Mergulhe nas aventuras marítimas do rei D. Carlos, o primeiro oceanógrafo português
O monarca liderou 12 campanhas científicas, trazendo do fundo do mar espécies até então nunca vistas, expostas no Aquário Vasco da Gama.

Quando nos lembramos de D. Carlos I, o que imediatamente nos vem à memória é o fatídico episódio do regicídio. No dia 1 de fevereiro de 1908, o rei foi morto, em pleno Terreiro do Paço, em Lisboa, por republicanos e elementos da Carbonária. O seu legado, no entanto, está vivo e perdura até aos dias de hoje.
D. Carlos dedicou-se a várias artes e interessou-se por distintos ramos da ciência. Mas, acima de tudo, foi um grande estudioso do mar português. Deixou uma obra internacionalmente reconhecida e é considerado um dos pioneiros mundiais da oceanografia. Foi ele o primeiro a conhecer e a divulgar a fauna do nosso mar.
Das profundezas do Atlântico, trouxe espécies nunca vistas, descreveu como funcionam as correntes, estudou criaturas marinhas, como baleias, tubarões, tartarugas ou atuns, e provou, inclusive, que a vida não se extingue a partir dos 500 metros de profundidade, como até então se pensava.
Um príncipe deslumbrado com o mar
O fascínio pela ciência oceanográfica começou ainda em criança. Aos oito anos, ganhou do pai, o rei D. Luís I, As Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. As aventuras do capitão Nemo, com profusas e minuciosas ilustrações de monstros marinhos, despertaram-lhe a vontade de explorar os abismos oceânicos da costa portuguesa, como irá fazer, mais tarde, ao largo de Setúbal.
Na juventude foi também profundamente influenciado por cientistas de renome, mas será o príncipe Alberto do Mónaco, um dos mais distintos oceanógrafos da época, que irá determinar a sua vocação pelo mar. Conheceu-o em Lisboa, com 15 anos, e ficou maravilhado com o seu iate e as histórias das campanhas marítimas. Manterá com ele uma forte ligação, durante longos anos, seguindo as suas pisadas.
As campanhas marítimas do rei
Durante mais de uma década, D. Carlos realizou 12 expedições científicas ao longo da costa portuguesa. O resultado destas missões foi uma coleção zoológica de valor histórico e científico incalculável. Até aos dias de hoje, este acervo continua a servir de referência para investigações sobre peixes e crustáceos.

A Oceanografia portuguesa teve início a 1 de setembro de 1896, com a entrada de D. Carlos a bordo do iate 'D. Amélia'. O rei deu então início a um conjunto de expedições na costa atlântica nacional que se prolongaria até 1907.
Nas campanhas a bordo das embarcações – ao todo, teve quatro iates batizados com o nome da rainha – o monarca privilegiou as águas dos estuários do Tejo e do Sado e cursos adjacentes: os mares de Cascais, do cabo Espichel e de Sesimbra, entre o cabo da Roca e Sines.
Tratavam-se, nessa altura, das atividades económicas mais relevantes para o país que herdara para governar num contexto gravemente afetado por crises financeiras e políticas. Em 1898, dedicou-se, em especial, ao estudo sobre “A Pesca do Atum no Algarve”, obra editada pela Imprensa Nacional, Lisboa, em 1899.
Marinheiros experientes e tecnologias de ponta
Para as suas campanhas, o monarca contou com tripulações da Marinha criteriosamente selecionadas entre os militares mais experientes e especializados em missões científicas.
Muitos destes homens acompanharam-no ao longo de vários anos, destacando-se o famoso explorador Roberto Ivens. A equipa incluía ainda dois fiéis cães-de-água, que frequentemente auxiliavam no transporte de material científico entre a água e o iate.
O conhecimento adquirido nas expedições nunca poderia ter vindo à tona sem uma enorme operação logística por detrás. O rei investiu, por isso, em tecnologias de última geração. A sala de fumo da D. Amélia III, por exemplo, foi pintada de branco e convertida em laboratório.
A bordo seguiam diversos instrumentos de precisão, como termómetros de inversão, densímetros, dragas, arrastos, sondas e flutuadores derivantes para o estudo das correntes.
Destacava-se ainda o famoso espinhel, uma linha com múltiplos anzóis adaptada pelo monarca para a pesca profunda a cerca de dois mil metros — uma proeza numa época em que a comunidade científica acreditava que a vida marinha não existia além dos 500 metros de profundidade.

O legado científico de D. Carlos foi partilhado com o público em diversos momentos. A Escola Politécnica, a Sociedade de Geografia de Lisboa e o Aquário Vasco da Gama, em Algés, foram algumas das instituições nacionais que acolheram exposições dos seus espécimes, instrumentos e materiais.
Internacionalmente, o seu trabalho alcançou grande visibilidade na Exposição Universal de Milão, em 1906, e, já após a sua morte, numa mostra realizada no Rio de Janeiro.
A maior parte do espólio, no entanto, está no Aquário Vasco da Gama, que o rei mandou construir para as comemorações dos 400 anos do descobrimento do caminho marítimo para a Índia.

Inaugurado em 1898, em Algés, no município de Oeiras, é o mais antigo museu-aquário aberto do mundo e é ali que estão mais de 300 espécies marinhas vivas e milhares de exemplares de água doce e salgada em exposição.
O espólio do rei no Aquário Vasco da Gama
O acervo do rei inclui instrumentos, estudos, apontamentos, notas pessoais e aguarelas coloridas. O destaque vai, naturalmente, para os tesouros que trouxe do fundo do mar – esponjas de diferentes formas, aranhas-do-mar, cavalos-marinhos, enguias, caranguejos ou camarões conservados em belíssimos frascos de vidro antigos.

Alguns exemplares foram preservados através da naturalização — uma técnica distinta da tradicional taxidermia ou empalhamento —, como tartarugas gigantes, o peixe-lua, as andorinhas-do-mar e o tubarão-demónio.
Este último foi assim batizado pelo próprio monarca, que inicialmente julgou tratar-se de uma nova espécie. Embora inédito no Atlântico, o animal já havia sido avistado no oceano Pacífico. Há, portanto, uma imensidão de mar português desvendada por D. Carlos que hoje é possível descobrir numa visita ao Aquário Vasco da Gama.
Referência da notícia
Sousa Reis, C. e Costa, M.J.. Investigação oceanográfica e cooperação internacional. Janus online. (1998).
Saldanha, L. e Ré, P.. One Hundred Years of Portuguese Oceanography. In the footsteps of King Carlos de Bragança. Publicações avulsas do Museu Bocage, 2ª série, (1997)..
Prado Coelho, A. Jornal Público.