Cimenteiras portuguesas vão enterrar poluentes no fundo do mar
As seis fábricas de cimento em Portugal planeiam construir uma rede de mais de 600 km de gasodutos para armazenar CO2 em poços subaquáticos ao largo da Figueira da Foz.

A indústria cimenteira está numa corrida contra o tempo. As licenças de emissão de carbono terminam até 2040, não sendo depois possível continuar a emitir. O setor está por isso à procura de soluções de captura e armazenamento de CO2 que permitam atingir as metas europeias de descarbonização.
Mas onde armazenar toda a poluição que, a nível global, é responsável por 7% a 8% das emissões de gases com efeito de estufa? No fundo do mar é a resposta da ATIC – Associação Portuguesa de Cimento.
O “PT Carbon Link” é o projeto que une as seis fábricas de cimento em Portugal na construção de uma rede de transporte e armazenamento de carbono na Bacia Lusitânica, no centro do país.
Após os estudos prospetivos conduzidos pela Universidade de Évora, a ATIC concluiu que a bacia sedimentar localizada na margem ocidental da Placa Ibérica, reunia as condições adequadas, como baixa atividade sísmica e grande capacidade de armazenamento.
Seis fábricas ligadas por gasodutos até ao Atlântico
Prevendo investir 2,2 mil milhões de euros nas próximas duas décadas, as cimenteiras planeiam construir uma rede de gasodutos com 680 quilómetros a ligar as fábricas de Souselas, Alhandra e Loulé, da Cimpor, e ainda da Maceira, Pataias e Outão, da Secil.

A pipeline será usada não só para capturar o dióxido de carbono como transportá-lo até ao Atlântico ao largo da costa portuguesa. Espera-se que a capacidade mínima de armazenamento da infraestrutura atinja os 90 milhões de toneladas de CO2, podendo ir até às 300 milhões de toneladas.
O ponto de partida em 2030 na Figueira da Foz
A previsão da ATIC é arrancar com um piloto a 22 km do largo da Figueira da Foz em 2030. A etapa seguinte envolverá a perfuração de nove poços para injetar CO2 e a construção de mais de 600 km de gasodutos até 2035. A última fase expandirá, por fim, o projeto com mais 70 km de tubagens e seis poços subaquáticos.
A solução surge para o setor como a melhor alternativa para uma indústria cujo 60% das emissões são inerentes ao processo de produção, não podendo, como tal, ser evitadas ou reduzidas.
O pioneirismo da Noruega
O armazenamento de CO2 no fundo do mar já é uma solução usada em vários projetos, sobretudo na Noruega, que se tem afirmado como um dos países mais avançados nas tecnologias de captura de carbono.

O projeto Sleipner, por exemplo, separa o CO2 do gás natural da petrolífera Equinor desde 1996, enterrando-o a mais de 800 metros no fundo do mar. O Brevik CCS faz o mesmo com cerca de 400 mil toneladas de CO₂ por ano da cimenteira Heildelberg.
Oficialmente inaugurada em setembro de 2024, permite que as emissões industriais de toda a Europa possam ser transportadas por navio para a Noruega e depois injetadas num reservatório subaquático, a 2600 metros abaixo do Mar do Norte. O avanço é considerado crucial para descarbonizar setores difíceis de eletrificar, como o cimento, o aço e os resíduos urbanos.

Portugal e todos os estados-membros da União Europeia traçaram como meta descarbonizar totalmente a economia até 2050. A indústria cimenteira, em particular, terá de eliminar todas as emissões de CO2 até 2039.
Referência do artigo
PT Carbon Link: Implementação da Captura,Transporte e Armazenamento de Carbono (CCS). ATIC – Associação Portuguesa de Cimento