A Serra da Estrela é agora a 14ª Reserva da Biosfera portuguesa reconhecida pela UNESCO
O selo mundial da Organização das Nações Unidas coloca o ponto mais alto de Portugal continental numa rede global que concilia a proteção ecológica com as atividades humanas.

As nuvens que galgam os cumes graníticos da cordilheira mais alta de Portugal Continental guardam agora um novo título internacional. A Serra da Estrela passou a integrar oficialmente a Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO.
A distinção premeia uma geografia mítica que soube harmonizar a conservação da biodiversidade com a sobrevivência económica das populações de montanha.
O reconhecimento representa uma alavanca estratégica para projetar além-fronteiras a riqueza ecológica, cultural e gastronómica de uma região que respira história e isolamento.
O traçado de uma geografia tripartida
O novo mapa da reserva, desenhado sob a aprovação da agência das Nações Unidas, cobre uma superfície superior a 2370 quilómetros quadrados.
Para assegurar o equilíbrio do projeto, o espaço divide-se em três zonas que se complementam mutuamente.

A Zona Núcleo foca-se na proteção total dos valores naturais de altitude mais frágeis, ocupando uma parcela restrita do planalto superior. Em redor desta área surge a Zona Tampão, que assegura uma transição ecológica suave através de uma vigilância atenta.
Reservas da Biosfera UNESCO em Portugal
| Ano | Reserva |
|---|---|
| 1981 | Boquilobo, Ribatejo |
| 2007 | Corvo, Açores |
| 2007 | Graciosa, Açores |
| 2009 | Flores, Açores |
| 2009 | Reserva da Biosfera Transfronteiriça do Gerês –Xurés (Portugal/Espanha) |
| 2011 | Berlengas, Peniche |
| 2011 | Santana, Madeira |
| 2015 | Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, Trás-Os-Montes (Portugal/Espanha) |
| 2016 | Fajãs de S. Jorge, Açores |
| 2016 | Reserva da Biosfera Transfronteiriça Tejo/Tajo Internacional (Portugal/Espanha) |
| 2017 | Castro Verde, Alentejo |
| 2020 | Porto Santo, Madeira |
| 2025 | Arrábida, Setúbal |
| 2026 | Serra da Estrela |
Por fim, a Zona de Transição representa 62% da reserva total. Este último perímetro destina-se ao desenvolvimento das atividades socioeconómicas das comunidades locais, onde as comunidades locais assumem o papel de guardiãs do meio ambiente.
A herança marcada pelo gelo e pelo isolamento
A candidatura vitoriosa, submetida em 2024 pela Associação Geopark Estrela, resultou de um processo participativo que uniu autarquias, associações locais e cidadãos na defesa deste ecossistema que está entre as maiores áreas protegidas do país.
Este desnível acentuado retém os ventos húmidos do Atlântico e favorece habitats únicos. O relevo agreste e de difícil acesso serviu de refúgio natural para a fauna e a flora ao longo de várias gerações.
A montanha acolhe atualmente 70% das espécies de anfíbios e 75% dos morcegos registados no país. O planalto central destaca-se ainda por abrigar 110 espécies de briófitos e vários endemismos vegetais que não se encontram em mais nenhum ponto do planeta.
O saber ancestral que definiu a paisagem
A UNESCO também valoriza o trabalho humano que se ajustou à paisagem natural. O coração económico da serra bate ao ritmo da pastorícia tradicional e da transumância, a deslocação sazonal de rebanhos para os pastos de altitude durante o verão.
A lã das ovelhas nativas impulsionou ainda uma indústria têxtil histórica na Covilhã e em Manteigas. O artesanato local reinventou-se com o burel, um tecido de lã tradicional de alta resistência que ganhou nova vida no design contemporâneo e na arquitetura de interiores.
Nas zonas mais baixas dos vales fluviais, a agricultura de subsistência mantém a sua importância através do cultivo de centeio e da apanha da castanha.
O novo fôlego na economia de montanha
Os presidentes dos municípios abrangidos encaram o título mundial como um elemento central para fixar populações e atrair investimento ecológico. A chancela da UNESCO eleva o potencial turístico da região fora da época clássica de inverno.
O território quer afirmar-se como um destino de excelência para o turismo de natureza durante todo o ano, potenciando atividades como o pedestrianismo, o ciclismo de montanha e a observação de fauna.
Flávio Massano, presidente da Comissão de Cogestão do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e presidente do Estrela Geopark Mundial da UNESCO
O grande desafio passa agora por traduzir o selo internacional em benefícios diretos para os residentes. A gestão integrada dos recursos humanos e financeiros pretende aproximar as comunidades rurais à área protegida.

Ao cruzar a investigação científica com a educação ambiental, a Reserva da Biosfera da Estrela ganha potencial para se transformar num laboratório vivo. O sucesso deste estatuto poderá demonstrar que a proteção do património natural mais valioso de Portugal é capaz de caminhar lado a lado com a prosperidade das populações que habitam a montanha.
Referência da notícia
Serra da Estrela aprovada como Reserva da Biosfera da UNESCO. Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)
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