Roedores e pássaros: porque atacam a horta no início do outono
De um dia para o outro aparecem sementeiras revolvidas, frutos bicados e galerias junto aos canteiros. Não é coincidência. Setembro é o mês em que a horta passa a ser o melhor restaurante da zona.

Passa-se sempre a mesma coisa por esta altura. A horta esteve tranquila o verão inteiro e, de repente, semeia-se um canteiro de couves e no dia seguinte está revirado. A fruta que faltava colher aparece bicada. E junto ao muro surgem buracos que não estavam ali na semana passada.
Não foi a horta que mudou. Foi tudo o resto à volta.
O campo está no seu ponto mais pobre do ano
Setembro é, em boa parte de Portugal, o fim de cinco ou seis meses sem chuva a sério. Os cereais foram colhidos em junho, as ervas secaram, os frutos silvestres acabaram e ainda faltam semanas para as primeiras chuvas darem verde novo ao campo.
Ao mesmo tempo, a horta continua regada, verde e cheia de raízes, folhas e frutos prontos. Num raio de centenas de metros, é muitas vezes o único sítio onde há água e comida ao mesmo tempo.
Depois chegam as primeiras chuvadas e o cenário muda outra vez, mas não para melhor. O solo amolece, e escavar galerias, que em agosto era trabalho para uma terra dura como cimento, passa a ser fácil.
E há visitas que só aparecem agora
Parte dos pássaros que começa a dar problemas no outono simplesmente não andava por cá em agosto.
Um bando de estorninhos pode ter centenas de aves e limpa uma oliveira ou uma figueira numa manhã. Os tordos preferem fruta madura e olival. Nenhum deles andava pela sua horta em julho, e é por isso que o problema parece surgir do nada.
Ler os estragos antes de agir
Antes de montar seja o que for, vale a pena perceber quem está a fazer o quê. Os sinais são bastante distintos. Na tabela abaixo encontra alguns possíveis sinais de presença de roedores e pássaros na sua horta.
Sinal | Provável responsável | O que fazer |
|---|---|---|
Sementeira revolvida e sementes desaparecidas | Pombos e pardais | Tapar até à emergência |
Frutos bicados numa só face | Melros e tordos | Rede de malha fina |
Planta que abana e raiz roída por baixo | Rato-cego | Barreira enterrada |
Galerias com terra remexida à entrada | Ratazana | Fechar abrigos e acessos |
Casca roída na base de árvores jovens | Roedores | Protetor no tronco |
Montículos de terra sem plantas danificadas | Toupeira | Não é preciso fazer nada |
| Principais sinais da presença de roedores e pássaros na sua horta. Fonte: Elaboração própria | ||
Aquela última linha desfaz um mal-entendido antigo. A toupeira não come raízes. Alimenta-se de minhocas, larvas e insetos do solo, e a única coisa que faz de mal é levantar montículos e descalçar alguma planta ao escavar. Se as raízes estão efetivamente roídas, o responsável é outro animal, que muitas vezes aproveita as galerias já feitas.
O que resulta e o que não resulta
Comecemos pelo que não resulta, porque poupa dinheiro e desilusões.
Espantalhos, fitas brilhantes, garrafas penduradas e aparelhos de som funcionam durante três ou quatro dias e deixam de funcionar. As aves habituam-se muito depressa a qualquer coisa que não represente perigo real, e ao fim de uma semana pousam-lhes em cima.

O que resulta é a barreira física. Uma rede de malha fina sobre os canteiros recém-semeados, até as plantas nascerem, resolve praticamente todo o problema das sementeiras. Em fruteiras pequenas, uma rede bem presa em toda a volta vale mais do que qualquer outra medida.
Contra os roedores, o trabalho é sobretudo de arrumação. Retire montes de lenha, palha e entulho encostados às construções, que são abrigo garantido para o inverno. Feche o compostor por baixo com uma rede metálica. Não deixe fruta caída no chão nem sacos de ração ou de sementes ao alcance. E guarde as colheitas de raiz num sítio seco e fechado, porque é isso que atrai a visita à arrecadação.
Em vez de combater, dê trabalho a quem já o faz
Fica para o fim a medida que menos se ouve falar e que mais efeito tem a médio prazo.
Uma coruja-das-torres captura vários roedores por noite, e ainda mais quando está a alimentar crias. Um bando de gralhas ou um peneireiro fazem o mesmo de dia. O problema é que, numa horta ou num terreno limpo, essas aves não têm de onde vigiar.
Um simples poste com uma travessa no topo, com dois ou três metros de altura, resolve isso. Chama-se poleiro de caça e é usado há décadas em agricultura, porque dá às aves de rapina um posto de observação sobre o terreno. Colocado no outono, costuma começar a ser usado nas semanas seguintes, quando os roedores estão mais ativos.
Nas próximas semanas, acompanhe as mínimas na previsão da sua zona. Quando as noites começarem a descer para valores de um dígito, em Chaves ou em Abrantes mais cedo do que em Elvas, é o sinal de que a procura de abrigo vai acelerar. É essa a altura de fechar acessos, e não depois de já os ter cá dentro.