A Serra da Estrela é agora a 14ª Reserva da Biosfera portuguesa reconhecida pela UNESCO

O selo mundial da Organização das Nações Unidas coloca o ponto mais alto de Portugal continental numa rede global que concilia a proteção ecológica com as atividades humanas.

Rochas com 600 milhões de anos e vestígios de glaciações antigas moldam a geodiversidade única da Serra da Estrela. Foto: Alves Gaspar, obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
Rochas com 600 milhões de anos e vestígios de glaciações antigas moldam a geodiversidade única da Serra da Estrela. Foto: Alves Gaspar, obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

As nuvens que galgam os cumes graníticos da cordilheira mais alta de Portugal Continental guardam agora um novo título internacional. A Serra da Estrela passou a integrar oficialmente a Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO.

A distinção premeia uma geografia mítica que soube harmonizar a conservação da biodiversidade com a sobrevivência económica das populações de montanha.

É o 14º território português a alcançar este patamar de proteção, depois de a classificação ter sido atribuída à Serra da Arrábida, em 2025.

O reconhecimento representa uma alavanca estratégica para projetar além-fronteiras a riqueza ecológica, cultural e gastronómica de uma região que respira história e isolamento.

O traçado de uma geografia tripartida

O novo mapa da reserva, desenhado sob a aprovação da agência das Nações Unidas, cobre uma superfície superior a 2370 quilómetros quadrados.

A área geográfica estende-se pelos seis municípios que partilham a gestão do Parque Natural da Serra da Estrela, designadamente Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã.

Para assegurar o equilíbrio do projeto, o espaço divide-se em três zonas que se complementam mutuamente.

O planalto superior da Torre, coberto de neve, destaca-se como o ponto mais alto e emblemático da cordilheira. Foto: Roylindman, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
O planalto superior da Torre, coberto de neve, destaca-se como o ponto mais alto e emblemático da cordilheira. Foto: Roylindman, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

A Zona Núcleo foca-se na proteção total dos valores naturais de altitude mais frágeis, ocupando uma parcela restrita do planalto superior. Em redor desta área surge a Zona Tampão, que assegura uma transição ecológica suave através de uma vigilância atenta.

Reservas da Biosfera UNESCO em Portugal

AnoReserva
1981Boquilobo, Ribatejo
2007Corvo, Açores
2007Graciosa, Açores
2009Flores, Açores
2009Reserva da Biosfera Transfronteiriça do Gerês –Xurés (Portugal/Espanha)
2011Berlengas, Peniche
2011Santana, Madeira
2015Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, Trás-Os-Montes (Portugal/Espanha)
2016Fajãs de S. Jorge, Açores
2016Reserva da Biosfera Transfronteiriça Tejo/Tajo Internacional (Portugal/Espanha)
2017Castro Verde, Alentejo
2020Porto Santo, Madeira
2025Arrábida, Setúbal
2026Serra da Estrela

Por fim, a Zona de Transição representa 62% da reserva total. Este último perímetro destina-se ao desenvolvimento das atividades socioeconómicas das comunidades locais, onde as comunidades locais assumem o papel de guardiãs do meio ambiente.

A herança marcada pelo gelo e pelo isolamento

A candidatura vitoriosa, submetida em 2024 pela Associação Geopark Estrela, resultou de um processo participativo que uniu autarquias, associações locais e cidadãos na defesa deste ecossistema que está entre as maiores áreas protegidas do país.

A história geológica da serra exibe rochas que alcançam os 600 milhões de anos de idade. As marcas da última glaciação criaram vales profundos, lagoas cristalinas e encostas acidentadas que começam nos 350 metros de altitude e culminam nos 1993 metros da Torre.

Este desnível acentuado retém os ventos húmidos do Atlântico e favorece habitats únicos. O relevo agreste e de difícil acesso serviu de refúgio natural para a fauna e a flora ao longo de várias gerações.

A montanha acolhe atualmente 70% das espécies de anfíbios e 75% dos morcegos registados no país. O planalto central destaca-se ainda por abrigar 110 espécies de briófitos e vários endemismos vegetais que não se encontram em mais nenhum ponto do planeta.

O saber ancestral que definiu a paisagem

A UNESCO também valoriza o trabalho humano que se ajustou à paisagem natural. O coração económico da serra bate ao ritmo da pastorícia tradicional e da transumância, a deslocação sazonal de rebanhos para os pastos de altitude durante o verão.

Este ciclo passado entre gerações assegura a matéria-prima para a produção artesanal do Queijo Serra da Estrela, uma joia gastronómica protegida que sustenta dezenas de famílias.

A lã das ovelhas nativas impulsionou ainda uma indústria têxtil histórica na Covilhã e em Manteigas. O artesanato local reinventou-se com o burel, um tecido de lã tradicional de alta resistência que ganhou nova vida no design contemporâneo e na arquitetura de interiores.

Nas zonas mais baixas dos vales fluviais, a agricultura de subsistência mantém a sua importância através do cultivo de centeio e da apanha da castanha.

O novo fôlego na economia de montanha

Os presidentes dos municípios abrangidos encaram o título mundial como um elemento central para fixar populações e atrair investimento ecológico. A chancela da UNESCO eleva o potencial turístico da região fora da época clássica de inverno.

O território quer afirmar-se como um destino de excelência para o turismo de natureza durante todo o ano, potenciando atividades como o pedestrianismo, o ciclismo de montanha e a observação de fauna.

Esta distinção vai colocar-nos numa rede restrita a nível mundial e vai trazer ainda mais curiosos, mais turistas, mais desenvolvimento sustentável, provavelmente investidores da economia verde também”.
Flávio Massano, presidente da Comissão de Cogestão do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e presidente do Estrela Geopark Mundial da UNESCO

O grande desafio passa agora por traduzir o selo internacional em benefícios diretos para os residentes. A gestão integrada dos recursos humanos e financeiros pretende aproximar as comunidades rurais à área protegida.

O Covão dos Conchos é uma lagoa artificial do Parque Natural da Serra da Estrela, construída em 1955, que se tornou num extraordinário reduto de biodiversidade. Foto: larahcv via Pixabay
O Covão dos Conchos é uma lagoa artificial do Parque Natural da Serra da Estrela, construída em 1955, que se tornou num extraordinário reduto de biodiversidade. Foto: larahcv via Pixabay

Ao cruzar a investigação científica com a educação ambiental, a Reserva da Biosfera da Estrela ganha potencial para se transformar num laboratório vivo. O sucesso deste estatuto poderá demonstrar que a proteção do património natural mais valioso de Portugal é capaz de caminhar lado a lado com a prosperidade das populações que habitam a montanha.

Referência da notícia

Serra da Estrela aprovada como Reserva da Biosfera da UNESCO. Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)

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