O superfenómeno El Niño está a influenciar as mudanças de tempo que chegam do Atlântico a Portugal
O Atlântico Norte atravessa um início de setembro invulgarmente calmo em plena época alta de ciclones tropicais. O El Niño poderá estar a contribuir para esta redução da atividade e, de forma indireta, influenciar o tempo em Portugal.
O Atlântico está surpreendentemente tranquilo numa altura do ano em que deveria estar a entrar no pico da atividade tropical. O El Niño poderá ser uma das peças deste puzzle, ao dificultar a formação de ciclones tropicais e alterar, de forma indireta, a circulação atmosférica que condiciona o tempo em Portugal.
Um Atlântico estranhamente calmo em pleno setembro
Setembro marca o início do outono climatológico em Portugal, mas também coincide com o período em que a temporada de ciclones tropicais do Atlântico Norte costuma atingir o seu máximo de atividade. Águas oceânicas mais quentes e condições atmosféricas favoráveis permitem habitualmente a formação de tempestades tropicais e furacões.
No entanto, o cenário atual é bastante diferente. O mapa do National Hurricane Center (NHC) não identifica qualquer perturbação tropical com potencial de desenvolvimento nos próximos sete dias. Para uma altura tão próxima do pico climatológico da temporada, esta ausência de atividade merece atenção.

Ao mesmo tempo, as previsões de médio prazo do ECMWF têm mostrado um sinal relativamente seco para Portugal. Entre 14 e 21 de setembro, grande parte do território apresenta uma anomalia negativa da precipitação, indicando uma semana potencialmente mais seca do que seria habitual nesta altura do ano. Este sinal tem vindo a estar presente desde a primeira semana de setembro.

Mas o que poderá o El Niño, um fenómeno que começa a milhares de quilómetros de Portugal, ter a ver com tudo isto?
O que é o El Niño e como consegue alterar a atmosfera?
O El Niño corresponde ao aquecimento anómalo e persistente das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Mas as suas consequências não ficam confinadas ao oceano.

Quando enormes áreas do Pacífico tropical aquecem, aumenta a transferência de calor e vapor de água do oceano para a atmosfera. A convecção tropical reorganiza-se e, com ela, alteram-se padrões de circulação atmosférica a grande escala.
Por consequência, o jato polar pode mudar de intensidade, posição ou ondulação, embora a resposta sobre o Atlântico Norte e a Europa não seja linear nem igual em todos os episódios de El Niño.
E é precisamente essa complexa cadeia de interações que permite que uma anomalia no Pacífico possa acabar por deixar a sua impressão, ainda que indireta, no tempo europeu.
El Niño pode colocar um “travão” nos furacões do Atlântico
Existe outra ligação particularmente importante. Historicamente, o El Niño tende a suprimir a atividade de ciclones no Atlântico, sobretudo por favorecer um aumento do cisalhamento vertical do vento sobre partes da região tropical, causado por um jato polar ondulado.
Um ciclone tropical precisa de águas suficientemente quentes, muita humidade e, sobretudo, de uma estrutura atmosférica que permita às enormes torres de convecção organizarem-se em torno do seu centro. Quando os ventos mudam demasiado de velocidade ou direção com a altitude, essa organização torna-se mais difícil.

De uma forma visual, podemos imaginar que um cisalhamento forte do vento “corta” a tempestade. O sistema perde organização e pode não conseguir evoluir para uma tempestade tropical ou furacão. A intrusão de ar mais seco (do jato polar ondulado) também pode limitar a convecção e dificultar o desenvolvimento de determinados sistemas.
E o que têm os furacões do outro lado do Atlântico a ver com Portugal?
Um furacão não precisa de atingir Portugal para influenciar o nosso tempo. Quando um ciclone tropical sobe em latitude e se aproxima da circulação das latitudes médias, pode interagir com o jato polar e sofrer uma transição.
Essa interação pode amplificar as ondulações do jato, reforçar dorsais anticiclónicas numa região e aprofundar depressões noutra. Por outras palavras, um antigo ciclone tropical no Atlântico ocidental pode contribuir para reorganizar o “tabuleiro” atmosférico vários milhares de quilómetros mais a leste. E Portugal encontra-se precisamente na fachada oriental do Atlântico Norte.
Por isso, uma temporada com menos sistemas tropicais significa também menos oportunidades para este tipo específico de interação entre ciclones tropicais e a circulação das latitudes médias. Isso não implica necessariamente menos chuva em Portugal, uma vez que as depressões extratropicais podem continuar a formar-se, mas retira uma das fontes de perturbação do atlântico.
Portugal mais seco? Já estamos a observar a influência do El Niño?
Os mapas atuais deixam algumas pistas interessantes, mas ainda não permitem estabelecer uma relação direta.
O ECMWF mostra para 14 a 21 de setembro um sinal de precipitação abaixo da média em Portugal, enquanto o NHC apresenta um Atlântico tropical sem qualquer sistema previsto nos próximos sete dias.
Nos mapas de altitude, o jato continua bastante ondulado sobre o Hemisfério Norte. Ao mesmo tempo, as previsões de pressão atmosférica mostram Portugal relativamente protegido da passagem direta das principais perturbações atlânticas nos próximos dias.
As peças encaixam numa narrativa meteorológica interessante, mas é importante não confundir correlação com causalidade. Não podemos afirmar que Portugal está mais seco simplesmente porque o El Niño está a impedir a formação de ciclones tropicais.
O que podemos dizer é que o El Niño modifica o contexto atmosférico global, tende a tornar o Atlântico menos favorável à atividade tropical e pode alterar as correntes de jato. Estamos, portanto, perante uma cadeia de influências indiretas.