O índice de calor vai além dos termómetros: a humidade multiplica o risco durante as ondas de calor
O clima tem impactos diretos ou indiretos, que podem ser graves, nos seres humanos, na economia de um país e no bem-estar das populações.

O calor e o frio extremo podem ter consequências diretas na saúde, e, em condições severas provocarem mesmo a morte nas pessoas mais vulneráveis.
Como é sentido o calor no nosso corpo - sensação térmica
Existem diversos estudos científicos que já avaliaram as perdas de saúde atribuíveis às alterações climáticas antropogénicas, que têm provocado, entre outros impactos, um aumento de frequência e intensidade das ondas de calor.
É assim fundamental comunicar à população quais as medidas de adaptação a ter em conta, a fim de mitigar o efeito das ondas de calor.
Uma dessas medidas é transmitir o conhecimento sobre as ondas de calor e qual a informação meteorológica que melhor indica o calor sentido pelo corpo humano.
A temperatura do ar dá indicação se o ar está muito quente ou não, mas não nos diz com que facilidade o corpo consegue libertar calor. O principal mecanismo de arrefecimento do corpo é o suor. Quando o suor evapora da pele, dissipa o calor, tal como a água que evapora de um pavimento molhado pode arrefecer a superfície por um curto período.
A humidade altera este processo. Quando o ar já contém muito vapor de água, o suor evapora mais lentamente. A pele pode ficar húmida, mas o corpo não arrefece com a mesma eficiência. É por isso que uma tarde quente e húmida com 32°C pode parecer mais desgastante do que uma tarde seca de 35°C, mesmo que o dia seco tenha uma temperatura do ar mais elevada.
De acordo com a revista National Geographic, o serviço meteorológico dos EUA oferece um exemplo impressionante: quando a temperatura do ar está nos 36°C e a humidade relativa do ar é de 65%, a sensação térmica pode chegar aos 49°C.
Este número não significa que o ar se tenha literalmente tornado 49°C. Significa sim, que o organismo pode reagir como se estivesse exposto a um calor muito mais intenso. O coração trabalha mais para bombear o sangue para a pele e as glândulas sudoríparas tentam constantemente arrefecer o corpo.

À medida que o stress térmico se agrava, as pessoas podem desenvolver desidratação, alterações eletrolíticas, dores de cabeça, cãibras de calor, exaustão pelo calor e, por vezes, até insolação, podendo mesmo provocar a morte. A respiração, a hidratação, a roupa, o nível de atividade e a sombra passam a ser essenciais.
Este índice de calor, que ainda apresentava algumas limitações, foi o ponto de partida para os diferentes índices de calor que alguns serviços meteorológicos passaram a calcular operacionalmente, dependendo da sua localização e das condições meteorológicas.
No entanto, o índice de calor não é a única ferramenta utilizada para compreender o clima quente.
A revista National Geographic dá como exemplo o serviço meteorológico dos EUA que utiliza um conjunto de três ferramentas distintas para avaliar e comunicar o calor extremo: o Índice de Calor, a Temperatura de Bolbo Húmido (temperatura mais baixa que o ar pode atingir através da evaporação) e o Risco de Calor (graduação do risco de calor do 0 ao 4). Em conjunto, estas ferramentas fornecem uma visão mais completa do que apenas a temperatura do ar e oferecem uma melhor métrica para comunicar os riscos do calor ao público
O Risco de Calor é uma ferramenta de previsão que reflete como é invulgar o calor para um local específico, a época do ano, se o calor dura vários dias e se as noites quentes impedem a recuperação do corpo. O calor no início da estação pode ser especialmente arriscado porque as pessoas podem ainda não estar aclimatadas.
Outro fator importante pode ser o vento, que pode ajudar quando se move o ar mais fresco sobre a pele e favorece a evaporação, mas nem sempre é protetor. Em condições muito quentes e secas, o vento forte pode atuar mais como uma rajada de ar quente, aumentando o stress térmico e a desidratação.
Como é calculada a sensação térmica – índice de calor
Não existe uma fórmula fixa para calcular a sensação térmica. Em vez disso, os meteorologistas utilizam diferentes modelos, dependendo das condições meteorológicas, para obter a estimativa mais realista.
Em climas mais frios, o foco muda para a sensação térmica provocada pelo vento, que mostra como o vento pode retirar o calor do corpo e fazer com que o ar pareça mais frio do que realmente é.
Mas não se fica por aí. Um valor mais completo de sensação térmica pode também ter em conta outros elementos, tais como a intensidade da luz solar e até à cobertura de nuvens, além da velocidade do vento e da humidade do ar,
Com o objetivo de se melhorar ainda mais o índice de calor é sugerido por Tarik Benmarhnia, professor de epidemiologia na Universidade da Califórnia, em San Diego, que haja também o contributo de especialistas de diversas áreas, nomeadamente da saúde para serem incorporados dados de saúde do mundo real nestes índices.
É de referir que alguns serviços meteorológicos, designadamente o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), já trabalham com a área da saúde nas situações de ondas de calor.
Kregg Laundon, médico de emergência e chefe do departamento de emergência do Southeast Georgia Health System comunicou à National Geographic como são importantes determinadas ações básicas, principalmente quando se tem de permanecer ao ar livre longe de ares condicionados. Beber muita água, descansar regularmente à sombra, usar roupas adequadas ao clima e evitar o pico de calor do meio-dia até ao final da tarde.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta ainda que o calor pode sobrecarregar o coração e os rins e agravar os riscos para as pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias, de saúde mental e relacionadas com diabetes.
Os idosos, as crianças pequenas e as pessoas com doenças crónicas são os grupos de maior risco durante o calor extremo.
Referência da notícia
Wollerton, Megan.. Why the heat index matters more than just the temperature.