Nova tecnologia criada em Peniche acelera o crescimento das florestas de algas marinhas

Solução desenvolvida em Portugal triplicou a capacidade produtiva vegetal com laboratórios modulares, combatendo a degradação subaquática sem recorrer a mergulhadores para plantar esporos.

Pequenas pedras com esporos de algas são lançadas ao mar para restaurar os fundos marinhos de forma barata. Foto: SeaForester
Pequenas pedras com esporos de algas são lançadas ao mar para restaurar os fundos marinhos de forma barata. Foto: SeaForester

Nas águas frias que banham a costa de Peniche, no distrito de Leiria, há embarcações de pesca que, em vez de redes cheias de peixe, transportam baldes com pequenas pedras salpicadas de verde. Ao serem lançadas borda fora, estas rochas carregam consigo a promessa de reerguer um mundo subaquático que está a desaparecer a um ritmo acelerado.

A abordagem é inédita e pertence à SeaForester, uma startup de biologia marinha que escolheu o litoral português para testar uma tecnologia que acelera de forma dramática o restauro de ecossistemas marinhos.

A urgência deste projeto ganha especial importância numa altura em que o ecossistema oceânico enfrenta forte degradação. Através da instalação de viveiros móveis de terceira geração dentro de contentores modulares adaptáveis, a organização conseguiu um feito extraordinário para a biodiversidade marinha.

O tempo necessário para cultivar espécies botânicas marinhas em ambiente controlado encolheu de doze para apenas sete semanas. Esta evolução, reforçada por uma nova unidade operacional instalada no decorrer deste ano, triplicou a capacidade de fornecimento ecológico da empresa.

A revolução prática da gravilha verde

O grande trunfo desta operação reside na eliminação de processos artesanais dispendiosos. No passado, a plantação dependia do trabalho meticuloso de mergulhadores profissionais, que fixavam cada organismo ao fundo do oceano de forma manual, dispendiosa e morosa.

O método atual utiliza gravilha comum recolhida em terra, em que os esporos de algas de grande porte se agarram com facilidade durante as semanas de incubação laboratorial.

Quando as plantas atingem cerca de três centímetros, as pedras são lançadas diretamente dos barcos na área delimitada para a intervenção. O peso natural do cascalho garante que a estrutura se afunde de imediato, estabilizando no leito arenoso ou rochoso.

As florestas de algas marinhas (algas kelp) desempenham um papel crucial na captura e armazenamento de carbono, oferecendo uma poderosa ferramenta natural para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Foto: CIIMAR
As florestas de algas marinhas (algas kelp) desempenham um papel crucial na captura e armazenamento de carbono, oferecendo uma poderosa ferramenta natural para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Foto: CIIMAR

Com o passar do tempo, as raízes expandem-se para lá da pedra original, fixando-se de forma permanente nas rochas naturais do oceano. Este sistema demonstra eficácia mesmo em fundos marinhos degradados, zonas habitualmente dominadas por microalgas invasoras que impediriam a sobrevivência de esporos soltos.

Um modelo concebido para viajar pelo mundo

A eficácia obtida em Peniche abre caminho para uma expansão ambiciosa à escala global. A estrutura baseada em contentores marítimos foi desenhada de raiz para ser facilmente transportável, permitindo a sua replicação em qualquer zona costeira do planeta.

A organização pretende alargar este esforço de replantação a vários pontos críticos da costa portuguesa, tendo já estabelecido parcerias científicas para mapear a vegetação subaquática no continente e nas ilhas.

Testes semelhantes já deram provas em Cascais, mas os novos equipamentos estabilizados em Peniche representam a passagem definitiva para a escala industrial. Cada ciclo produtivo nestes módulos consegue gerar biomassa suficiente para cobrir uma área superior a um hectare de fundos marinhos.

“Este viveiro de terceira geração não é apenas uma melhoria, é um salto quântico. Muda fundamentalmente a nossa capacidade de resposta à crise dos oceanos.”
Pål Bakken, fundador e CEO da SeaForester.

O avanço tecnológico resolve um dos maiores problemas das organizações ambientais, permitindo abandonar os pequenos projetos-piloto para abraçar intervenções de grande escala geográfica.

Os múltiplos benefícios das florestas azuis

A recuperação destas grandes extensões subaquáticas traz vantagens imediatas para a saúde dos oceanos. Estas macroalgas castanhas geram benefícios sistémicos profundos, criando estruturas verticais densas que atingem vários metros de altura.

A costa de Peniche e o arquipélago das Berlengas possuem uma enorme biodiversidade com mais de 50 espécies conhecidas de macroalgas. O projeto de conservação da SeaForester foca-se nas algas castanhas gigantes, que formam densas copas subaquáticas, servindo de abrigo, berçário e zona de alimentação para os peixes.

As florestas de algas são verdadeiras matas subaquáticas, atraindo espécies comercialmente valiosas, como o sargo e o robalo de volta a locais antes desertificados.

Além de impulsionar a biodiversidade local, o crescimento rápido destas plantas capta enormes volumes de dióxido de carbono através da fotossíntese. Este processo reduz a acidificação das águas costeiras e ajuda a reter o excesso de compostos químicos provenientes da atividade humana em terra, contribuindo para a purificação do meio ambiente.

Não menos importante é a sua função contra o avanço do mar, atuando como barreiras naturais para travar a força das correntes marítimas e reduzir o impacto das ondas, protegendo as praias e arribas da erosão costeira acelerada.

Referência da notícia

SeaForester. Restoring The Forgotten Forests In Our Oceans.