Cidades mais justas são as que protegem quem mais sofre com o clima extremo

O programa Cidades + Preparadas coloca as populações vulneráveis no centro da resposta às ondas de calor e aos incêndios, apostando na formação das próprias comunidades.

O risco climático exige novas formas de preparação que protejam a população mais vulnerável. Imagem: Adobe Stock
O risco climático exige novas formas de preparação que protejam a população mais vulnerável. Imagem: Adobe Stock

Uma onda de calor não atinge todos da mesma maneira. Para quem vive numa habitação bem isolada, com acesso à climatização ou possibilidade de afastar-se temporariamente de uma zona de risco, o calor extremo representa um problema.

Para quem vive com baixos rendimentos, numa casa pouco preparada e num bairro densamente urbanizado, o mesmo fenómeno meteorológico pode representar uma ameaça muito maior.

É nesta diferença que assenta o Cidades + Preparadas – Programa de Resiliência Climática Urbana, lançado pela Cruz Vermelha Portuguesa e pela Z Zurich Foundation. A iniciativa, que decorre entre 2026 e 2029, visa preparar mais de 100 mil pessoas para enfrentar ondas de calor e incêndios, começando por Lisboa e Braga.

O foco está nas comunidades urbanas mais vulneráveis, incluindo idosos, pessoas com doenças crónicas, migrantes e famílias com baixos rendimentos. A lógica é pouco habitual nas estratégias de adaptação climática. Ciente de que não basta criar respostas para as comunidades, os promotores comprometem-se a dar-lhes conhecimentos e ferramentas para que possam construir as suas próprias estratégias de proteção e adaptação.

O clima não afeta todos da mesma maneira

Portugal enfrenta riscos climáticos crescentes. As ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas, enquanto os incêndios continuam a representar uma ameaça particularmente grave, sobretudo durante períodos prolongados de calor e seca.

Segundo os dados da Zurich, os episódios de calor extremo terão estado associados a cerca de 2.200 mortes em Portugal em 2022, enquanto os fenómenos climáticos extremos terão provocado perdas económicas superiores a 13,4 mil milhões de euros desde 1980.

Mas a exposição ao risco não depende apenas do fenómeno meteorológico. A vulnerabilidade também está relacionada com as condições sociais e económicas. Quem dispõe de menos recursos tem, em muitos casos, menos capacidade para adaptar a habitação, mudar temporariamente de local, suportar custos acrescidos com a energia ou garantir alternativas quando as temperaturas atingem níveis extremos.
As alterações climáticas afetam as pessoas de forma diferente, dependendo do local onde vivem, dos recursos e do género. Foto: Adobe Stock
As alterações climáticas afetam as pessoas de forma diferente, dependendo do local onde vivem, dos recursos e do género. Foto: Adobe Stock

É essa desigualdade que o programa procura incorporar na preparação climática, reconhecendo que proteger uma cidade implica também perceber quais são as comunidades que têm menos margem para se protegerem sozinhas.

Preparar antes de ser preciso

O programa assenta numa estratégia centrada nas comunidades e organizada em três frentes. A primeira passa por aumentar o conhecimento sobre os riscos e sensibilizar as populações para os efeitos do calor extremo e dos incêndios.

A segunda procura facilitar o acesso a ferramentas concretas de preparação, através de formação, exercícios de simulação, primeiros socorros e planos familiares de emergência.

A terceira pretende reforçar a articulação entre os sistemas locais de alerta, as comunidades e os serviços municipais de proteção civil, para que a resposta possa ser mais rápida e coordenada.

A preparação deixa, assim, de ser encarada apenas como uma responsabilidade das autoridades. Cada família, cada vizinhança e cada comunidade passam a ter um papel na construção da resposta.

A ambição é envolver também uma força significativa de voluntários, capazes de aproximar o programa das pessoas e de ajudar a transformar recomendações gerais em soluções adequadas à realidade de cada território.

Um modelo para preparar outras cidades

Lisboa e Braga são apenas o ponto de partida. A visão de longo prazo do Cidades + Preparadas é testar um modelo de adaptação que possa ser ajustado e replicado noutros territórios, contribuindo para uma cultura nacional de prevenção, preparação e ação antecipada.

Lisboa, juntamente com Braga, é uma das cidades onde o modelo da Cruz Vermelha será testado com o intuito de ser alargado ao resto do país. Foto: Pixabay
Lisboa, juntamente com Braga, é uma das cidades onde o modelo da Cruz Vermelha será testado com o intuito de ser alargado ao resto do país. Foto: Pixabay

Tornar as cidades mais resilientes não significa reforçar apenas as infraestruturas, melhorar os sistemas de alerta ou planear as respostas de emergência. Significa também garantir que aqueles que têm menos recursos não são, justamente, os que ficam mais expostos quando o calor aperta ou o fogo se aproxima.

Referência da notícia

Zurich Portugal. Cruz Vermelha Portuguesa e Zurich Portugal lançam programa para preparar mais de 100 mil pessoas para ondas de calor e incêndios.