Cientistas confirmam a nova realidade climática da Europa: diga adeus aos verões sem ondas de calor

As ondas de calor têm um impacto forte na economia dos países atingidos, basta pensar nos prejuízos que há na agricultura, mas sobretudo nas pessoas, incluindo um aumento da morbilidade e da mortalidade.

Ondas de calor severas têm atingido a Europa desde o início do século.
Ondas de calor severas têm atingido a Europa desde o início do século.

A Europa tem de se ir preparando cada vez mais para as ondas de calor severas, pois é o continente que mais aquece no planeta, com um ritmo de aquecimento duas vezes superior à média global.

Ondas de calor na Europa

Apenas algumas semanas após uma onda de calor severa que bateu todos os recordes de maio, a Europa foi afetada por outra onda de calor muito intensa e mais extensa, batendo recordes de junho e anuais.

Milhões de pessoas na Europa ainda vivem atualmente sob calor extremo.

Esta onda de calor, que atingiu em particular a Europa Central e Norte está a estender-se atualmente para leste. Prevê-se que uma onda de calor intensa atinja também a Península Ibérica e as regiões da Europa mais a sul.

Esta onda de calor na Europa é devido à existência de uma região anticiclónica de bloqueio, estacionária, o que implica que o ar permaneça na mesma região dias consecutivos e com os movimentos verticais descendentes associados aos anticiclones estes tendem a comprimir o ar aquecendo-o ao atingir o solo. Algumas regiões serão ainda mais afetadas se ficarem sob a ação de massas de ar que vêm do norte de África, devido à circulação dos ventos.

A onda de calor de junho que atingiu a Europa é particularmente notável dado que junho não é historicamente o mês mais quente na Europa Ocidental. Em França, Alemanha, Itália, Espanha e sul de Inglaterra, as temperaturas alcançaram 5 a 12 °C acima das médias.

Foram alcançados novos recordes absolutos de temperaturas máximas em estações meteorológicas de alguns países, tais como, Alemanha (41,7°C), República Tcheca (41,1°C), Polónia (40,5°C) e Dinamarca (37°C).

Com o calor excessivo, as autoridades de saúde recomendam que o corpo se mantenha sempre hidratado
Com o calor excessivo, as autoridades de saúde recomendam que o corpo se mantenha sempre hidratado

Por exemplo, em França foram batidos recordes locais e regionais, com temperaturas a ultrapassarem os 40 °C e no Reino Unido, na Suiça e na Hungria algumas áreas registaram temperaturas recordes para junho.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 1.300 mortes em excesso foram registadas na Europa desde o dia 21 de junho.

No entanto esta onda de calor de junho de 2026 não foi a onda de calor mais grave. A de 2003 foi a que provocou mais mortes, num total cerca de 70 000 mortos na Europa. Particularmente, a Itália, com 20 000, França, com cerca de 15 000, Espanha, com cerca de 12 mil e a Alemanha, com mais de 9 mil, foram os países com maior número de vítimas humanas.

No futuro teremos na Europa ondas de calor mais frequentes, intensas e duradouras.

De acordo com um estudo de atribuição publicado pela World Weather Attribution, as emissões de combustíveis fósseis agravaram rapidamente as ondas de calor na Europa em apenas algumas décadas.

As ondas de calor que têm vindo a afetar a Europa teriam sido impossíveis de ocorrerem sem os efeitos das alterações climáticas, ou seja, do aquecimento da atmosfera.

Este será um dos maiores riscos meteorológicos para a Europa, seguindo-se as cheias

Impulsionado pelo aquecimento global, o fenómeno da onda de calor intensa na Europa, que ocorria em anos muito espaçados, agora acontece praticamente todos os anos, de acordo com estudos recentes.

Das 52 ondas de calor registadas em França desde 1947, dois terços ocorreram desde o início do século XXI.

Segundo John Kennedy, chefe de informação climática da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ondas de calor como esta são o que se espera ver num clima em mudança.

Atualmente os 40 oC não são exclusivos da Europa mediterrânica, mas foram trazidos para Paris, para o sul de Inglaterra, para o norte da Alemanha e para outros países europeus de clima não mediterrânico.

Nestas primeiras décadas do século XXI, as ondas de calor têm sido mais intensas, mais frequentes, de maior duração e iniciam-se cada vez mais cedo no ano, o que interfere de forma grave no calendário escolar.

O calendário climático está a mudar e isso interfere em muitas atividades, não apenas nas explorações agrícolas.

O diretor-geral da OMS descreveu o stress térmico como um "assassino silencioso" e solicitou aos governos europeus para implementarem planos de ação para a saúde relacionados com o calor.

De 18 a 30 junho 2026 - Semana histórica de stress térmico na Europa - Os dados mostram que 45% das 854 cidades analisadas bateram recordes históricos de stress térmico (Temperatura do Bolbo Húmido - medida do stress térmico ambiental sobre o corpo humano) (Fonte: World Weather Attribution)
De 18 a 30 junho 2026 - Semana histórica de stress térmico na Europa - Os dados mostram que 45% das 854 cidades analisadas bateram recordes históricos de stress térmico (Temperatura do Bolbo Húmido - medida do stress térmico ambiental sobre o corpo humano) (Fonte: World Weather Attribution)

Nas últimas ondas de calor severas, a Europa evidenciou a vulnerabilidade e a exposição de muitos dos seus cidadãos a condições de calor desconhecidas. Pouco habituados a este excesso de calor, com poucas habitações, serviços e espaços públicos com ar condicionado, como os hospitais, maior parte dos cidadãos da Europa encontram-se indefesos perante o aumento térmico.

Da criação de refúgios climáticos nos tecidos urbanos à implementação de mais espaços verdes

A Europa está particularmente exposta, pois apenas cerca de 20% das casas europeias têm ar condicionado e grande parte do parque habitacional do continente foi construído para reter o calor em vez de o dissipar.

Atendendo que as ondas de calor serão um fenómeno habitual de todos os verões na Europa, é urgente que sejam tomadas medidas de adaptação a fim de serem mitigados os efeitos do calor extremo, principalmente nos países do centro e norte da Europa, menos aclimatados ao calor, do que os do sul.

Todos os hospitais da Europa deverão dispor de climatização frente ao calor. As cidades devem criar redes de refúgios climáticos e as cidades mediterrânicas devem ser revertidas, com mais parques, jardins, jardins, etc. Além disso, os telhados e os terraços devem ser mais frescos, refletores e verdes, para diminuir a absorção da radiação solar durante o dia.

As ruas das cidades deverão ficar sombrias com toldos nos dias de verão e os solos duros devem ser permeabilizados sem bloquear totalmente a sua capacidade de respirar ou drenar água. Ao evaporar, a superfície refresca-se pela perda de calor latente ou de evaporação.

Um estudo da Allianz estima que, se episódios de calor intenso se tornarem mais frequentes, as perdas acumuladas para a economia alemã entre 2026 e 2030 poderão chegar a US$ 131 bilhões.

Referência da notícia

Martin Vide, J.. (2026). Ya no habrá veranos sin olas de calor en gran parte de Europa.
World Weather Attribution. (2026). Fossil fuel emissions have rapidly worsened European heatwaves in just a few decades.