O calor em Lisboa "está impossível de aguentar", diz a meteorologista Marta Godinho: "O que está por vir preocupa-me"

Lisboa está a viver dias de calor extremo, com máximas próximas dos 40 ºC e noites pouco refrescantes. A cúpula de calor poderá prolongar-se até à próxima semana, agravando o desconforto térmico e o risco de incêndio.
O calor extremo já se faz sentir em Portugal e Lisboa é um dos exemplos evidentes desta onda de calor. Entre temperaturas próximas dos 40 ºC, noites pouco refrescantes e uma persistência pouco habitual para o início de julho, os modelos meteorológicos indicam que o episódio poderá prolongar-se durante vários dias, mantendo o país sob uma intensa cúpula de calor.
Lisboa vive dias de calor intenso
Vivo em Lisboa e, nos últimos dias, a sensação tem sido de que o calor domina completamente o quotidiano. Ontem, por exemplo, tinha prevista uma caminhada de cerca de 20 minutos até ao metro. Acabei por optar pelo carro, mesmo sabendo das dificuldades em estacionar no centro da cidade.
Durante a tarde desta quinta-feira, vários locais da Área Metropolitana de Lisboa poderão atingir valores próximos dos 40 ºC, especialmente nas zonas mais afastadas da influência marítima.

A diferença entre o litoral e o interior do distrito será bastante evidente, com localidades costeiras significativamente mais frescas graças à proximidade do oceano.
Mas o problema não termina quando o sol se põe. Embora o ar permaneça relativamente seco, as cidades têm enorme dificuldade em dissipar o calor acumulado durante o dia. O chamado efeito de ilha de calor urbana resulta da combinação entre materiais como o betão e o asfalto, a elevada densidade de edifícios, a impermeabilização dos solos e o calor gerado pela própria atividade humana. Assim, as noites tornam-se pouco confortáveis, permitindo apenas um arrefecimento muito lento mas sem alívio para a população.
Uma cúpula de calor pouco habitual para o litoral português
Os mapas de anomalia térmica mostram que Portugal será um dos países europeus com temperaturas mais acima da média para esta época do ano. O facto torna-se ainda mais significativo no litoral ocidental, onde, em pleno verão, é habitual a nortada moderar as temperaturas.

Desta vez, porém, a situação é diferente. Um Anticiclone dos Açores robusto, posicionado a oeste da Península Ibérica, impede a entrada de ar mais fresco do Atlântico. Em simultâneo, uma massa de ar muito quente proveniente do Norte de África invade a Península Ibérica e, posteriormente, os ventos de leste transportam esse ar aquecido do interior de Espanha para Portugal, reforçando a intensidade da onda de calor. Mesmo as manhãs deixarão de oferecer grande alívio.
No domingo, por volta das 09h00, muitos locais do interior e do Centro já poderão registar temperaturas próximas ou superiores aos 30 ºC, sinal de que o aquecimento começa muito cedo e prolonga-se durante todo o dia.
O calor poderá prolongar-se até à próxima semana
O que mais me preocupa não é apenas a intensidade do calor, mas sobretudo a sua persistência. Os mapas de geopotencial e temperatura do modelo europeu (ECMWF) continuam a indicar que a massa de ar muito quente poderá manter-se sobre a Península Ibérica até, pelo menos, aos dias 9 ou 10 de julho.

É verdade que, nessa fase, o núcleo da massa de ar mais quente tenderá a deslocar-se ligeiramente para Espanha. Ainda assim, se a circulação do vento continuar a transportar ar do interior espanhol para Portugal, o calor poderá persistir em grande parte do território.
Importa recordar que esta continua a ser uma previsão de médio prazo e poderá sofrer ajustes.
Ainda assim, a tendência é consistente entre as últimas atualizações dos modelos, o calor extremo deverá continuar a marcar o estado do tempo durante vários dias, e isso, enquanto meteorologista e enquanto lisboeta, é aquilo que mais me preocupa.