Será que a violência doméstica também pode estar relacionada com as alterações climáticas?
À medida que os impactos climáticos se intensificam e eventos como a perda de meios de subsistência, escassez de água, fome, insegurança alimentar e a subnutrição se tornam mais frequentes, são agravadas as vulnerabilidades das pessoas mais impactadas, ou seja, das mulheres.

Para melhor compreender a escala dos impactos climáticos nestas questões e designadamente, também na violência doméstica, têm-se desenvolvido, em particular nos últimos anos, diversos estudos científicos.
Qual o impacto do calor extremo na violência doméstica
Os riscos climáticos são particularmente elevados na África Subsariana, onde as populações estão expostas a uma série de perigos e são altamente vulneráveis aos seus impactos.
O aumento das temperaturas e do nível do mar, a alteração dos padrões de precipitação e a ocorrência de eventos climáticos extremos ameaçam a saúde e a segurança, a segurança alimentar e hídrica e o desenvolvimento socioeconómico na região.
Estas ameaças impactam negativamente nas vidas humanas, ecossistemas e economias, com amplas implicações sociais. Algumas destas implicações podem permanecer invisíveis para o público e para os decisores políticos, como é o caso dos efeitos sobre a violência doméstica, que ocorre frequentemente num contexto doméstico.
O estudo, publicado na revista Global Environmental Change, reuniu investigadores de instituições da Áustria, Nova Zelândia e África do Sul e baseia-se em dados de 61 Inquéritos Demográficos e de Saúde realizados entre 2003 e 2024 junto de mulheres dos 15 aos 49 anos em 31 países da África Subsariana.
Os investigadores examinaram a relação entre condições meteorológicas excecionalmente quentes e relatos de violência, e exploraram como o número e a proporção de mulheres afetadas podem mudar até 2050 sob diferentes cenários climáticos e socioeconómicos.
Os autores do estudo não encontraram evidências claras de um efeito na violência sexual, mas verificaram que são as mulheres das zonas rurais com o ensino primário ou inferior aquelas que são mais afetadas.

Foram utilizados modelos de efeitos fixos, estimando-se inicialmente os efeitos históricos das anomalias de temperatura, das características individuais e do desenvolvimento socioeconómico regional na violência doméstica.
De seguida, os autores do estudo alargaram estas estimativas projetando a prevalência da violência doméstica até 2050 em três cenários climáticos futuros, considerando as alterações no perigo, na exposição e na vulnerabilidade como elementos do risco para as mulheres.
No cenário climático mais otimista, com forte ação climática e melhoria das condições socioeconómicas, o estudo mostra que a proporção de mulheres afetados pela violência doméstica na África Subsariana será 10% inferior em 2060 do que no cenário mais pessimista.
Os resultados do estudo sugerem que, embora a redução das emissões globais seja necessária para limitar o risco futuro de violência doméstica relacionada com a temperatura, as maiores e mais imediatas reduções na violência doméstica provavelmente virão de políticas que reduzam a exposição e a vulnerabilidade, particularmente investimentos na educação feminina, adiamento do casamento e capacitação económica das mulheres.
É de referir que os dados históricos de casos de violência doméstica são sempre inferiores à realidade devido ao estigma e medo associados, mas o estudo também conclui que as mulheres mais jovens e com menor escolaridade são as mais propensas a reportar violência doméstica.
Necessidade de medidas de mitigação das alterações climáticas
Estas descobertas do estudo servem como um claro apelo à ação. Se não se fizer um esforço conjunto para reduzir as desigualdades, reforçar as medidas de adaptação e diminuir as emissões de carbono, será necessário ampliar significativamente os esforços para proteger as mulheres e as raparigas da violência.
Além disso, destaca o papel crucial da educação na geração de benefícios diretos e indiretos, ao melhorar o estatuto das mulheres e ao aumentar a sua resiliência ao stress climático.

O estudo fornece mais evidências do crescente impacto das alterações climáticas nas mulheres e raparigas, enfatizando a necessidade urgente de alargar o financiamento e as ações para enfrentar estes desafios.
Os autores referem ainda a importância de se desenvolverem cada vez mais estudos nesta área para complementar as descobertas a que chegaram sobre a violência doméstica na África Subsariana sob as alterações climáticas e as trajetórias socioeconómicas.
Alertam ainda que os resultados sugerem que condições meteorológicas excecionalmente quentes podem agravar os riscos existentes de violência doméstica, mas a temperatura é apenas uma parte de um quadro muito mais complexo.
Referência da notícia
Peisker, J., Hoffmann, R., et al.. (2026). Intimate partner violence in sub-Saharan Africa under climate change and socioeconomic scenarios.