugueses sintam hoje que os verões já não são os mesmos da infância.

A sequência de dias sob o efeito de ondas de calor dos anos mais recentes mostra como o extremo se tornou o novo padrão dos verões em Portugal. Foto do rio Tua: Adobe Stock
A sequência de dias sob o efeito de ondas de calor dos anos mais recentes mostra como o extremo se tornou o novo padrão dos verões em Portugal. Foto do rio Tua: Adobe Stock

Os números do Instituto Português do Mar e da Atmosfera ajudam a perceber essa evolução. Em 2022, Portugal registou 90 dias em onda de calor, o valor mais elevado dos últimos anos. Em 2023 foram 80 dias e, em 2024, 74. Mais do que anos isoladamente quentes, esta sequência revela que o calor extremo se tornou uma presença mais regular nos verões portugueses.

O verão mais quente

O caso de 2025, contudo, não permite uma comparação direta no que toca ao número de dias. Ao contrário dos anos anteriores, o IPMA não apresentou um valor nacional agregado de dias em onda de calor. A razão é metodológica, mas ajuda a compreender a evolução do fenómeno.

Em vez de um ou dois episódios prolongados que afetassem grande parte do território, registaram-se seis ondas de calor distribuídas entre maio e outubro, com uma expressão muito desigual entre regiões, impossibilitando um valor representativo para todo o território.

O verão de 2025 foi ainda memorável por ter sido o mais quente em Portugal continental desde o início dos registos regulares, em 1931. A temperatura média do ar atingiu os 23,51 graus (mais 1,55 graus do que o valor normal) e a temperatura média das máximas foi de 30,78 graus, um máximo histórico.

O verão de 2025 combinou temperaturas recorde com uma seca extrema, registando apenas um quarto da precipitação normal para a época. Foto de Figueiró dos Vinhos: Adobe Stock
O verão de 2025 combinou temperaturas recorde com uma seca extrema, registando apenas um quarto da precipitação normal para a época. Foto de Figueiró dos Vinhos: Adobe Stock

Três ondas de calor prolongadas marcaram ainda os meses de junho, julho e agosto. Além de muito quente, o ano que passou teve também o verão mais seco desde 1931, com a chuva a atingir apenas 24% do valor normal.

Europa em mudança

A evolução observada em Portugal acompanha uma tendência mais ampla identificada nos relatórios europeus. Dados da Organização Meteorológica Mundial indicam que o número de ondas de calor a ocorrer em simultâneo no hemisfério norte é atualmente seis vezes superior ao observado em 1980.

Ao mesmo tempo, aumenta o número de dias com forte stress térmico na Europa, prolongam-se os períodos de seca e cresce o risco de incêndios florestais, com impactos profundos na saúde pública, na agricultura e nos ecossistemas.

Os especialistas advertem que esta tendência deverá se agravar nas próximas décadas. Mesmo que a intensidade varie de ano para ano, o aquecimento global aumenta a probabilidade de ocorrência de temperaturas extremas e torna mais frequentes episódios que, há poucos anos, seriam considerados excecionais.

O novo normal

Quando a atual vaga de calor terminar, os números de 2026 serão inevitavelmente revistos. É muito provável que ultrapassem os valores registados até agora, mas essa já não é a questão central. O que os dados do IPMA mostram é que a história começou muito antes deste verão.

Em 2003, Portugal viveu uma onda de calor que parecia pertencer ao domínio do extraordinário. Duas décadas depois, as ondas de calor deixaram de ser exceção. Passaram a marcar, verão após verão, a história recente do clima português.

Referência da notícia

IPMA. Boletim Climatológico Anual 2003.
IPMA. Persistência de tempo muito quente em julho 2022.
IPMA. 2023 - Agosto 5º mais quente em Portugal.
IPMA. Boletim Climatológico Anual 2024.
IPMA. Boletim Climatológico Anual 2025.
IPMA. Resumo do Verão de 2025.
World Meteorological Organization. European State of the Climate 2024.